📅 Publicado em 28/05/2026 15h50
O que a saúde emocional de uma empresa tem em comum com uma espetaria às margens da VP-3, na Nova Marabá? À primeira vista, quase nada. De um lado, treinamentos corporativos voltados ao desenvolvimento humano e, do outro, fumaça na brasa, atendimento ao público e o movimento acelerado das noites da cidade. Mas existe uma mulher que conseguiu unir esses dois universos em torno de uma mesma ideia, que é cuidar de pessoas.
Essa é a trajetória da cearense Kelly Beserra, empreendedora que transformou vivências, dificuldades e conhecimento emocional em duas microempresas que hoje caminham lado a lado. São elas a Celebre Consultoria, voltada ao desenvolvimento de competências socioemocionais em empresas, e o Esquinão do Espeto, espetaria adquirida pela empresária em 2024.

Natural de Crateús, no sertão do Ceará, Kelly chegou ao sudeste do Pará em 2001. Voltou ao estado natal por um curto período e retornou definitivamente para a terra de Francisco Coelho em 2003. Professora por formação, construiu boa parte da vida profissional trabalhando como CLT em empresas ligadas à mineração, especialmente em projetos terceirizados da Vale.
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Foi justamente durante um desses períodos, enquanto atuava em Porto Trombetas – distrito do município de Oriximiná, no oeste do Pará – que começou a perceber que queria outro caminho para a própria vida.
“Eu trabalhava dirigindo uma escola e aquilo começou a me inquietar. Era uma rotina muito distante de tudo, muito limitada e porque aquela vila não tinha nada. Teve uma hora que eu pensei: ‘Não quero mais isso para mim’. Foi ali que eu comecei a olhar para a Celebre com mais força e entender que eu precisava construir algo meu”, relembra.

A Celebre nasceu ainda em 2013, de forma tímida e dentro de casa (home office), quando inicialmente era conciliada com o trabalho formal. A empresa começou oferecendo consultorias e treinamentos voltados ao desenvolvimento humano e com o passar dos anos, Kelly passou a investir em especializações, incluindo MBAs (sigla para Master in Business Administration, que significa uma pós-graduação voltada à gestão de negócios, liderança estratégica e ao desenvolvimento de competências emocionais com foco em neuropsicologia). Hoje, a microempresa atua principalmente dentro de ambientes corporativos, desenvolvendo líderes, equipes e colaboradores.
“Eu costumo dizer que não existe uma pessoa em casa e outra no trabalho. Existe um ser humano só e se ele está adoecido emocionalmente, isso atravessa todas as áreas da vida. Então meu trabalho é justamente ajudar as pessoas a desenvolverem habilidades emocionais para lidar com isso”, explica.
A empresária afirma que o crescimento da Celebre aconteceu gradualmente até alcançar um novo patamar em 2025, quando deixou de ser Microempreendedora Individual (MEI) e se tornou uma ME (Microempresa), após ultrapassar o teto de faturamento permitido.
“Eu não saí do MEI porque quis, mas porque o negócio cresceu. Foi um susto, mas também foi a comprovação de que aquilo que eu vinha construindo estava dando resultado”. Mas o empreendedorismo de Kelly ainda a reservaria outra surpresa.
Útil ao agradável
Depois de passar cerca de dez anos trabalhando fora de Marabá, ela retornou à cidade no início de 2024. Pouco tempo depois, durante uma conversa casual em uma espetaria da VP-3, ouviu do então proprietário que o estabelecimento estava à venda. “Eu fui jantar lá e ele comentou que queria vender. Na mesma hora respondi falei que queria comprar. Três dias depois, o negócio já era nosso”, relembra, aos risos.

Assim nasceu uma nova fase com a aquisição do Esquinão do Espeto. Funcionando diariamente em torno das 17h às 23h, a espetaria, que também produz pizzas e outros alimentos, emprega atualmente oito colaboradores diretos e se tornou mais do que uma fonte de renda para a empresária. O curioso é que Kelly revela que mesmo durante a transição de proprietário e novas reformas, o estabelecimento não fechou suas portas em nenhum dia. Assim, o local acabou se transformando também em espaço de convivência, escuta e acolhimento.
Kelly costuma circular entre as mesas conversando com clientes, observando o funcionamento da equipe e acompanhando a rotina do espaço. Em meio ao movimento, percebeu que os dois empreendimentos estavam muito mais conectados do que imaginava.
“Tem gente que chega ali no espeto querendo só conversar. E às vezes a pessoa não está buscando comida, está buscando acolhimento. Já aconteceu de alguém dizer que talvez não estivesse viva se não tivesse encontrado um espaço para ser ouvida”
Para ela, trabalhar diretamente com pessoas exige preparo emocional constante – principalmente diante da responsabilidade de liderar equipes e lidar diariamente com diferentes realidades. “Empreender mexe muito com o emocional. Tem dia que colaborador adoece, tem dia que falta funcionário, tem problema financeiro, tem pressão. E as pessoas não enxergam isso, só veem o empresário que aparentemente está ganhando dinheiro, mas não sabem o tanto de coisa que ele precisa resolver todos os dias”.
Suporte institucional
A relação de Kelly com o empreendedorismo também passou pelo apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), instituição que lhe presta suporte técnico desde os primeiros anos da Celebre e que, atualmente, auxilia os dois negócios.
Segundo Nádia Rodrigues, facilitadora do Sebrae em Marabá, Kelly representa um perfil de mulheres cada vez mais presente na região, as quais transformam pequenos negócios em estruturas consolidadas.
“Ela é uma empresária muito comprometida, sempre preocupada em melhorar os processos e buscar qualificação. E isso faz diferença. Hoje as mulheres representam cerca de 48% dos microempreendedores individuais acompanhados pelo Sebrae, principalmente em áreas como alimentação, beleza e comércio”, destaca.
Nádia afirma que o crescimento do empreendedorismo feminino está diretamente ligado à busca por autonomia financeira e flexibilidade diante da dupla jornada enfrentada por muitas mulheres. E Kelly concorda. Apesar de afirmar que cresceu em um ambiente familiar onde nunca foi ensinada a se sentir inferior aos homens, ela conta que passou a perceber diferenças no mercado de trabalho ao longo da vida profissional.
“Existe ainda uma questão de gênero muito pertinente. Às vezes uma mulher está em posição de liderança, extremamente preparada, mas basta chegar um homem que recebe mais atenção. Isso ainda infelizmente acontece, mesmo que de forma velada”.
“Se joga, irmã!”
Mesmo diante das dificuldades, ela incentiva outras mulheres a empreenderem. “Se joga, vai com vontade! A gente empreende primeiro dentro de casa, cuidando da família, administrando tudo ao mesmo tempo. Depois leva isso para os negócios. Mas tem que acontecer”.
Entre treinamentos corporativos, conversas sobre saúde emocional e noites movimentadas no Esquinão do Espeto, Kelly segue administrando duas empresas construídas a partir da mesma essência que a move desde sempre: gente.
“Eu acredito que meu propósito é trabalhar com vidas. O impacto que eu quero deixar é a transformação. Porque no fim das contas ninguém é melhor do que ninguém. O que muda a vida das pessoas é oportunidade, acolhimento e a coragem de continuar”, conclui.

