Correio de Carajás

Alerta nutricional em embalagens pode prevenir obesidade, aponta estudo

Por meio de projeções com dois modelos de rotulagem, pesquisa verificou que indicar o excesso de itens prejudiciais diminui a prevalência e os óbitos associados à condição

Mulher com cabelos castanhos analisando produtos enlatados no supermercado.
Foto: Freepik
✏️ Atualizado em 20/02/2026 09h47

Na correria do dia a dia, poucas pessoas costumam dedicar mais do que alguns segundos para ler as embalagens de bebidas e alimentos. Mas é justamente nesse pequeno intervalo que um detalhe pode fazer toda a diferença no cuidado com a saúde: um aviso objetivo e visível no rótulo que destaca a alta concentração de substâncias possivelmente prejudiciais, como açúcar, gordura e sódio. 

Segundo uma pesquisa publicada em novembro de 2025 na revista The Lancet Regional Health – Europe, a estratégia pode trazer benefícios à população. Por meio de simulações, cientistas da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, conseguiram estimar os impactos da obrigatoriedade dos alertas frontais sobre o consumo energético, o índice de massa corporal (IMC), a prevalência de obesidade e a mortalidade associada ao excesso de peso entre 2024 e 2043 no país britânico.

As projeções foram conduzidas a partir de dois modelos diferentes de rotulagem. O primeiro é conhecido como sistema de semáforo e classifica os nutrientes críticos com as cores verde, amarela e vermelha. O segundo, que recebe o nome de rótulo de advertência, utiliza símbolos visuais, como lupas, para destacar quantidades exageradas de nutrientes.  

Leia mais:

Para fins comparativos, também se considerou um cenário de uso apenas voluntário do selo de semáforo nutricional, que é a estratégia utilizada hoje na Inglaterra. Mantidas as regras atuais, a prevalência de obesidade entre adultos ingleses de 30 a 89 anos pode chegar a 28% em 2043. O modelo ainda estima a morte de 16 milhões de pessoas por causas relacionadas ao excesso de peso ou condições crônicas correlatas.  

Já na simulação que considera a adoção obrigatória do sistema de semáforo nutricional em todas as embalagens, verificou-se uma redução de 2,3% na prevalência da condição em comparação ao cenário de referência. Em termos de mortalidade, o modelo projeta que aproximadamente 57 mil mortes relacionadas à obesidade seriam prevenidas ou postergadas entre 2024 e 2043.  

Já com a implementação obrigatória do modelo que adiciona símbolos de advertência às embalagens, os efeitos positivos parecem ser maiores: a prevalência de obesidade apresentaria uma redução estimada de 4,4%. Quanto à mortalidade, o modelo calcula que cerca de 110 mil mortes relacionadas à doença seriam evitadas ou adiadas. 

Esses benefícios ocorreriam tanto pela mudança de comportamento do consumidor quanto como uma resposta da própria indústria. Rótulos simples e diretos tendem a ser melhor compreendidos e desencorajam a compra de produtos com perfil nutricional desfavorável. Da mesma forma, a exibição de advertências negativas nas embalagens poderia estimular reformulações nas receitas dos alimentos. 

“Os alertas representam um avanço importante, à medida que chamam a atenção imediata das pessoas, inclusive daquelas que não têm o hábito de ler as tabelas nutricionais, para o excesso de nutrientes críticos em um produto”, analisa o médico nutrólogo Rodrigo Costa Gonçalves, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. “Isso permite tomar decisões mais conscientes no momento da compra de alimentos.” 

Alertas nutricionais no Brasil

Em 2022, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tornou obrigatória a adoção dos rótulos de advertência no país. De lá para cá, alimentos e bebidas provenientes da indústria e da agricultura familiar passaram a apresentar, na parte superior e frontal da embalagem, símbolos de lupa que sinalizam a presença de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio em excesso.  

“Antes, os rótulos exigiam um nível de letramento nutricional elevado. Hoje, com a disposição mais simples e visual da informação, ela funciona como um sinal de alerta rápido”, aponta Gonçalves. “Na prática clínica, percebo que parte dos pacientes passou a olhar mais para os rótulos depois da mudança.” 

Essa medida foi pensada como uma solução ao cenário epidemiológico de obesidade e sobrepeso no Brasil. Em 2024, 62,6% da população adulta apresentava excesso de peso, uma incidência quase 20% maior do que em 2006. A obesidade, por sua vez, mais que dobrou no mesmo período, saltando de 11,8% para 25,7%. Os dados são do relatório de 2025 do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e apontam uma tendência persistente, observada em todas as faixas etárias, níveis de escolaridade e sexos. 

O impacto vai muito além da estética. “O excesso de peso está diretamente associado a maiores riscos de desenvolver diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, apneia do sono e doenças articulares ou hepáticas”, alerta o médico do Einstein Goiânia. “A condição também pode levar a prejuízos importantes na saúde mental e na qualidade de vida.” 

Abordagem multifatorial

Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil, do Ministério da Saúde, determina como meta para 2030 manter a prevalência da obesidade abaixo dos 20,3% da população. Mas, para atingir esse índice, só as mudanças na rotulagem não bastam. “Sozinha, a rotulagem não educa, apenas informa. A estratégia precisa ser acompanhada de orientação profissional e educação alimentar contínua para gerar mudanças consistentes de comportamento”, observa Gonçalves.  

Isso inclui, por exemplo, promover educação nutricional desde a infância, garantir maior acesso a alimentos in natura e minimamente processados, desenvolver políticas públicas que desestimulem o consumo de ultraprocessados e incentivar a prática de atividade física. Nesse processo, o papel dos profissionais de saúde é central. “Médicos, nutricionistas, educadores físicos e psicólogos precisam atuar de forma integrada, não apenas prescrevendo dietas, mas ajudando o paciente a entender o contexto, suas escolhas, dificuldades e motivações”, avalia o nutrólogo.

(Fonte: CNN Brasil/Arthur Almeida)