📅 Publicado em 06/04/2026 17h02✏️ Atualizado em 06/04/2026 17h06
Dançar, se esbaldar e viver como uma verdadeira “dancing queen”, como eternizou o ABBA, é o jeito de existir de Lourdes Oliveira de Souza. Aos 61 anos, a maranhense que Marabá adotou como sua virou sensação nas redes sociais nas últimas semanas ao transformar ruas, mercados e qualquer cantinho da cidade com som em pista de dança. Para os mais íntimos (o que inclui praticamente a cidade inteira) ela é simplesmente a “Diva do Flashback”.
Em menos de seis meses, Lourdes já soma quase 50 mil seguidores e uma legião fiel que acompanha cada passo, giro e sorriso. Sem figurino elaborado, sem produção mirabolante que basicamente é só um tênis, roupas do dia a dia e muita vontade de ser feliz, ela dança como quem revive os tempos áureos das discotecas. E quando toca “Voyage Voyage”, clássico que atravessou gerações, é como se o tempo desse uma pausa só para ela brilhar mais uma vez, relembrando a juventude embalada pelos bailes.

Foi justamente com esse espírito leve que a fama chegou, quase sem pedir licença. Um vídeo aqui, outro ali gravado pela sobrinha, compartilhado despretensiosamente e, de repente, a moradora do bairro Laranjeiras estava nas pistas virtuais de todo Brasil. E o mais curioso é que muita gente ainda custa a acreditar que não há filtro nem inteligência artificial. “É original mesmo”, garante ela.
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Em conversa com a reportagem do CORREIO, à beira da Orla de Marabá, aos pés do famoso peixe do Tucunaré que acabou virando cenário dos seus vídeos mais icônicos, Lourdes abriu o coração. Por trás da energia contagiante e do carisma que lembra os grandes hits dos anos 80 e 90, existe um sonho que não sai do compasso, que é o de ter um lar só seu. Nada de luxo, nada de extravagância, como ela mesma diz, bastaria “uma casinha simples, bonitinha”, onde pudesse viver com o filho, com a tranquilidade de saber que aquele espaço é, enfim, só dela.
A paixão pela dança
Os passos de Lourdes atravessam o tempo como aqueles clássicos que nunca saem de moda. Desde a juventude, entre o Maranhão e o Pará, ela já fazia das festas o seu palco e, pelo visto, nunca desceu dele. “Eu amo dançar” – resume, sem rodeios – “danço em supermercado, em loja, quando passa um carro de som… se tem música, eu começo”, conta.
E não existe regra, nem hora marcada, Lourdes dança porque quer e, principalmente, porque sente. “Eu não danço para me aparecer, não. Eu danço porque eu gosto, eu amo”, reforça. A liberdade que encontra nos movimentos é o que a mantém em pé, leve, viva. “É uma sensação boa, de liberdade mesmo”.
O gosto musical acompanha esse espírito: do flashback clássico ao funk e aos bailes que embalaram gerações. E quando toca aquela música que marcou época, não tem negociação: “onde eu vejo ‘Voyage Voyage’, eu chego e meto o passo”, conta, rindo, como quem ainda dança nos mesmos salões da juventude, mesmo que agora o palco seja a rua e o público, milhões nas telas
Com o tempo, o que era espontâneo virou também cena recorrente. Pessoas parando para filmar, pedir vídeo, chamar de “diva”… Lourdes estranhou no começo, desconfiou, teve medo de virar motivo de chacota. Hoje, leva com leveza. “Onde eu chego, o pessoal pede para eu dançar, e eu danço”, diz. E dança mesmo e ainda deu uma palhinha durante a entrevista.
E é justamente essa autenticidade que rende histórias curiosas, como a fama de ser o “terror do INSS”. Entre risadas, ela entrega a resposta pronta: “Se o INSS ver isso, tem problema não… porque nem aposentada eu sou”. A frase vem acompanhada de um recado direto que deixa para quem a acompanha: não tem idade para ficar parado. “Tem que se soltar, menino… viver a vida”.
Sonho tão antigo quanto os flashbacks
Se na dança Lourdes esbanja leveza, quando fala do futuro o tom ganha outra profundidade. Por trás dos vídeos virais e da energia que contagia, existe um desejo antigo, guardado com o mesmo cuidado de quem preserva uma música especial: o sonho da casa própria.
“Eu não tenho esse negócio de possuir coisa, não. Só um lar… Deus me permitindo me dar um lar, eu fico muito feliz”, diz. O pedido é simples, mas carrega peso. Hoje, ela mora em um imóvel de herança dividido com os irmãos, e isso, para ela, nunca foi sinônimo de pertencimento. “A herança não é da gente, é de todo mundo. Eu queria o meu cantinho, para saber que é meu”, explica.
O sonho não envolve luxo, carro ou qualquer ostentação. Pelo contrário. Lourdes faz questão de reforçar a simplicidade que guia sua vida. “Pode ser uma casinha humilde, bonitinha, só para eu morar com meu filho… eu queria muito”.
E talvez o mais marcante seja saber que esse desejo antecede a fama. Porque antes dos vídeos viralizarem, antes dos milhares de seguidores, houve choro e oração. “Eu cheguei na casa da minha irmã chorando, pedindo a Deus uma forma de conseguir um lar para mim”, relembra. Pouco tempo depois, os vídeos começaram a ganhar o Brasil. Para ela, não é coincidência, mas resposta.

Nos embalos de Marabá
Hoje, Lourdes segue sendo exatamente quem sempre foi. Simples, espontânea e fiel ao que sente, mesmo com a chegada da fama. Ela continua andando de bicicleta, rindo das próprias histórias e, claro, dançando onde quer que a música toque.
Ao mesmo tempo, sem perceber, virou uma figura viral, ao passo que se tornou inspiração, principalmente para quem acredita que o tempo impõe limites. “Para viver a vida não tem idade, não. Qualquer idade é idade”, diz, com a convicção de quem prova isso todos os dias.
Entre um passo e outro, ela segue escrevendo sua trajetória como um verdadeiro clássico à la Irene Cara – daqueles que atravessam gerações sem perder o brilho. Porque, no fim das contas, para a Diva do Flashback, a vida é uma pista aberta, uma música tocando e a certeza de que ainda há muitos passos pela frente.

