As mudanças climáticas causam impactos que vão além dos danos ao meio ambiente. Estudos científicos já apontaram que eventos extremos relacionados ao clima, além de ondas de calor e frio mais intensas e poluição atmosférica, possuem relação com problemas graves de saúde.
Diante desse cenário, novas tecnologias e ferramentas que utilizam inteligência artificial, dados e soluções digitais podem fortalecer os sistemas de saúde no enfrentamento das consequências das mudanças climáticas para a saúde da população.
O tema foi debatido no último sábado (14) no painel “Clima em crise, saúde em risco: Tecnologia como elemento vital” no SXSW (South by Southwest), um dos mais importantes festivais globais de inovação e tecnologia, realizado em Austin, nos Estados Unidos.
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A conversa foi moderada por Sophie McClarty, editora da revista científica Nature, e contou com a presença do presidente do Einstein, Sidney Klajner, e do diretor de Emergências em Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), Ciro Ugarte.
Klajner falou sobre a importância de utilizar tecnologias como a IA para o combate dos impactos das mudanças climáticas.
“Em qualquer ramo de conhecimento, quando você não tem os dados corretos ou em uma quantidade razoável para que você possa organizá-los, não tem como predizer situações que podem ser repetitivas e que poderiam ser prevenidas, como o que acontece com eventos climáticos”, afirma.
“Quando você tem um conhecimento bem organizado, com dados sendo gerados, isso permite – por meio de algoritmos – você criar modelos preditivos para que, quando ocorra este tipo de alteração, o sistema de saúde se prepare aumentando a capacidade de leitos, aumentando o headcount, quantidade de profissionais de saúde que vão ser necessários quando é iminente o aumento da demanda de uma população, mediante uma alteração climática”, completa.
Segundo Klajner, ter essa quantidade de dados organizados é importante para dar suporte à decisão médica e à capacidade de predizer necessidade de leitos, de profissionais do pronto atendimento e predizer, por meio de monitorização, se um paciente pode ter uma piora clínica ao longo das próximas horas.
“A importância dos dados é que eles são transformados em forma, por meio da inteligência artificial, e trazem uma maior capacidade para os nossos profissionais de saúde”, finaliza.
Estudos recentes da Fiocruz mostram que o verão de 2024/2025 foi o mais quente do Brasil desde 1961, com temperaturas médias 0,73°C acima do histórico. Além disso, cada aumento de 1°C na temperatura está associado a uma elevação de 18% na morbidade e de 35% na mortalidade da população.
Projetos monitoram dados de populações quilombolas e indígenas
No painel, foram apresentadas experiências concretas que mostram como o uso integrado de dados ambientais, epidemiológicos e socioeconômicos pode apoiar gestores públicos na antecipação de riscos e na organização de respostas mais rápidas e eficientes diante de eventos extremos.
A plataforma MAIS (Monitoramento do Impacto Ambiental na Saúde), por exemplo, cruza informações sobre temperatura, qualidade do ar, hospitalizações e perfil demográfico para identificar padrões e apoiar o planejamento do sistema de saúde em mais de 5.500 municípios brasileiros.
Também ganharam destaque projetos desenvolvidos em conjunto com o Ministério da Saúde, no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). O Veracis (Vulnerabilidades Étnico-Raciais, Ambiente, Clima e Impacto na Saúde), por exemplo, busca entender como as mudanças climáticas afetam a população negra e comunidades quilombolas.
“Esse é um projeto em que pessoas negras e quilombolas, que têm uma dificuldade de acesso à saúde, passam a ser monitoradas. Não apenas os dados de solo e água são colhidos, mas também amostras de sangue para comparar as doenças dessas populações com as de outras. Isso nos dá informação do que está acontecendo relacionado às mudanças climáticas e à falta de acesso à saúde”, explica Klajner.
Além disso, neste projeto são usados sensores de monitoramento que coletam e armazenam dados de clima e qualidade do ar nos seis biomas brasileiros.
Outro projeto em andamento é o Vigiambsi (Vigilância Ambiental e Saúde Indígena), direcionado à saúde indígena. Ele atua na criação de uma plataforma nacional para integrar e padronizar indicadores ambientais relacionados à saúde dos povos indígenas e à realização de análises de solo e água em aldeias, com avaliação microbiológica e investigação da presença de agrotóxicos e metais pesados.
A iniciativa fortalece a vigilância ambiental e oferece subsídios técnicos para o planejamento de ações de cuidado e prevenção.
“Neste projeto, nós procuramos monitorar dados de saúde que já existem pelos agentes de saúde e compará-los a dados de qualidade de água e do solo, que, muitas vezes, podem estar contaminados por mercúrio e chumbo em uma quantidade muito grande devido ao garimpo”, afirma Klajner. “Dessa forma, podemos atuar para melhorar a saúde da população indígena”.
O painel também destacou o papel estratégico da telemedicina em contextos de desastres climáticos. Em regiões longínquas da Amazônia brasileira, redes de atendimento remoto permitem que pacientes sejam acompanhados por especialistas a milhares de quilômetros de distância.
O modelo pode ser replicado em situações de enchentes ou bloqueio de acessos, garantindo triagem, orientação clínica e continuidade do cuidado mesmo quando a infraestrutura física é comprometida.
“Sem tecnologia, nossa capacidade de monitorar riscos, coordenar respostas e manter o atendimento à população seria drasticamente reduzida. A inovação deve ser tratada como um instrumento de proteção social”, reforça Klajner.
(Fonte:CNN Brasil/Gabriela Maraccini)
