Correio de Carajás

MACABÉA: a nordestina amarelada de A Hora da Estrela

Há algum tempo estou me preparando para falar dela. Por ser quem é, já apareceu algumas vezes nesta coluna, ora apenas citada ora teve seu parco repertório linguístico analisado. Mas ela, em sua inteireza, não foi apresentada aos leitores.  A exemplo de sua criadora, fui postergando sua chegada aqui, pelo absoluto deleite de pensar e imaginar como seria este dia. Quis, de forma muito consciente, prolongar o prazer, eis que chegou a hora de apresentar a nordestina amarelada, a protagonista do romance A HORA DA ESTRELA (1977), de Clarice Lispector.

Este ensaio foi gerado em meu coração há alguns anos, quando ouvi uma frase — aliás, um desejo — anunciado por um arguto leitor e querido amigo, Erick Ricardo, a respeito da personagem de Clarice. Durante a leitura, ele compartilhou comigo que “queria salvar Macabéa”, isso me marcou profundamente. Ele é daqueles leitores nos quais deságuam os rios da Literatura e do Direito; sua alma é habitada pela sensibilidade da Literatura e pela energia do Direito.

Aquele anseio, além de demonstrar empatia e compaixão, captou o sentimento do leitor ao conhecer Macabéa e sua condição miserável de vida. Ele queria salvar nossa heroína de sua vida nada gloriosa, salvar da invisibilidade social; e salvar Macabea significa proteger, cuidar, amar, pois, segundo Clarice, “Ela não tinha anjo da guarda. Mas se arranjava como podia”.

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Para falar dos atributos de Macabéa, recorro a trechos do livro e lanço mão das palavras de sua criadora. Macabéa é a “nordestina amarelada” de Alagoas que vive de forma invisibilizada no Rio de Janeiro, possui um subemprego; sua vida é limitada; seu maior luxo é tomar um gole de café frio antes de dormir”. Tudo em sua vida é escasso, até mesmo a existência ela tenta economizar: “(…) defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco de sua vida para não acabar”. Vivendo de menos, sua existência era contida. Quando se apresentava, afirmava: “Sou datilógrafa e virgem, e gosto de Coca-Cola”. “Era calada (por não ter o que dizer), mas gostava de ruídos. Sua comunicação era fragmentada, por não possuir repertório para se expressar — sentimentos e desejos — o que contribuía para sua indigência social.

A protagonista de “A Hora da Estrela” é, segundo o narrador, o “cabelo na sopa”. Ao falar de suas características, diz que “sua voz era crua e tão desafinada como ela mesma era.  Macabéa não tinha força de raça, era subproduto”. Nossa heroína vagava pelas ruas do Rio de Janeiro sem proteção, sem consciência de si, sem autoestima. “Sequer esperança aquela pobre moça tinha; Macabéa nunca tinha tido coragem de ter esperança. Macabéa não se preocupava com o próprio futuro: ter futuro era luxo”. Eis a razão pela qual nosso leitor sente o desejo, a necessidade salvar a nordestina. É quase impossível conhecer a trajetória desta alagoana e não sentir vontade de salvá-la, de resgatá-la daquele estado de invisibilidade, daquela vida de menos.

Clarice, em sua última entrevista, disse, ao fazer referência à protagonista de seu, à época, novo romance, que falaria de uma menina que teve a infância pisada, que teve uma vida de invisibilidade e que viveu à margem, como indigente social. “A Hora da Estrela”, ao contrário de outros romances de Clarice, apesar das muitas reflexões filosóficas sobre a existência e sobre o próprio ato de escrever, é sua única obra que traz no enredo não só as consequências dos fatos, mas também os fatos, e personagens, além da protagonista.

O livro tem uma leitura fluida. É uma ótima opção para quem deseja conhecer a escrita de uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Uma dica: após a leitura, assista ao filme homônimo, uma adaptação de 1985, que é fiel à obra de Clarice.

Encerro a coluna de hoje revelando que Clarice é minha escritora brasileira preferida. Sou clariciana por um conto (Felicidade Clandestina), que foi a minha porta de entrada para obra da autora, e por Macabéa. Deixo como sugestão de leitura esse clássico da literatura brasileira: A HORA DA ESTRELA e faço um apelo:  cuidem de Macabéa! Boa leitura, querido leitor! Até a próxima semana!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.