Correio de Carajás

Audiência em Parauapebas discute conflito agrário na Fazenda Entre Rios

Vara Agrária de Marabá sobresta processo por 30 dias para diligências, enquanto partes se comprometem a evitar conflitos na Fazenda Entre Rios.

Frente da Câmara Municipal de Parauapebas com diversos veículos policiais estacionados sob céu azul.
Audiência aconteceu na tarde desta quinta-feira na Câmara Municipal de Parauapebas/ Fotos: Ronaldo Modesto
Por: Milla Andrade, com informações de Ronaldo Modesto
✏️ Atualizado em 08/05/2026 10h34

Representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), produtores rurais e autoridades de segurança pública participaram, na tarde desta quinta-feira (7), de uma audiência de conciliação realizada pela Vara Agrária de Marabá para discutir a ocupação de parte da Fazenda Entre Rios, localizada na zona rural de Marabá, com acesso por Parauapebas.

A audiência teve lugar na Câmara Municipal de Parauapebas, após pedido de reintegração de posse da área. O encontro reuniu representantes das famílias acampadas, proprietários da fazenda e órgãos de segurança pública.

Ao final da audiência, ficou decidido que o processo será sobrestado por 30 dias. O juiz determinou a realização de diligências envolvendo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) e o Centro de Perícias Científicas ‘Renato Chaves’.

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O QUE DIZ O MST

Como parte do acordo, o MST se comprometeu a não avançar na ocupação, não aumentar o número de pessoas no acampamento e não expandir a área onde já estão instalados — atualmente, o grupo ocupa uma estrada em uma área de mata da propriedade. Por outro lado, os donos da fazenda não devem interferir no local do acampamento, tampouco criar embaraços ou bloqueios aos ocupantes.

Em entrevista ao Correio de Carajás, Jorge Neres, da coordenação estadual do MST no Pará, informou que a área em disputa teria sido destinada à reforma agrária pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), por meio de portaria publicada em dezembro do ano passado pelo governo federal. “O que está acontecendo aqui neste momento é o início da audiência provocada pelo juiz da Vara Agrária para tratar do assentamento Maria da Glória, criado pelo Incra no dia 22 de dezembro do ano passado, e que os fazendeiros alegam que a terra é deles”, diz.

Jorge Neres, representante do MST, defende que o caso seja analisado pela Justiça Federal

O representante do MST sustenta que a área pertence à União e defende que o caso seja analisado pela Justiça Federal. “Eu espero que, no mínimo, como diz respeito a uma área federal, a Vara Agrária de Marabá não tenha competência jurídica para isso. Seria bom que levasse para a esfera federal, haja vista que é uma área federal”, completa.

PRODUTORES RURAIS

O Correio de Carajás também conversou com a presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Parauapebas, Graziela Adame Ribeiro. Em sua fala, ela destacou que os proprietários aguardam decisão favorável à reintegração de posse da fazenda. “Foi marcada uma audiência de conciliação referente à invasão da Fazenda Entre Rios, pertencente à família Miranda. A lei fala que, quando há uma invasão, há um prazo para esbulho. Quando passa desse tempo, há uma audiência para ouvir as partes”, explica Graziela.

Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, Graziela afirma que a área possui documentação regular

Segundo ela, a área possui documentação regularizada e matrícula registrada. “Nós estamos falando de uma área que é titulada, possui matrícula, toda a documentação. O MST invadiu uma área de reserva, que não pode ser desmatada”, argumenta.

Graziela também declarou que os produtores rurais esperam uma decisão imediata da Justiça. “Sem sombra de dúvida, esperamos uma reintegração de posse aqui no final da audiência”, pontua.

O momento contou com a participação de 50 fazendeiros e 50 ocupantes do MST, para garantir a organização e evitar conflitos entre as partes.

Presente na audiência, o delegado Vinícius Cardoso das Neves, da Delegacia de Conflitos Agrários (Deca), acompanhou a sessão e ressaltou que o objetivo das forças de segurança é evitar confrontos entre os envolvidos.

Delegado Vinicius Cardoso falou sobre o papel da Deca no momento, neste caso

Segundo o delegado, durante a audiência, proprietários e ocupantes apresentaram suas versões sobre o caso para análise do Poder Judiciário. “O proprietário da fazenda e os ocupantes darão a sua versão, e o juiz vai colher esses esclarecimentos para que possa deliberar”, destaca.

O delegado ainda ressaltou que a atuação da Polícia Civil está voltada para a preservação da ordem e a prevenção da violência no campo. “O papel da Polícia Civil é mediar a situação, aplicar a lei, manter a ordem e a paz no campo, evitando conflitos ou a escalada de violência entre as partes”, avalia.

De acordo com Vinícius, equipes policiais seguem acompanhando a situação na fazenda enquanto aguardam a decisão judicial, enfatizando que a ideia é mediar a situação para que não haja violência e o caso seja solucionado de maneira pacífica.

Membros do MST e fazendeiros acompanharam a audiência

SAIBA MAIS

A disputa fundiária com potencial de conflito levou a Justiça a adotar uma postura cautelosa e priorizar a mediação antes de qualquer medida de força. Em decisão proferida no último dia 4 de maio, o juiz Jessinei Gonçalves de Souza, da Vara Agrária, rejeitou a concessão imediata de liminar de reintegração de posse na Fazenda Entre Rios e determinou a realização de audiência da justificação prévia agora realizada.

A ação foi movida por José Miranda Cruz, que defende ter sido vítima de esbulho na propriedade rural, situada em área com acesso por Parauapebas. O pedido inicial incluía a reintegração liminar da posse com o uso de força policial. No entanto, ao analisar o caso, o magistrado considerou que os elementos apresentados ainda não são suficientes para uma decisão imediata.

O processo tramita com prioridade e segue para a fase de instrução inicial, etapa que deve definir os próximos rumos do conflito pela posse da Fazenda Entre Rios.