“Pela primeira vez na história, a obesidade ultrapassou a desnutrição. Hoje temos uma porcentagem pequena de crianças com desnutrição e uma porcentagem extremamente elevada de crianças com obesidade”. A afirmação é da endocrinologista e professora da Afya Marabá, médica Alana Ferreira de Oliveira, e encontra respaldo em dados globais. Segundo relatório do UNICEF divulgado em setembro de 2025, a obesidade já é a forma mais prevalente de má nutrição no mundo, afetando 1 em cada 10 crianças e adolescentes em idade escolar, cerca de 188 milhões, e colocando-os em risco de doenças graves.
De acordo com a endocrinologista, os alimentos ultraprocessados têm papel central nesse cenário. “Eles possuem alta densidade calórica, muito açúcar e gordura, pouca fibra e baixa capacidade de saciedade. Além da criança comer mais, esses alimentos não sustentam, estimulando o consumo contínuo e levando a alterações como glicemia elevada e colesterol alterado já na infância.”
No Pará, a obesidade infantil já atinge cerca de 50 mil crianças, segundo dados da Sespa. Em 2022, foram registradas mais de 22 mil crianças de até 5 anos e quase 37 mil entre 5 e 10 anos com obesidade. Em 2023, os números se mantiveram elevados, com mais de 20 mil casos em menores de 5 anos e 30 mil em crianças de 5 a 10 anos. Embora haja uma leve redução, os índices continuam alarmantes e refletem a tendência mundial apontada pelo UNICEF.
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A especialista destaca que os mil primeiros dias de vida são fundamentais para a formação do paladar e da saúde futura. “Crianças que consomem menos açúcar e sal nos primeiros anos tendem a ter menor chance de obesidade na vida adulta”, explica.
Ela reforça que o contato precoce com açúcar e gordura trans pode moldar o paladar da criança para preferir sabores artificiais e previsíveis, dificultando a aceitação de alimentos naturais. “Essas substâncias não apenas aumentam o colesterol e a glicemia, mas também criam um padrão de sabor viciante.”
Entre os sinais que indicam que o peso já está impactando a vida da criança, Dra. Alana cita: roupas muito maiores do que a idade, crescimento acelerado em relação aos colegas, manchas escuras no pescoço (acantose nigricans), cintura aumentada, cansaço frequente e ronco noturno.
A família como protagonista
Para a endocrinologista, a mudança começa dentro de casa: “A gente sempre fala: descascar mais e desembalar menos. A criança come o que vê. Se a família consome alimentos naturais, ela tende a seguir esse padrão”.
Ela sugere alternativas simples, como bolo ou pão caseiro, frango pronto para sanduíches e frutas disponíveis na mesa. “A criança precisa ver que a família também consome alimentos saudáveis, não apenas ela.”
Complemento do cenário
O alerta da Dra. Alana se soma às observações da professora de Pediatria da Afya Bragança, Kíssila Ferraro, que lembra: “A obesidade infantil é uma doença multifatorial, mas o consumo de alimentos ultraprocessados tem um papel central nesse cenário. Eles podem causar desde déficits nutricionais até o aumento do risco de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, além de possíveis impactos na saúde mental ao longo da vida.”
Além da alimentação, fatores como sedentarismo, excesso de telas e redução das atividades físicas agravam o quadro. O resultado é um cenário preocupante, onde problemas antes comuns na vida adulta passam a surgir cada vez mais cedo.
