📅 Publicado em 10/05/2026 09h00✏️ Atualizado em 09/05/2026 08h42
Em uma casa ampla e arejada, escondida em uma rua sem saída no Núcleo Morada Nova, em Marabá, Eroides Paula da Silva Santos, de 75 anos, guarda no coração a memória do nascimento e da criação dos 10 filhos. Mulher de riso fácil e boa de prosa, ela é a matriarca de uma família que abarca, além dos filhos, 27 netos e 15 bisnetos.

Hoje viúva, casou cedo, ainda adolescente, com cerca de 14 anos. O marido era pouco mais velho, tinha 18. Naquela época era costume e socialmente aceitável que pessoas muito jovens firmassem matrimônio. Pouco depois do enlace, Gideão, o primeiro filho, nasceu.
“Eu sou da Bahia, sou baiana, mas me casei no Pará. Meus filhos são todos paraenses. Hoje sou viúva, já faz 25 anos que meu esposo morreu. Sempre vivi junto com meus filhos”.
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No auge da sabedoria dos seus 75 anos, ela diz com convicção que os filhos foram muito bem criados. Durante anos a família morou na roça e lá trabalhou para sobreviver. Quando o marido morreu, Eroides juntou as crianças e se mudou para a cidade, encontrando seu lar em Morada Nova.
Com sinceridade ela diz que aqueles foram tempos difíceis, mas que hoje tudo está mais fácil. Na roça o trabalho era sinônimo de sobrevivência, o salário faltava e tudo era a base da força. Mas, dando graças a Deus, a matriarca celebra que conseguiu criar todos os 10 filhos, ainda que duas gestações não tenham vingado.
Mas, a saudade daquele tempo, essa ainda é firme no coração da matriarca. “Os meus meninos foram bem-criados, todos trabalhadores. Lutaram na roça e hoje todos são casados, têm seu meio de vida. Não são muito estudados, mas o que aprenderam dá para viver bem. Graças a Deus”.

CHAMEGO
O aprendizado prático, inclusive, começou cedo. Eroides lembra que, naqueles tempos, não havia as restrições de hoje para o trabalho na juventude, e a labuta era vista como uma escola da vida. O primogênito, Gideão, começou aos 12 anos. Trabalhava de graça apenas pelo desejo de aprender a dirigir. O ofício ele abraçou para sempre, e hoje ganha o pão como caminhoneiro.
Entre Gideão e o caçula, Antônio, que hoje tem 40 anos, a diferença de idade é curta: de um ano e meio a dois anos entre cada gestação. Eroides pariu sete homens e três mulheres, criados sem distinção e sob a mesma régua de valores, onde o certo e o errado eram ensinados com clareza.
A maternidade, para a baiana de coração paraense, nunca foi um fardo, mas uma vocação vivida com alegria. Recordando a juventude, ela define a experiência com simplicidade. E o que sente pelos filhos, ela garante, é dividido igualmente entre todos.
“Virar mãe foi emoção e amor. Muito amor. Foi bom demais. Tem gente que tem dois filhos e diz que se arrepende. Eu tenho 10 e não me arrependo de nenhum”.
Ao resgatar as memórias da casa cheia, Eroides revela a imagem que mais lhe traz nostalgia. Com seus meninos e meninas criados, perdura a saudade de quando todos sentavam-se ao chão para almoçarem juntos. Agora, esse vazio é preenchido pelos netos.
Com os filhos adultos e seguindo seus rumos – a maioria morando nas cercanias da cidade e se reunindo em datas especiais, o que permite reuniões em datas especiais -, o ninho poderia ter ficado silencioso, mas a casa de Eroides logo foi tomada por uma nova geração.
A matriarca ajudou a criar três netas, uma delas desde bebê, que hoje já é casada e mãe, tornando-se, nas palavras de Eroides, um dos grandes amores de sua vida. Há também um chamego todo especial com o caçula dos netos, Gael, que não desgruda da avó.

AMÉM
Quando observa a forma como as famílias são conduzidas hoje em dia, ela não esconde que acha o cenário atual mais difícil. Para ela, a educação de antigamente baseava-se em pilares fundamentais, como o respeito e a obediência. Esses valores ela faz questão de cobrar dos filhos na hora de orientarem os próprios netos.
“Hoje não pode mais corrigir como antigamente. Muitos filhos são desobedientes, e isso dificulta. Eu sempre digo para entregar nas mãos de Deus”.
Eroides olha para o grande clã que construiu com amor, esforço, muito trabalho e com a serenidade de quem cumpriu sua missão da melhor forma que pôde. O desejo para o futuro da família é simples, carregado de um peso poderoso: a bênção de uma mãe.
“Eu desejo a todos os meus filhos que Deus abençoe cada um. Amo todos de coração, igualmente. Que tenham paz, saúde e felicidade. Que Deus esteja sempre à frente da vida deles e que esse amor nunca acabe, nem o meu por eles, nem o deles por mim. Amém”.
