Correio de Carajás

Merilane transformou hobby em negócio de sucesso na periferia do São Félix

Na Semana do MEI, saiba como uma autônoma tornou-se microempreendedora, evoluiu para ME e não para de crescer

Mulher sorridente com chapéu de palha em um viveiro de plantas com orquídeas coloridas.
O sorriso da empreendedora Merilane é de quem viu um sonho ganhar forma e o perfume das flores no São Félix/ Fotos: Evangelista Rocha/edição Diego Costa
Por: Milla Andrade
✏️ Atualizado em 26/05/2026 15h55

Quem passa pela BR-222, no núcleo São Félix III, rodovia federal que corta Marabá, dificilmente imagina que, em meio ao fluxo acelerado de caminhões e demais veículos que transitam por ali, exista um espaço onde o tempo parece desacelerar. Às margens da rodovia, há um lugar cercado por plantas e flores, que se destaca como um pequeno refúgio verde em meio à correria da periferia do bairro.

No São Félix III, Ki Jardim se tornou um espaço de encontros, mas também de despedidas. A maioria dos clientes não é vista novamente, já que muitos são viajantes que param para conhecer o local ou apenas tomar um café. Mais do que um comércio de flores, o ambiente se tornou extensão da história de vida de Merilane de Sousa Cena Schroth, de 40 anos. Natural de Prainha, a empreendedora conta que chegou a Marabá há 20 anos, onde se casou e iniciou uma trajetória construída com coragem.

Na periferia do São Félix, a floricultura Ki Jardim leva cor à cinzenta BR-222

Em entrevista ao Correio de Carajás, ela relembra a própria caminhada. Com a delicadeza de quem cuida de plantas, Merilane reflete que o empreendimento ocupa um espaço onde falta cor na rodovia e contrasta com a firmeza necessária para manter um negócio em uma das regiões que vem crescendo em Marabá.

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Entre o vai e vem do cotidiano, a empreendedora conta que, há pouco mais de cinco anos decidiu apostar em um sonho que até então cabia dentro de casa, em vasos e algumas mudas de orquídeas cultivadas como hobby.  “Minha maior clientela já eram os meus vizinhos, as pessoas que eu conhecia aqui no São Félix”, relembra.

O início, segundo ela, não veio de um grande planejamento empresarial nem de alto investimento, mas da curiosidade e de um encontro inesperado com o universo das flores.

 

“O início de tudo foi uma visita que eu não aguardava, em uma exposição de orquídea de Marabá. Lá, conheci pessoas que me mostraram esse lado encantador”, compartilha.

A lembrança segue viva enquanto ela fala. Na exposição, as flores deixaram de ser apenas decoração e passaram a representar descoberta. No ano seguinte, voltou ao evento como voluntária e, depois, passou a expor suas próprias mudas. O que começou como passatempo passou a ocupar espaço na rotina e nos planos.

Antes do empreendedorismo, Merilane conta que atuava como assistente administrativo em uma empresa de móveis planejados. O cultivo das plantas acontecia nos intervalos da rotina, quase como um respiro. “Depois das feiras de orquídeas, comecei a participar de feiras livres e exposições de artesanato em Marabá”, diz.

Aos poucos, seu nome passou a ser associado às plantas, especialmente às orquídeas, que seguem como sua principal paixão. “Elas são as mais vendidas, para presente, para colecionador”, afirma.

Ao falar do início, Merilane lembra que a estrutura era simples e improvisada, com parte das plantas mantidas em casa. “Eu fazia rodízio com as plantas, era pequeno, tinha muita sombra. Em datas comemorativas, contava com a ajuda da minha irmã e de uma diarista”, recorda.

Seu negócio às margens da BR-222 funciona em ponto alugado há dois anos e cinco meses e representa a concretização de um sonho.

 

“Minha clientela é dividida em feminino e masculino. Além dos viajantes, são os vizinhos, residentes em Morada Nova e todos que passam por aqui”, completa.

A escolha do local veio da observação e da experiência. “Geralmente, garden com floricultura, que são plantas com flores, estão localizadas na saída das cidades. Quando vi o ponto, imaginei que ia dar certo. E deu”, comemora.

Primeira funcionária da floricultura, Emilly Cristina de Souza Ribeiro, de 19 anos, compartilha que, mesmo com pouco tempo na empresa, já criou conexão com o ambiente. Segundo ela, o aprendizado diário tem sido especial. “A Merilane me ensina muito e eu tô aprendendo também a gostar de plantas como ela. É uma experiência boa vivenciar tudo isso”, declara.

Ao lado da empresária, Emilly descobre na função uma nova paixão pelo trabalho

Emilly também destaca o contato com os clientes como uma das partes mais gratificantes da rotina. “São clientes agradáveis, com uma energia boa, e isso gera conexão”, relata.

MÃOZINHA DO SEBRAE

Quem acompanha a trajetória da empreendedora do São Félix é Nádia Rodrigues, analista do Sebrae em Marabá, que conheceu Merilane ainda no início do percurso. “Ela começou de maneira muito tímida, em sua casa mesmo. Depois alugou um ponto junto com a irmã, que atuava com restaurante no mesmo ambiente”, relembra.

Nádia destaca a participação de Merilane em ações de capacitação e fortalecimento feminino. “Ela aprendeu muito com esse projeto, que orienta o que pode melhorar na gestão e ajuda a acelerar os pequenos negócios”, sintetiza.

Analista do Sebrae, Nádia destaca como as capacitações fortalecem pequenos negócios

A analista do Sebrae ressalta ainda a importância da organização enquanto gestor de um empreendimento. “Nós temos mania de fazer negócios improvisados, mas as coisas planejadas tendem a se perpetuar”, avalia.

Para Nádia, a principal evolução de Merilane foi a profissionalização, que aproveita as datas comemorativas fazendo promoções, melhorando o horário de atendimento. “Tudo isso é um diferencial”, aponta.

Além da venda de flores, arranjos e cestas, o espaço também se transformou em acolhimento. Muitos clientes entram apenas para conhecer e acabam ficando. “Às vezes não precisa comprar, aqui é um local de passeio, bem arejado e natural”, reflete.

Ao olhar para a própria trajetória, Merilane reconhece o impacto da decisão de empreender. Para ela, mais do que estratégia, tudo começa na relação com as pessoas. Com o tempo, a empresária passou a enxergar as flores não apenas como produtos, mas como presença em momentos importantes, de celebração e despedida.

Foi durante feiras e eventos que ela teve contato com o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e decidiu estruturar o negócio. Em meio ao processo, a busca por qualificação também foi decisiva. Para Merilane, o apoio do Sebrae ajudou na organização e na tomada de decisões.

 

“Qualquer dúvida eu corria lá. Por mais apertado que fosse meu tempo, fazia de tudo para participar. E assim, passei de autônoma a Microempreendedora Individual e depois a Microempresa (ME)”, completa.

Filha, esposa e empresária, durante a entrevista ela reconhece os desafios da rotina, e pela primeira vez consegue refletir sobre ela mesma. “O empreendedor faz o seu horário, ele pode trabalhar seis horas hoje, mais amanhã podem ser 12 horas ou 24 horas”, destaca.

Hoje, além do apoio do esposo, Merilane conta com uma funcionária e segue presente em cada detalhe do negócio, inclusive nas redes sociais. Sem fórmulas prontas, ela cultiva o que começou como hobby.

Merilane começou como autônoma, virou MEI e agora sua empresa é ME

Por fim, resume sua trajetória como um processo de persistência, onde empreender é atravessar a insegurança, insistir mesmo sem garantias e seguir adiante, apesar das dificuldades. E foi assim, com pessoas, muito trabalho e uma pitada de dedicação, que um sonho discreto ganhou força e passou a florescer com propósito para uma mulher da periferia de Marabá.