📅 Publicado em 16/05/2026 09h00✏️ Atualizado em 16/05/2026 09h29
Envelhecer é um processo inevitável, mas a forma como essa fase da vida é atravessada pode variar drasticamente dependendo do planejamento, do estilo de vida e até da geografia. Neste sábado, quando se comemora o Dia do Geriatra, conversamos com a médica Recielle Chaves, que tem sido uma voz ativa na promoção da saúde dos idosos, tanto no ambiente ambulatorial, quanto acadêmico.
Com experiência que cruza as realidades do Norte e do Sudeste do Brasil, ela traz uma reflexão profunda sobre os desafios únicos de envelhecer na região amazônica.
Ao CORREIO, a geriatra explicou que existe um grande contraste entre as regiões do país, e isso é nítido no dia a dia do consultório. Ela recorda o período que esteve em São Paulo e o impacto que teve ao ver idosos de 90 anos vivendo sozinhos e de forma independente.
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“Se a gente pudesse comparar o grau de independência de um idoso do Sul ou Sudeste, é muito superior ao do Norte. Aqui, a gente nota que, junto com o envelhecimento, vem muita comorbidade e até mortalidade. Envelhecer na Amazônia hoje ainda requer um olhar muito atento, e algumas perguntas devem ser feitas. Os idosos aqui tiveram menos acesso à saúde? Mais exposição ao sol? Mais trabalhos braçais? É uma pergunta que sempre me faço”.
Segundo a médica, os idosos que atingem os 100 anos nesta região são verdadeiros “sobreviventes” que possuem algum diferencial biológico ou de trajetória, pois o ambiente exige muito do corpo ao longo das décadas.
O esquecimento e as doenças crônicas
No topo da lista de problemas encontrados na região estão a hipertensão e o diabetes. No entanto, o crescimento nos diagnósticos, especialmente o Alzheimer, tem chamado a atenção da especialista. Recielle aponta que Marabá apresenta números que considera altos, muitas vezes ligados a fatores sociais.
“A principal causa de demência aqui é o baixo nível de escolaridade. Depois vem a viuvez, a solidão e a baixa atividade física. O idoso que diz ‘eu nunca estudei e não quero mais aprender nada’ está se prejudicando muito. O ‘não aprender nada’ é terrível para o cérebro”.
Uma das explicações mais didáticas da Dra. Recielle para as famílias é a comparação do corpo humano com um veículo. Ela lamenta que 80% dos pacientes só cheguem ao consultório quando já estão debilitados, dificultando qualquer ação preventiva.
“Eu explico que o pai ou a mãe é como um carro de 10 anos que nunca deu manutenção. Ele vai chegar com várias complicações. Se você usa um carro sem revisão, ele vai bater o motor. E quando chegar lá, o mecânico vai dizer: ‘só trocando o motor’. É isso que acontece com a gente, e nós somos de carne e osso. O envelhecimento não é apenas algo natural; ele tem que ser planejado. Via de regra, precisamos fazer nossa manutenção”.
Atividade física: a “pílula” do rejuvenescimento
Se existisse um segredo para a longevidade com qualidade, ele certamente não estaria em um frasco de remédio em uma prateleira de farmácia, mas no movimento. A médica geriatra defende que a atividade física é o pilar de tudo, combatendo inclusive dores e auxiliando na preservação da memória.
“Se você me perguntar se existe uma pílula do rejuvenescimento, eu diria: atividade física. Ela é o pilar de tudo. O remédio para a dor não é repouso; o que trata a dor é o movimento. Eu tenho no meu consultório cinco idosos com mais de 90 anos que fazem atividade física três vezes por semana. Isso libera neurotransmissores que melhoram o hipocampo, a área da memória”, diz Recielle que busca sempre desmistificar os conceitos enraizados na cultura popular, como a ideia de que sentir dor ou ficar “caduco” faz parte do processo normal de envelhecer.
“Dor não é da idade. Esquecimento não é sinônimo de envelhecimento. ‘Demência senil’ não existe; todo esquecimento tem uma causa que precisa ser buscada. A gente pode lentificar o raciocínio, mas o idoso tem que manter suas funções e reconhecer seus familiares”.
A médica surpreende, inclusive a Reportagem, ao afirmar que a busca pelo geriatra deve começar muito antes do que o senso comum sugere. O processo de envelhecimento biológico se inicia cedo, e a prevenção é a chave para evitar a perda severa de massa muscular (sarcopenia) no futuro.
“A gente começa a envelhecer aos 25 anos. Aos 30, começamos a perder massa muscular e, aos 80, temos apenas metade da força que tínhamos aos 40. Por isso, a geração 40+ é a que vai envelhecer diferente se começar a se cuidar agora. A panturrilha é o nosso segundo coração; ela ajuda a bombear o sangue e mantém a cognição boa.”
Para quem ainda não chegou aos 60, mas deseja um futuro saudável, o recado é claro: o olhar clínico do geriatra busca o “todo”, não apenas o sintoma.
“O quanto antes você buscar o geriatra, sem sintomas, melhor. Especialmente quem tem histórico de câncer na família, casos de morte súbita ou Alzheimer precoce (antes dos 65 anos). Nossa consulta é demorada, raramente dura menos de uma hora, porque tentamos entender o paciente como um todo. Não espere chegar aos 90 anos para procurar um geriatra”.
