Correio de Carajás

A revolução do cuidado no fim da vida chega ao Norte do Brasil

Em entrevista exclusiva, a enfermeira alemã Karin Schmid e a médica marabaense Dra. Lorena Agrizzi debatem a importância da medicina paliativa, a recente Política Nacional e o pioneirismo de Marabá na difusão do movimento

Lorena Agrizzi e Karin Schmid falaram à Correio FM sobre o movimento paliativista
✏️ Atualizado em 27/05/2026 17h36

O cuidado no fim da vida e o alívio do sofrimento diante de doenças graves têm ganhado um novo e fundamental espaço de discussão no Brasil, especialmente na região Norte. Durante uma entrevista concedida ao programa do comunicador Leverson Oliveira, na Rádio Correio FM 92,1, em Marabá, duas das maiores referências no assunto abordaram os desafios e os avanços da Medicina Paliativa.

A enfermeira alemã Karin Schmid, pioneira do movimento Last Aid (Últimos Socorros) no país, e a médica marabaense Dra. Lorena Agrizzi, especialista nacional em Cuidados Paliativos, trouxeram reflexões profundas sobre como a sociedade e os profissionais de saúde lidam com a terminalidade, o luto e o sofrimento.

As especialistas promoveram em Marabá a “Formação de Facilitadores do Curso de Últimos Socorros”, evento realizado no dia 23 de maio, considerado um marco histórico para a saúde da região. O curso, que tem origem na Alemanha e se espalhou pelo mundo, visa ensinar à população comum como cuidar de pessoas que estão no fim da vida, de forma análoga aos cursos de primeiros socorros que ensinam a salvar vidas.

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O cuidado além da cura

Um dos pontos centrais da entrevista foi a desmistificação do conceito de Cuidados Paliativos. Diferente da crença popular de que a medicina paliativa significa “não ter mais o que fazer” pelo paciente, a Dra. Lorena Agrizzi foi categórica ao afirmar que essa visão está equivocada. Segundo a especialista, a abordagem paliativa deve ser iniciada precocemente, a partir do momento em que há uma condição que ameaça a vida e gera sofrimento.

“Se há um sofrimento ligado a alguma condição, há necessidade dos cuidados paliativos”, explicou a Dra. Lorena. Ela ampliou o conceito para além das doenças terminais, citando exemplos de pessoas em zonas de guerra ou vítimas de catástrofes ambientais.

“O cuidado paliativo cuida do sofrimento. Se há um sofrimento, há necessidade de cuidado paliativo. É bem mais amplo do que apenas o fim da vida. Na verdade, é sobre a vida. E se há sofrimento nessa vida, esse sofrimento precisa ser aliviado”.

A médica ressaltou que a dor não é apenas física. Muitas vezes, o sofrimento tem raízes espirituais, psicológicas ou emocionais. “Esses dias, uma pessoa me disse que o que mais incomodava ela era não poder sorrir mais”, relatou. Nesses casos, a atuação de uma equipe multiprofissional — incluindo psicólogos, fisioterapeutas, dentistas, terapeutas ocupacionais e até líderes espirituais — é fundamental para identificar e tratar a fonte da dor.

Últimos Socorros

A enfermeira Karin Schmid, que trouxe o movimento Last Aid para o Brasil, explicou a essência do projeto. A ideia é simples, porém revolucionária: assim como aprendemos primeiros socorros para salvar vidas em emergências, precisamos aprender os “últimos socorros” para proporcionar qualidade de vida a quem está partindo.

“A gente parte do princípio que a pessoa já está tão doente que a gente não vai conseguir curar ela, mas a gente vai conseguir dar muita qualidade de vida para ela. E a gente desaprendeu isso como sociedade”, afirmou Karin. Ela relatou que é comum as pessoas não saberem como agir diante de um ente querido em fase terminal.

“A gente fica assim: ‘E agora, o que eu faço? Como é que eu ajudo? Posso chegar perto? Eu posso visitar a pessoa que está doente, que eu sei que vai morrer daqui a pouco, ou melhor, eu não ir na casa dela?'”.

O curso de Últimos Socorros, com duração de apenas quatro horas, ofereceu dicas práticas e reflexões sobre o final da vida, ajudando a quebrar o tabu de que a morte deve acontecer distante, isolada em hospitais.

A dor de quem fica

A medicina paliativa, como enfatizaram as entrevistadas, não se restringe ao paciente. A família e a rede de apoio são partes fundamentais do processo. O comunicador Leverson Oliveira lembrou de uma conversa em que ouviu falar sobre o “dono do paciente” — aquela pessoa que assume a responsabilidade integral pelo cuidado e que, invariavelmente, também adoece.

A Dra. Lorena confirmou a gravidade dessa situação, especialmente em doenças longas como as demências. “O dono do paciente que cuida, que faz que tudo aconteça, também adoece. Ainda mais quando é uma condição de doença de anos, como um quadro demencial, que às vezes é 15, 20 anos”, alertou.

Ela destacou a importância de criar uma rede comunitária de apoio. “Os profissionais de saúde ficam menos de 5% com a família, com o paciente. Os 95% é a família, na comunidade, o entorno”. A médica explicou ainda o conceito de luto antecipatório, comum em casos de Alzheimer, onde a personalidade do paciente muda drasticamente, iniciando o processo de despedida muito antes do falecimento físico.

Karin Schmid complementou, relatando que cuidar de pacientes com demência avançada, como o Alzheimer, é um dos maiores desafios pessoais na área, devido à impossibilidade de comunicação verbal. “Quem tem um Alzheimer muito avançado não entende mais o que eu falo. Então, eu não consigo conversar, não consigo explicar. Aí, o cuidado, pelo menos para mim, ele fica mais difícil”.

Apesar dos desafios das doenças neurodegenerativas, a enfermeira esclareceu que o câncer continua sendo a doença que mais demanda cuidados paliativos, tanto pelo volume de pacientes quanto pelo histórico da própria especialidade, que nasceu atrelada à oncologia.

Os profissinais que participaram da formação de paliativistas em Marabá

O SUS e a nova política nacional

Um dos momentos mais comemorados da entrevista foi a discussão sobre os avanços legais e estruturais no Brasil. Recentemente, foi publicada a Política Nacional de Cuidado Paliativo, garantindo financiamento via Ministério da Saúde para a habilitação de equipes especializadas no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Hoje, sim, cuidados paliativos no SUS é um direito, foi conquistado pela população”, celebrou a Dra. Lorena. Ela destacou o papel de protagonismo de Marabá, que foi representante da Conferência Livre Nacional de Cuidado Paliativo, com a médica atuando como delegada.

No Pará, os desafios são proporcionais ao tamanho do estado. Um grupo de trabalho da Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA), do qual a Dra. Lorena faz parte, está desenvolvendo estratégias para implementar as equipes paliativas respeitando as particularidades regionais. “Temos os nossos territórios, as nossas distâncias, os nossos rios, as nossas populações diversas. Então, há necessidade de se pensar nessas delicadezas”, explicou.

Apesar da falta de níveis especializados no serviço público de Marabá atualmente, a Dra. Lorena fez questão de valorizar os profissionais locais. “Eu sou uma admiradora dos profissionais de saúde do Norte, porque eles são a presença, fazem das tripas coração, às vezes mesmo com condições precárias, conseguem levar a melhor assistência”.

Ela ressaltou que o conhecimento básico em cuidados paliativos pode e deve ser aplicado em todos os níveis de assistência. “A enfermeira do postinho pode ofertar cuidado paliativo, o médico do ambulatório pode ofertar, ou a médica do hospital também pode ofertar. Então, espera-se que o conhecimento básico esteja presente”.

O evento em Marabá não apenas formou facilitadores, mas também promoveu um encontro histórico entre profissionais e estudantes de medicina. Karin Schmid relatou o interesse genuíno dos futuros médicos em aprender a lidar com a frustração de não poder curar.