O Correio de Carajás teve acesso a dados oficiais e traçou um comparativo entre a Execução Orçamentária do Município de Marabá de 2024, último ano do governo Tião Miranda e 2025, primeiro ano da gestão Toni Cunha. Também comparou os gastos da Prefeitura com o que estava previsto no Orçamento (LOA) para o ano passado, de quase R$ 2 bilhões. O resultado mostra o que foi priorizado e também o que foi deixado de lado no novo governo, deixando bem clara a falta de habilidade da nova estrutura em gerir os recursos disponíveis. O prefeito tinha quase R$ 2 bilhões
De acordo com a LOA nº 18.428/2024, o valor total do orçamento de Marabá para 2025 foi de R$ 1.958.145.569,36 (um bilhão, novecentos e cinquenta e oito milhões, cento e quarenta e cinco mil, quinhentos e sessenta e nove reais e trinta e seis centavos).

A análise integrada demonstra que o primeiro ano do governo Toni Cunha (2025) foi marcado por execução orçamentária menor que a do ano anterior e significativamente inferior ao que havia sido aprovado pela Câmara Municipal na Lei Orçamentária Anual. A gestão optou por não executar cerca de R$ 310 milhões que estavam autorizados, concentrando esse contingenciamento em áreas de infraestrutura (Obras e Saneamento), previdência e segurança.
O desmonte da infraestrutura foi particularmente severo. A Secretaria Municipal de Viação e Obras, responsável pela manutenção e construção de estradas, pontes e equipamentos urbanos, teve seu orçamento reduzido de R$ 269,5 milhões em 2024 para R$ 116,6 milhões em 2025 — uma queda de 56,72%. Comparado ao que havia sido previsto na LOA 2025 (R$ 227,2 milhões), a prefeitura deixou de investir R$ 110,5 milhões.
A Superintendência de Desenvolvimento Urbano (SDU), responsável pelo planejamento e expansão da cidade, sofreu corte ainda mais drástico: caiu de R$ 15 milhões para R$ 6 milhões, uma redução de 60,01%.
O setor de Saneamento Ambiental, essencial para a qualidade de vida e saúde pública, também foi duramente atingido. De R$ 145,2 milhões em 2024, caiu para R$ 110,1 milhões em 2025 (-24,21%). A LOA havia previsto R$ 124,8 milhões, deixando um rombo de R$ 14,7 milhões não investidos.
Desmonte da Seagri
A Agricultura, setor estratégico para a economia local e geração de renda, recebeu corte de 28,04%, passando de R$ 16,5 milhões para R$ 11,8 milhões. Mas os números não revelam a gravidade da situação. A Secretaria Municipal de Agricultura (Seagri), que dispunha de um orçamento de R$ 25 milhões para 2025, aplicou apenas R$ 2 milhões — uma execução de irrisórios 8%, segundo dados oficiais da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan).
A ineficiência na aplicação dos recursos resultou no sucateamento de equipamentos essenciais e na interrupção de programas de assistência aos pequenos agricultores. O colapso da infraestrutura da pasta foi exposto no plenário da Câmara de Marabá pelo vereador Marcos Paulo (PDT), que além de parlamentar, tem propriedade para falar sobre o assunto como ex-secretário da pasta no governo anterior.
De acordo com o vereador, dos 23 tratores da frota, apenas quatro estão em funcionamento. Além disso, uma perfuratriz de poços artesianos, equipamento vital para a zona rural, foi utilizada para abrir apenas sete poços durante todo o ano de 2025. O desmonte dos principais programas da Seagri evidencia não apenas a falta de investimento, mas também a desarticulação administrativa da gestão Toni Cunha no setor produtivo.
O caso mais alarmante é o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FMDCA). Em 2024, o fundo executou R$ 2,2 milhões. A LOA 2025 previa R$ 287 mil, mas a execução real foi de apenas R$ 49.717,31 — uma queda de 97,78%. Políticas de proteção à infância e adolescência foram praticamente zeradas.
Houve mais gastos na Educação e no pagamento de Encargos Gerais, áreas que inclusive gastaram acima do teto inicialmente previsto. O FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) saltou de R$ 375,8 milhões em 2024 para R$ 427,4 milhões em 2025, superando em R$ 31,1 milhões o previsto na LOA.
A Secretaria de Educação recebeu aporte adicional de R$ 18,6 milhões, totalizando R$ 174,1 milhões. Os Encargos Gerais do Município, que incluem despesas administrativas, cresceram 43,99%, passando de R$ 45,4 milhões para R$ 65,3 milhões.
A Saúde apresenta um paradoxo: recebeu mais recursos que em 2024 e gastou acima do previsto na LOA 2025, mas não conseguiu reverter a percepção negativa da população, sugerindo gargalos de eficiência administrativa.
O Fundo Municipal de Saúde passou de R$ 368,7 milhões em 2024 para R$ 391,6 milhões em 2025, um aumento de R$ 22,9 milhões. Apesar disso, continua sendo o setor mais criticado pelos marabaenses, com relatos de falta de medicamentos, equipamentos obsoletos e atendimento precário nos hospitais e postos de saúde.
Na Câmara
A situação não passou despercebida no Legislativo. Na semana passada, o presidente da Câmara Municipal de Marabá, Ilker Moraes, usou a tribuna para fazer uma dura avaliação da gestão Toni Cunha, com base nos dados da Secretaria de Planejamento (Seplan).
“Vou fazer aqui um resumo muito básico, onde demonstra a incompetência dessa gestão”, afirmou o parlamentar, ao comparar publicamente os números de execução orçamentária de 2024 e 2025.
Ilker destacou que a Prefeitura tentou omitir o comparativo na prestação de contas do último quadrimestre — informação que, segundo ele, era apresentada em anos anteriores e que, “coincidentemente”, não foi trazida desta vez.
Ao enumerar os cortes em Obras, Agricultura, Saneamento, DMTU, SDU e Cultura, o presidente da Câmara foi categórico: “Claro que ele vai usar a informação, dizer que é eficiente, que está economizando. Só que com a falta do serviço público, não é economia, é incompetência. Isso é falta de gestão, é não pensar nas pessoas.”


