Correio de Carajás

A defensora que ajuda mulheres a romper com ciclo de violência

Halline Karol atua na Defensoria Pública e explica como buscar ajuda no sistema de Justiça em Marabá

Retrato de mulher de meia-idade com blusa branca bordada e brincos de pérola, sentada em poltrona de couro.
Halline Karol: “Representar essas mulheres exige mais do que um aporte jurídico. Exige um suporte psicológico”/ Foto: Evangelista Rocha
Por: Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 06/03/2026 08h27

No Dia Internacional da Mulher, a presença feminina no sistema de justiça de Marabá representa acolhimento e proteção para mulheres que buscam orientação jurídica todos os dias. À frente da Defensoria Pública da Mulher, Halline Karol Noceti Servilha assume seu compromisso social em um cenário marcado por números alarmantes de violência.

Natural de Marabá, formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e com 18 anos de atuação como defensora pública, Halline reassumiu há poucos meses a área que, segundo ela, está diretamente ligada à realidade feminina.

Para ela, que se sente honrada em participar desse movimento, a urgência do trabalho se impõe pelos dados. Em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar. Apenas no primeiro semestre do mesmo ano, 718 mulheres foram vítimas de feminicídio no país, uma média de quatro mortes por dia. No mesmo período, foram registrados 83.988 estupros, o equivalente a um crime a cada seis minutos.

Leia mais:

Uma vez que os dados expõem a realidade aterradora, a Defensoria se torna uma ferramenta de luta pela vida e dignidade feminina.

“Todas as mulheres que nos procuram são prontamente atendidas. Nós aferimos toda e qualquer margem de atuação da instituição, seja no âmbito criminal ou no âmbito cível”, garante a defensora. Ela afirma ainda que o atendimento é contínuo e sem limitação diária. Não há distribuição de senhas nem número máximo de mulheres atendidas.

Com um atendimento sem restrições, a média de atendimentos da Defensoria é de sete por dia, segundo Halline. São mulheres de Marabá e de municípios da região de Carajás. Muitas chegam sem recursos financeiros, sem apoio familiar e sem informações básicas sobre seus direitos.

Mulher que defende mulheres

“Representar essas mulheres exige mais do que um aporte jurídico. Exige um suporte psicológico”, afirma Halline. Nesse ponto, a Defensoria conta com equipe psicossocial própria, além do trabalho de defensores, servidores e estagiários. Tendo, assim, uma atuação multidisciplinar.

A mesma equipe atende demandas criminais, como medidas protetivas e processos de violência doméstica e, também, questões cíveis, como divórcios, guarda de filhos e cobrança de pensão alimentícia. Para a defensora, isso facilita o acesso. Ou seja, a mulher não precisa procurar diferentes setores para resolver problemas que muitas vezes estão interligados. Por isso, todas as demandas que chegam ao órgão são classificadas como prioritárias.

 

“Toda violência contra a mulher é urgente. Mas há situações que configuram uma emergência dentro da urgência, e conseguimos atuar de forma imediata”, pontua Halline.

Ter essa leitura sobre os casos é fundamental porque a mudança na vida dessas mulheres começa antes mesmo de atravessarem a porta da instituição. Para a defensora, essa transformação se inicia quando a pessoa afetada reconhece que há saída para o ciclo de violência e encontra na Defensoria uma rede de apoio capaz de acolher e orientar. Ainda assim, ela pondera que o acolhimento individual, por si só, não é suficiente para mudar o cenário e não deve se limitar à punição do agressor.

“Se trabalharmos apenas na responsabilização penal, nossa atuação é pequena. Precisamos enfrentar o contexto que favorece essa violência”.

Papel da mulher

Segundo dados mencionados por Halline, 40% dos agressores são cônjuges ou namorados e 26,8% são ex-parceiros. Ou seja, a violência acontece, na maioria das vezes, dentro de relações afetivas, no espaço que deveria ser de confiança e proteção.

“Isso demonstra que estamos falando de uma estrutura social, de uma cultura machista e patriarcal que historicamente colocou a mulher em posição de submissão”.

Halline lembra que até poucas décadas atrás existia no ordenamento jurídico a figura do “débito conjugal”. Ou seja, a ideia de que a mulher tinha a obrigação de manter relações sexuais no casamento. A lei mudou, mas esse pensamento não desapareceu por completo. Atualmente ainda há mulheres que acreditam que precisam se submeter a esse papel.

Por isso que romper o silêncio e denunciar, aquelas que enfrentam essa cultura ajudam a expor a real dimensão do problema. Mas é preciso ressaltar que o aumento dos registros não significa mais violência, mas mais mulheres dispostas a não aceitar o que antes era naturalizado.

 

“Essa mulher (que denunciou) estudou mais, passou a ocupar espaços políticos, econômicos e profissionais. Ela não aceita mais naturalizar a violência”, analisa a defensora.

Ela também reflete que nas últimas décadas as mulheres passaram a estudar por mais tempo, reduziram a média de filhos e ampliaram a participação no mercado de trabalho. Em metade dos lares brasileiros, são a principal fonte de renda. Essa mudança altera a dinâmica tradicional de poder dentro da família e da sociedade.

Para a defensora, parte da violência é reação a essa nova realidade. A sociedade vive um momento de transformação, e as mulheres já não aceitam ocupar o lugar que lhes foi imposto por tanto tempo.

Apoio às mulheres

No cenário marabaense, uma das conquistas apontadas por Halline é a futura implantação da Casa da Mulher. O espaço nasce da mobilização de movimentos sociais, do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e do apoio do governo do Estado. A proposta é reunir, em um só lugar, atendimento jurídico, acompanhamento psicológico e apoio para que essas mulheres consigam voltar ao mercado de trabalho.

“A autonomia financeira é fundamental para que a mulher saia do ciclo de violência e não retorne a ele”, diz com firmeza.

A convicção com que defende essa estrutura revela também suas motivações enquanto defensora. Ao falar sobre o que a move, Halline menciona um senso de justiça que diz carregar desde a infância. Ela reconhece, ainda, que ser mulher influencia sua forma de atuar.

 

“Todas nós percebemos, em alguma medida, essa violência, seja dentro de casa ou no ambiente de trabalho. Existe uma identificação entre nós”.

Ou seja, quando acontece com uma, acontece com todas.

Neste Dia da Mulher, o trabalho de Halline Karol Noceti Servilha permite que mulheres conheçam seus direitos e encontrem o apoio necessário para construir novas possibilidades de vida, por isso ela afirma:

“Não vamos ser paradas, nem pela violência física, nem pela violência psicológica, nem pela violência econômica. A mudança já começou”.