Correio de Carajás

“Síndrome da Alpa” ameaça Tecnored, que paralisa na terraplanagem em Marabá

Quatro anos depois de lançamento das obras, Vale ainda não tem previsão de conclusão do projeto. Construção de Nova Aciaria também virou fumaça

Vista aérea de uma grande área de terraplanagem cercada por floresta densa, com edificações e estradas de terra.
Lançado em 2022, projeto da Vale para o Distrito Industrial de Marabá está sendo levado no banho-maria e parou na terraplanagem
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 15/04/2026 10h52

O Projeto Alpa, maior fracasso da indústria de Marabá, foi anunciado como promessa de cinco mil empregos diretos e investimento bilionário, mas morreu no nascedouro. A mineradora Vale prometeu muito e entregou apenas a terraplanagem, paralisando as obras e abandonando o projeto. Em 2022, a mesma empresa anunciou o Tecnored (uma espécie de “compensação simbólica”), mas até esse agrado está ameaçado de não ser concluído.

Passados quatro anos, a única coisa que a Vale conseguiu fazer foi o serviço de terraplanagem. E o cenário que se vê é exatamente igual ao da Alpa quando foi descontinuada. A Reportagem do Correio de Carajás foi até o Distrito Industrial esta semana e fez sobrevoo com drone sobre a área do projeto Tecnored, e o que viu foi o mesmo cenário da Aços Laminados do Pará em 2012, com uma imensa área compactada, mas sem nenhum metro quadrado de construção da usina. Apenas alguns escritórios estão concluídos.

Do outro lado da área, diversas máquinas paradas, não se sabe à espera de quê.

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E essa falta de definição sobre o cronograma do Projeto Tecnored voltou a ser alvo de críticas na Câmara Municipal de Marabá. Durante sessão plenária da terça-feira da última semana (7), o vereador Marcelo Alves (PT) afirmou que iria formalizar um pedido para convocar representantes da empresa a prestarem esclarecimentos sobre o andamento do empreendimento.

“Não há cronograma. Não existe uma data para a conclusão da obra nem para o início da operação da Tecnored”, declara o vereador. Segundo ele, a ausência de informações concretas tem impacto direto sobre uma das principais demandas do município.

Marcelo é firme ao pontuar que a mineradora segue adiando soluções para um dos principais gargalos de Marabá: a geração de empregos.

Durante sua fala na tribuna, Marcelo informou que já levantou os nomes de integrantes da direção da empresa e pretende incluí-los no ofício que será encaminhado à vereadora Vanda Americo (PSD), presidente da Comissão Especial de Desenvolvimento Sustentável.

Vereador Marcelo Alves quer que a Vale preste esclarecimentos na Câmara sobre o Projeto Tecnored, que está parado

“Precisamos chamar a diretoria da Tecnored. O ofício já está pronto, com os nomes. Levantei as informações e identifiquei Ronald Lopes de Oliveira como diretor, Sérgio Consuelo Fernandes no conselho de administração, Stephanie Michael Potter como presidente e Rogério Tavares Nogueira também no conselho”, afirma.

Marcelo acrescenta que a intenção é garantir a presença de pessoas com poder de decisão, ligadas inclusive à Vale, para que prestem esclarecimentos diretamente à população.

O parlamentar também cobrou um posicionamento público da empresa diante do que classificou como sucessivos adiamentos e temendo o encerramento de algo que nem começou.

“É importante que eles se posicionem diante da população de Marabá e parem de adiar. Hoje, ninguém sabe como esse projeto vai se concretizar, e há o receio de que ele seja abandonado, como já ocorreu com outras iniciativas”.

O vereador lembra há cerca de 40 anos Marabá vem sendo impactada pela mineradora, sem nenhum retorno, e que a Vale tem dívida histórica neste segmento com o município, desde a frustração amarga do Projeto Alpa, orçado em bilhões e que não saiu da terraplanagem.

A siderúrgica Tecnored, para produzir gusa-verde, prometia, também, criar uma “Nova Siderúrgica” que estava sendo estudada pela Vale em parceria com a Sinobras. Mas desde 2023 as informações sobre esse projeto cessaram e nem a Vale nem a Sinobras enviaram mais notícias para a Imprensa sobre os estudos que estavam em andamento.

Como a usina da Tecnored deveria estar em 2027, conforme a Vale tinha projetado em 2021. Até agora, só tem terraplanagem

HISTÓRICO

A crítica ocorre em meio ao histórico de expectativas geradas em torno do Tecnored. Desde 2021 o Correio de Carajás noticia as informações sobre o projeto Tecnored. Naquele momento, ele foi apresentado como uma iniciativa estratégica da Vale para verticalizar a produção mineral no município, com foco na fabricação de ferro-gusa de baixo carbono, conhecido como “gusa verde”.

À época, o empreendimento já possuía licença ambiental e era tratado como um marco para o desenvolvimento econômico local, com previsão de início das obras em 2022 e geração de até 2 mil empregos diretos na fase de implantação.

No ano seguinte, o projeto foi oficialmente lançado durante as comemorações do aniversário de Marabá. A proposta previa a instalação da planta no Distrito Industrial, na área da antiga Ferro Gusa Carajás, com investimento bilionário e promessa de centenas de empregos também na fase operacional. A tecnologia foi apresentada como inovadora por reduzir emissões de carbono ao substituir combustíveis fósseis por biomassa, além de simplificar etapas do processo siderúrgico.

Ainda em 2022, começaram as obras preliminares, com atividades como supressão vegetal, drenagem e terraplanagem. Cerca de 140 trabalhadores participaram dessa fase inicial, que chegou a movimentar a economia local e reforçou a expectativa em torno do projeto.

Apesar do início das intervenções, o avanço passou a ocorrer em ritmo mais lento nos anos seguintes. Em 2026, o Tecnored retorna ao centro do debate público sob cobrança por maior transparência e celeridade. A ausência de um cronograma definido e a falta de informações atualizadas têm gerado frustração diante das expectativas criadas desde o anúncio do empreendimento.

Ele era tratado como uma das principais apostas industriais para Marabá, mas o avanço prático passou a ser percebido de forma mais lenta.

Projeto Alpa prometeu tudo para Marabá e entregou decepção há cerca de 13 anos.

VALE DIZ QUE NÃO PARALISOU

A reportagem do Correio enviou 18 perguntas sobre o Projeto Tecnored para a mineradora Vale, mas nem a metade delas foi respondida. A empresa enviou uma nota, na qual garante que as obras não estão paralisadas.

Nessa nota, ela fala do Tecnored, mas faz questão de mencionar outros projetos que estão em andamento ou que foram recentemente concluídas em Marabá, como as obras da ponte sobre o Rio Tocantins, Usina da Paz e Hospital Materno-Infantil. Veja, a seguir, a íntegra da nota:

“As obras de implantação do projeto Tecnored estão em andamento, incluindo terraplanagem, drenagem, contenção e construção de vias de acesso. A Vale também discute parcerias com companhias especializadas para desenvolver as tecnologias previstas no projeto com maior robustez e performance.

A companhia segue seu compromisso com o desenvolvimento de soluções inovadoras para a produção de ferro-gusa no Pará e para a descarbonização da siderurgia no país. Em paralelo à implantação da Tecnored em Marabá, a empresa executa em Marabá o projeto das novas pontes sobre o Rio Tocantins, que contribuirão com a mobilidade urbana na região e com a logística de transporte de minério e carga geral no Estado. Também é parceira na construção das obras da Usina da Paz e do Hospital Materno-Infantil, por meio do programa Estrutura Pará, do Governo do Estado”.