📅 Publicado em 03/02/2026 10h34
Quanto vale um sonho? Para as irmãs Lucília Batista de Souza, de 20 anos, e Luciana Batista de Souza, de 19, ele vale, em resumo, na persistência. Moradoras do Bairro São Félix III, em Marabá – jovens negras e moradoras da periferia – elas aprenderam cedo a conciliar estudos, trabalho e responsabilidades familiares. Entre dez irmãos, carregam como herança o maior ensinamento deixado pelo pai, já falecido, de que a educação é o caminho mais seguro para um futuro melhor.
Foi para conhecer de perto essa trajetória que a equipe do Correio de Carajás esteve com a família na tarde do último domingo (1º). À sombra das árvores, no quintal simples, perfumado pelo pé de cupuaçu, a conversa fluiu com naturalidade. Nos relatos emocionados, adocicados pelos risos tímidos das irmãs, as novas universitárias demonstravam orgulho por serem as primeiras da família a ingressarem em uma instituição pública de ensino superior – a Uepa.
A camiseta feita especialmente para a celebração, com a frase “Parabéns Calouras”, anunciava a conquista. A descoberta de que foram aprovadas veio através de uma amiga das irmãs. Lucília passou no curso de Ciências Biológicas da Universidade do Estado do Pará (Uepa). Já Luciana garantiu vaga em Engenharia Florestal na mesma instituição. Mas se engana quem pensa que os sorrisos largos não escondem uma caminhada difícil até a aprovação.
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“Nós perdemos nosso pai muito cedo e sempre estudamos em escola pública. Houve momentos em que deu vontade de desistir, principalmente por episódios de preconceito que vivi na escola. Já fui reprovada e só aprendi a ler depois dos 11 anos, mas nada disso me fez parar. Eu persisti”, relata Lucília.
Ela lembra que contou com o apoio de familiares, professores e pessoas próximas, que foram fundamentais para que não abandonasse os estudos. Recentemente, Lucília foi diagnosticada com o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), condição que trouxe dificuldades adicionais de concentração. O impacto foi sentido também no trabalho como jovem aprendiz na JBS, onde precisou mudar de função até se adaptar.
“Quando descobri, pensei: ‘meu Deus, o que eu vou fazer agora?’. Mas ouvi palavras de incentivo que me ajudaram a seguir em frente”, conta.
Luciana também enfrentou obstáculos. Em 2024, tentou o Enem pela primeira vez, mas não conseguiu a aprovação. Em vez de desistir, decidiu aperfeiçoar a preparação. “Eu sempre dizia para mim mesma que precisava estudar mais, melhorar mais. Como a gente não tem condição financeira de pagar uma faculdade, a universidade pública é o único caminho”, afirma.
Hoje trabalhando no CRAS no São Félix, a aprovação de Luciana veio após meses de dedicação em cursinhos pré-vestibulares, onde encontrou acolhimento e mais incentivo. “Os professores sempre falavam que seria difícil e que teriam momentos de desânimo, mas que eu não podia parar. Isso fez toda a diferença”, destaca Luciana, que também reconhece o apoio da coordenação do cursinho como decisivo.
Em comum, além do sonho realizado, as irmãs compartilham uma rotina marcada por esforço. Durante a preparação para o vestibular, deslocavam-se diariamente de casa até a Estação Conhecimento, da Fundação Vale, e conciliavam os estudos com o trabalho. Antes disso, ambas atuavam como babás para ajudar nas despesas da família.

Na residência humilde, cercada por mato e com jirau para lavar louça do lado de fora, vivem duas jovens que acreditam na ascensão por meio do conhecimento. A mãe, dona Carmem, é viúva, criou sozinha dez filhos e hoje carrega no olhar o orgulho de ver duas de suas filhas alcançarem o ensino superior, que outrora era resumido pela dor da perda do companheiro.
A mais velha das duas, Lucília, sempre carregou uma convicção que ajudou a guiar sua trajetória. Ainda criança, dizia ao pai que estudaria para ajudá-lo, sonho que ganhou um novo sentido após a morte dele. “Quando meu pai faleceu, eu decidi que ia seguir em frente para ajudar minha mãe e meus irmãos. Aquilo ficou comigo”, relembra.
A ideia de não desistir virou um compromisso pessoal, que para Lucília, os estudos sempre estiveram ligados à responsabilidade com a família. “Eu sempre pensei que não podia parar, porque minha mãe e meus irmãos precisam de mim”, encerra.
