Correio de Carajás

Oficina que nasceu MEI expande-se com funcionários como sócios

“Chambari” começou como Microempreendedor e, hoje, aposta nos próprios funcionários como sócios para abrir filiais, uma delas em Canaã dos Carajás

Homem em frente à oficina automotiva Chambas Car, que oferece lanternagem, pintura e estética.
A história de Neucimar mostra como a capacitação técnica e a gestão financeira são poderosas para alavancar um negócio/ Fotos: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 27/05/2026 10h14

Não foi herança. Não foi sorte. Neucimar de Assis Soares Júnior, o ‘Chambari’, de 36 anos, iniciou sua vida profissional recebendo 20 reais por semana para montar e desmontar veículos. Hoje, o mecânico e pintor é proprietário de um complexo automotivo na Folha 11, periferia de Marabá. Ele gerencia 18 colaboradores e se prepara para inaugurar a segunda filial de sua empresa no núcleo Cidade Nova.

A trajetória do empresário exemplifica como a organização financeira e a busca por capacitação técnica podem alavancar o crescimento de um Microempreendedor Individual (MEI). Além disso, o sucesso profissional de Neucimar revela como a persistência e a busca por conhecimento transformam a realidade de pequenos empreendedores nas periferias.

Neucimar comanda duas oficinas e se prepara para abrir duas filiais, inclusive fora de Marabá

Para quem começou pequeno, a estrutura atual surpreende. Atualmente, a Chambas Car e a franquia Dr. Farol atendem de 10 a 15 veículos por dia, atraindo motoristas de municípios da região, como Tucuruí e Rondon do Pará. O volume de serviço exigiu que o empreendedor abrisse uma nova unidade para suprir a demanda de clientes que moram do outro lado da ponte do Rio Itacaiunas (Cidade Nova).

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Ao relembrar o passado, Neucimar conta sobre sua entrada no mercado de trabalho, experiência que exigiu paciência e resiliência. Aos 15 anos, ele teve que priorizar os estudos ao invés de trabalhar na oficina do avô. Um ano depois, conseguiu seu primeiro emprego como ajudante e como remuneração recebia 20 reais por semana para montar, desmontar e preparar veículos.

Pouco depois, ele atuou como preparador em uma grande concessionária de Marabá. Foi lá que aprendeu uma lição fundamental sobre o mundo corporativo e a sobrevivência no mercado: quando há crise econômica, há redução. O ano era 2013 e com o polo siderúrgico atingido pelo colapso financeiro, inúmeros trabalhadores marabaenses perderam seus empregos. Incluindo Neucimar.

COMEÇO E RECOMEÇO

“Você tem que aprender a fazer tudo. Se sua área é essa, aprende mais alguma coisa, que no dia que a empresa precisar mandar alguém embora, não é você que vai. Aqueles que têm mais funções, conseguem entregar mais resultado, são os que vão ficar”, aconselha Neucimar.

Quando foi desligado da concessionária e precisou recomeçar, a primeira versão da sua oficina, a Chambas Car, funcionava em um espaço muito restrito de cinco por seis metros na Folha 12, também na periferia. Com muito esforço ele comprou as ferramentas necessárias, mas uma delas custava caro. Por isso, chegou a alugar um espaço dentro da propriedade de um amigo torneiro mecânico, apenas para ter acesso a um compressor de ar emprestado.

Neucimar recusou ofertas de parceiros com alto capital financeiro para priorizar sua própria equipe no quadro societário

Para quem dava os primeiros passos no universo do empreendedorismo, ‘reinvenção’ se tornou a palavra-chave para ele.

A grande virada física de seu negócio ocorreu quando um cliente exigiu um local fechado e seguro para deixar uma caminhonete de alto valor durante um serviço demorado. Para não perder o trabalho, Neucimar recebeu o pagamento adiantado e construiu uma cobertura improvisada no quintal íngreme da própria casa. O negócio cresceu ali mesmo até que, anos depois, ele teve a coragem de alugar o terreno atual, na Folha 11.

À época, tinha apenas 900 reais na conta bancária, dinheiro usado inteiramente para pagar a máquina de limpeza do lote. Para erguer a estrutura da sua segunda operação no local, a franquia Dr. Farol, a solução foi entregar o próprio carro de passeio como forma de pagamento ao construtor do galpão. A falta de dinheiro no bolso nunca foi um empecilho.

Neucimar Soares: “Quando a gente entrega um serviço de perfeição, com qualidade, não tem preço”

IMPACTO DO EMPRETEC

Com o salto estrutural do negócio, era chegada a hora de buscar capacitação em gestão. Foi então que houve um novo ponto de virada para Neucimar e a Chambas Car, impulsionado pelo convite para participar do Empretec, um treinamento imersivo do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

O analista de negócios do Sebrae, José Airton Ribeiro Gonçalves, acompanhava o setor automotivo local e percebeu o potencial do então microempreendedor individual, que possuía uma estrutura ainda rudimentar, mas demonstrava extrema curiosidade.

“Eu notava que o Neucimar era uma pessoa que tinha uma vontade muito grande de aprender, de crescer. O Empretec mostra que o sucesso de alguém está relacionado mais ao seu comportamento. Ali, eu vi uma pessoa que se aprimorou. Ele foi alguém que renasceu dentro desse espaço”, destaca o analista.

José Airton percebeu que Neucimar tinha vontade de aprender e o incentivou a se inscrever no Empretec

O curso abriu a visão do empresário para a importância do controle financeiro, da inovação e da gestão de pessoas. Neucimar compreendeu a diferença entre gastar e investir para crescer e passou a delegar liderança aos colaboradores, o que reduziu falhas de compromisso da equipe e multiplicou o faturamento, fazendo a oficina ultrapassar o teto do MEI e alcançar o patamar de microempresa.

NOVA EXPANSÃO

Com a demanda superando o espaço na Folha 11, a ponto de atender 15 veículos por dia e receber clientes de Tucuruí, Neucimar precisou buscar um novo endereço na Cidade Nova. É hora de uma nova expansão.

Após saber de um galpão recém-construído, ele conta que fez uma oração silenciosa em frente ao imóvel em um domingo à noite. Na segunda-feira seguinte, conseguiu alugar o espaço abaixo do preço de mercado, desbancando concorrentes graças à sua boa reputação no setor.

Para o homem que começou ganhando 20 reais por semana, a verdadeira mudança de vida está na capacidade de gerar empregos e ajudar outras famílias a prosperarem

Para o futuro, a aposta do empreendedor não está no crescimento financiado por pessoas externas, mas na valorização de quem trabalha ao seu lado na periferia. Ele recusou ofertas de parceiros com alto capital financeiro para priorizar sua própria equipe.

“Há muitas pessoas que têm dinheiro, mas não têm mão de obra para trabalhar. Eu prefiro botar funcionário meu como sócio lá, dar uma porcentagem para ele, para não entrar com nada, a não ser com o esforço dele”, justifica.

A decisão de valorizar e investir nas pessoas que estão à sua volta reflete a forma como o empresário enxerga o próprio ambiente. Ao manter e expandir sua sede na Folha 11, uma área periférica de Marabá, o negócio acabou gerando um impacto social e econômico direto na vizinhança. A presença de um serviço especializado atrai consumidores de várias partes da cidade, mudando a rotina do bairro periférico.

É José Airton quem observa que esse movimento beneficia toda a região de forma orgânica: “A comunidade ao redor viu começar muito pequenininho e de repente vê que agora tem um especialista. Esse cliente de poder aquisitivo melhor acaba contribuindo para melhorar aquele bairro, porque ele passa a comprar mais dali, gera uma mão de obra naquele local e permite uma circulação de renda”, analisa.

Ao olhar para a própria trajetória, Neucimar reconhece que as maiores transformações não estão apenas nos veículos que saem restaurados de sua oficina. Para o homem que começou a trabalhar ganhando 20 reais por semana, a verdadeira mudança de vida está na capacidade de gerar empregos e ajudar outras famílias a prosperarem.