Correio de Carajás

Peixes contaminados trazem riscos à saúde de ribeirinhos na Amazônia

Estudo aponta níveis de metais até 30 vezes acima do limite

Foto: ICMBio
✏️ Atualizado em 19/03/2026 15h49

Para milhões de ribeirinhos da Amazônia, o peixe é a base da alimentação diária. Um estudo da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) traz um alerta para essa população: todas as espécies investigadas apresentam riscos à saúde por causa da presença de metais tóxicos, especialmente mercúrio e arsênio.

Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND) coletaram amostras em áreas de pesca nos municípios de Faro, Juruti, Santarém, Porto Trombetas e Itaituba, no oeste do Pará. Eles examinaram se seis espécies amplamente consumidas (acari, aracu, piranha, pirarucu, caparari e tucunaré) possuíam arsênio, cádmio, mercúrio e chumbo.

Diferentemente de estudos anteriores, os pesquisadores acompanharam pescadores até os locais de captura para garantir a rastreabilidade das amostras.

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Os resultados indicam que parte dos peixes, especialmente espécies carnívoras, apresentou níveis de mercúrio acima dos limites legais. Os cálculos de risco consideram os padrões locais de consumo de peixe. O risco à saúde foi considerado alto em todas as espécies e em todas as cidades. Em alguns casos, havia mercúrio em quantidade quase 30 vezes acima do limite de tolerância.

O estudo também aponta que 25% das amostras apresentam risco considerável de câncer, principalmente devido à presença de arsênio e cádmio. O acari, peixe bastante consumido na região, foi um dos destaques nesse quesito.

O mercúrio pode afetar o sistema nervoso, provocar danos renais, problemas respiratórios, abortos e prejudicar o desenvolvimento infantil. Contaminantes como o arsênio e o cadmio estão associados a um maior risco de câncer.

Os pesquisadores identificaram ainda uma coincidência que reforça o alerta. Dados da Secretaria de Saúde do Pará mostram aumento nos casos de câncer de pele entre 2022 e 2024 no Baixo Amazonas, especialmente em Santarém e Juruti — localidades onde o estudo encontrou maior risco associado ao arsênio. A pesquisa ressalta que a correlação observada exige investigação mais aprofundada.

Origem da contaminação

O estudo relaciona a presença dos metais tóxicos a múltiplas pressões ambientais na região. Entre elas estão o garimpo ilegal de ouro (que utiliza mercúrio), a mineração de bauxita (que produz resíduos conhecidos como “lama vermelha”), o desmatamento e a expansão da soja.

Essas atividades contribuem para a erosão do solo e liberam metais naturalmente presentes na terra para os rios. Esses contaminantes se acumulam ao longo da cadeia alimentar e atingem concentrações maiores em peixes predadores, como tucunaré e piranha.

Diferentes riscos

Segundo os pesquisadores, o risco é mais significativo para populações ribeirinhas, que consomem peixe diariamente. Para o restante da população brasileira, incluindo turistas, o consumo é considerado seguro dentro dos padrões médios nacionais.

O estudo conclui que proibir o consumo de peixe não é uma solução viável, já que isso agravaria a insegurança alimentar na região. Em vez disso, os autores defendem políticas públicas voltadas ao monitoramento contínuo da qualidade da água e dos alimentos, além de ações de vigilância em saúde.

A pesquisa reforça a necessidade de integrar questões ambientais e de saúde pública na formulação de políticas para a Amazônia, diante do avanço de atividades econômicas que impactam diretamente a qualidade de vida das populações locais.

(Agência Brasil)