Correio de Carajás

PF mapeia rota de ‘mulas humanas’ que trazem cocaína da Bolívia

Polícia Federal, Receita Federal e ANTT apontam que Corumbá (MS) é usada como rota para levar cocaína até São Paulo e, depois, ao exterior. Método coloca vidas em risco e movimenta toneladas da droga.

Quatro imagens de raio-X do abdômen mostrando múltiplas moedas dentro do trato gastrointestinal.
Cada pessoa engole, em média, cerca de 100 cápsulas de cocaína em tráfico internacional — Foto: Receita Federal
✏️ Atualizado em 07/03/2026 08h46

Corumbá é a principal rota para um tipo específico de tráfico em Mato Grosso do Sul: o envio internacional de cocaína por meio de “mulas humanas”. Segundo a Polícia Federal (PF) e a Receita Federal, o esquema recruta pessoas em situação de vulnerabilidade no país vizinho para trazer a droga ao Brasil. O principal destino é a cidade de São Paulo.

Entre 8 e 10 ônibus cruzam diariamente a fronteira entre Bolívia e Brasil, em Corumbá. Segundo estimativas da Receita Federal, em cada veículo pode haver até 8 pessoas com cápsulas de cocaína dentro do corpo.

O esquema começa na Bolívia. Segundo o delegado da Polícia Federal Estevão Baesso de Oliveira, os chamados “coiotes” escolhem as “mulas”, oferecem dinheiro, preparam a droga para ingestão e orientam sobre o trajeto. A viagem é feita de ônibus, vans ou carros até o Brasil.

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O método, conhecido como transporte por ingestão, transforma o corpo humano em “contêiner” para driblar fiscalização na fronteira. Conforme especialistas das áreas de segurança e saúde ouvidos pelo g1, a prática integra uma engrenagem com alto volume diário de droga e impõe risco severo a quem engole as cápsulas, já que pode levar a morte imediata.

🔎 Há duas formas mais comuns desse transporte. O body stuffer é quem engole pequena quantidade de droga de forma improvisada, geralmente para tentar escapar do flagrante. Já o body packer, conhecido como “mula”, leva grandes quantidades em cápsulas fechadas e ingeridas de forma planejada, muitas vezes em viagens internacionais.

Infográfico: "Mulas humanas" transportam cocaína no corpo da Bolívia para o Brasil. — Foto: Arte/g1
Infográfico: “Mulas humanas” transportam cocaína no corpo da Bolívia para o Brasil. — Foto: Arte/g1

Por que Corumbá é estratégica para o tráfico internacional

A Polícia Federal não especifica o modo de transporte da droga nos registros de apreensões, apenas contabiliza o total de entorpecente apreendido. Em 2025, foram cerca de 8,42 toneladas e, somente nos dois primeiros meses de 2026, pouco mais de uma tonelada de cocaína já foi apreendida até a atualização desta reportagem.

O delegado Estevão Baesso de Oliveira explica que Corumbá não é foco de abastecimento local, mas sim uma rota de passagem estratégica para o tráfico internacional.

“Corumbá é utilizada como rota para Campo Grande e principalmente São Paulo. De São Paulo, a droga pode seguir para o Porto de Santos e aeroportos como Guarulhos e Viracopos, sendo exportada para outros países”, afirmou.

 

Segundo o delegado, o principal objetivo da PF é ir além das prisões em flagrante das mulas. “Nosso foco é identificar as lideranças criminosas que estão se enriquecendo com essa logística”, destacou.

As autoridades apontam que o tráfico por ingestão é um dos principais desafios no combate ao narcotráfico na região. Segundo o delegado da Polícia Federal, a combinação de exploração de pessoas vulneráveis, logística organizada e fragilidades na fiscalização torna a fronteira entre Brasil e Bolívia um dos pontos mais sensíveis do crime transnacional no país.

Conforme a auditora-fiscal da Receita Federal Tatiane Laranjo Amadeu Suhogusoff, nos últimos anos as ações de fiscalização foram intensificadas, principalmente em parceria com outros órgãos de segurança pública. O órgão também informou que aprimorou o uso e o compartilhamento de informações de inteligência.

Preparação na Bolívia e caminho ao Brasil

 

De acordo com Helberth Teixeira dos Santos, Chefe do Escritório Regional de Fiscalização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em Campo Grande, a maior parte das “mulas humanas” é preparada ainda em território boliviano, principalmente na cidade de Santa Cruz de la Sierra. Dali, essas pessoas seguem de ônibus até Puerto Quijarro, na fronteira com o Brasil.

“Chegando em Quijarro, elas são direcionadas por aliciadores aos ônibus que fazem o transporte de Corumbá para São Paulo de forma clandestina”, explicou Helberth .

 

Segundo Helberth, as travessias são feitas em ônibus clandestinos. A droga é distribuída entre os passageiros para evitar suspeitas. Para despistar a fiscalização, os veículos se apresentam como fretamentos eventuais e simulam viagens turísticas.

“Se cerca de 10% dos passageiros de cada ônibus forem mulas, são aproximadamente 5 quilos de cocaína por veículo. Em dias de pico, podem sair de Corumbá entre 10 e 15 ônibus, o que representa até 75 quilos da droga”.

 

Segundo a inspetora da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Stéfanie Amaral, os flagrantes, na maioria das vezes, são constatados a partir de três indícios:

  1. 💬Entrevista durante a abordagem: a identificação começa com perguntas feitas pelos policiais nas rodovias; inconsistências nas respostas, nervosismo e contradições levantam suspeitas.
  2. 👤Linguagem corporal: o reconhecimento do perfil ocorre, principalmente, pela prática dos policiais, que observam comportamento, postura e sinais físicos durante a fiscalização.
  3. 🤮Sinais característicos: forte odor de látex na respiração e uso de preservativos íntimos para armazenar as cápsulas de cocaína são indícios recorrentes.

 

Quando há suspeita de transporte interno da droga, a pessoa é levada a uma unidade de saúde para exames de imagem. Se a presença das cápsulas for confirmada, o paciente passa a ser acompanhado por médicos até a eliminação ou retirada do material.

Stéfanie diz que também há casos em que o flagrante pode ocorrer após complicações de saúde, como fraqueza por falta de alimentação ou, em situações mais graves, rompimento das cápsulas no estômago durante o trajeto.

O que é transporte de droga por ingestão

 

O método mais utilizado é a ingestão de cápsulas de cocaína. Cada pessoa ingere, em média, cerca de 100 cápsulas, o que totaliza aproximadamente 1,1 quilo de pasta base de cocaína por pessoa, conforme a auditora-fiscal da Receita Federal Tatiane Laranjo Amadeu Suhogusoff

“Eles ficam de um a três dias com a droga no organismo, até eliminarem tudo naturalmente”, informou o órgão. A escolha por esse método tem um objetivo claro: dificultar a fiscalização, segundo Tatiane.

 

“A droga fica dentro do corpo e não aparece em scanners de bagagem comuns. Para identificar, é necessário uso de cães farejadores e exames de raio-X, o que exige estrutura e efetivo que nem sempre estão disponíveis”, explicou a Helberth, representante da ANTT.

O que acontece se uma cápsula de cocaína se rompe no estômago

 

Os riscos à saúde são considerados extremos para aqueles que carregam a droga no estômago. O médico toxicologista Sandro Trindade Benites alerta para a prática, que pode ser fatal.

“É como se a pessoa que tivesse a droga rompida no estômago recebesse uma injeção de adrenalina direto na veia. Na imensa maioria dos casos, quando rompe, evolui para óbito. É quase sempre fatal”, explicou.

 

Segundo o especialista, em caso de rompimento, a cocaína será rapidamente absorvida pelo organismo e provocar:

  • ❤️ Batimentos cardíacos acima de 200 por minuto
  • ⚡ Convulsões
  • 🌡️ Hipertermia
  • 🧠 Falência de múltiplos órgãos

 

O médico responsável pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Mato Grosso do Sul (Ciatox-MS ), Alexandre Moretti, de Lima explica que a cocaína causa uma síndrome adrenérgica aguda, com hipertensão grave, arritmias cardíacas, infarto, derrame e sangramentos internos.

Mesmo quando há sobrevivência, as sequelas podem ser permanentes. “Pode haver sequelas neurológicas, cardíacas e renais. Alguns pacientes precisam de hemodiálise pelo resto da vida”, disse.

 

Por que pessoas vulneráveis entram no esquema

 

Para o antropólogo Guilherme Passamani, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), este tipo de crime não deve ser associado a uma nacionalidade específica, mas sim a condições de vida precárias.

“Eu não associaria a uma nacionalidade, mas a uma condição: uma vida precária, com fragilidades estruturais, que faz essas pessoas ponderarem que o risco de morrer ou ser preso é menor do que a vantagem imediata, que quase sempre é o dinheiro”, explicou.

 

Segundo ele, essas pessoas não formam um grupo homogêneo e nem sempre têm plena noção da extensão dos riscos envolvidos.

Para o antropólogo, os alvos são pessoas em situação de vulnerabilidade, quase sempre de um movimento pendular, ou seja, que se deslocam diariamente entre cidades.

(Fonte:G1)