Correio de Carajás

Ator marabaense com TEA encontra no palco um espaço de liberdade

Pedro Lustosa, de 23 anos, supera desafios do Transtorno do Espectro Autista com o teatro em Marabá, inspirando outros a ocupar espaços de protagonismo na arte e na cultura.

Jovem sentado em cadeira branca, sorrindo, com fones no pescoço e óculos, em ambiente escuro.
"Para uma pessoa com TEA, ficar no meio de um barulhão e se concentrar ao ponto de não notar o ruído externo é impressionante", diz Pedro Lustosa
Por: Ana Mangas
✏️ Atualizado em 04/05/2026 18h13

O que para muitos poderia ser um obstáculo incontornável – o barulho intenso, a plateia atenta e a necessidade de memorização de um texto – para Pedro Lustosa, de 23 anos, foi o cenário perfeito para a autodescoberta. Integrante do grupo “Poltrona 6”, ele encontrou em cima do palco não apenas o “atuar”, mas um local onde seu diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) se contrapõe com seu maior aliado: o hiperfoco.

“Para uma pessoa com TEA, ficar no meio de um barulhão e se concentrar ao ponto de não notar o ruído externo é impressionante. É muito difícil”, relata Pedro. O ator, que se divide entre a atuação e a direção da peça, confessa que a experiência de dramatizar diante de uma plateia cheia não lhe causa nervosismo, mas sim um encantamento que ele define como “maravilhoso”.

Ao CORREIO ele contou sobre as dificuldades do processo do ensaio. Pedro brinca sobre o desafio de atuar vestido de fantasma, mas é categórico ao falar sobre as limitações impostas ao autista. Com o suporte de tratamento clínico e uma rotina disciplinada, que inclui até medicação, ele deixa uma mensagem de incentivo.

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“O mundo é o limite. Geralmente, existe a ansiedade, mas não é impossível. Se eu estou conseguindo, que tenho grau II, outros também podem”, afirma.

Arte e inclusão

O grupo “Poltrona 6”, dirigido pelo professor e teatrólogo Evandro Rodrigues, tem buscado fomentar a arte local com um olhar voltado para a diversidade. Com mais de 26 anos de carreira na educação e passagens pelo teatro carioca, Evandro explica que a montagem atual adapta a linguagem das histórias em quadrinhos para o palco, trazendo dois atores autistas no elenco principal.

Para o diretor, a experiência tem sido desafiadora e gratificante. “O desafio da concentração existe, mas a habilidade deles em decorar texto é fantástica. Eles trazem o texto na ponta da língua. Mas é desafiador. A gente sabe que existe uma espécie de dificuldade de concentração, por exemplo. Às vezes, naquele momento em que eu estou fazendo uma consideração de uma cena e exigindo que eles tenham uma atitude, às vezes se distraem um pouquinho, mas tem sido uma experiência muito agradável”, comenta Evandro.

Para o diretor, Evandro Rodrigues, o desafio da concentração existe, mas a habilidade deles em decorar texto é fantástica

O objetivo do grupo é mostrar que a arte não tem barreiras e que o teatro, por ser gratuito, deve servir como um convite para que as pessoas com algum tipo de espectro ou deficiência ocupem espaços de protagonismo onde quer que seja.

Saymon Cunha, também ator do grupo, reforça que o convívio com colegas dentro do espectro autista tem sido uma lição de superação para todos os envolvidos. Com experiência familiar próxima ao TEA, Saymon faz um apelo importante aos pais e responsáveis. “Não deixem que as suas próprias inseguranças se tornem as limitações dos seus filhos”.

Para o jovem, é fundamental que as famílias estimulem a exploração da criatividade, seja na música, na pintura ou na interpretação. “Às vezes, o seu filho tem um potencial e você ainda não o deixou descobrir sozinho. A confiança é o que permite a liberdade da mente deles”, conclui.

O grupo “Poltrona 6” realiza uma apresentação no próximo dia 5, às 20 horas, no Teatro Municipal Eduardo Albdenor, em um evento que promete unir teatro e cultura geek.