Correio de Carajás

Asfixia, água nos pulmões e agressão prévia: polícia revela detalhes perturbadores sobre morte de Elane

Inquérito sobre a morte de Elane em São Domingos já soma 350 páginas e inclui medidas judiciais invasivas, segundo delegado

Família cobra justiça pela morte de Elane, que completa oito dias nesta quinta-feira/ Imagens: Fernando Paiva/TV Correio SBT
Por: Chagas Filho e Luciana Araújo
✏️ Atualizado em 29/01/2026 14h54

A Polícia Civil do Pará segue investigando a morte de Elane Carvalho Freire, de 21 anos, encontrada sem vida em um córrego ao lado de uma imobiliária no município de São Domingos do Araguaia. O caso é tratado como homicídio e tramita sob sigilo judicial. Em entrevista ao repórter Chagas Filho, da TV Correio, nesta quinta-feira (29), o delegado Walter Ruiz, que preside o inquérito, falou sobre o andamento do caso. Nomes de suspeitos não foram divulgados.

Segundo ele a apuração já reúne um volume expressivo de documentos, perícias e medidas cautelares, com o objetivo de esclarecer as circunstâncias do crime e identificar a autoria de forma técnica e responsável. Ele afirma ainda que a atuação da Polícia Civil no caso precede o momento em que o corpo foi localizado.

De acordo com o delegado, o procedimento investigativo já soma cerca de 350 páginas e inclui medidas cautelares consideradas mais invasivas, todas autorizadas pelo Judiciário. “Estamos garantindo o direito constitucional de todos os envolvidos, mas, ao mesmo tempo, buscando uma solução justa para o caso da Elane”, afirma.

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Walter Ruiz é o delegado responsável pelo inquérito que investiga a morte de Elane em São Domingos

Entre as ações recentes, Walter revela que na quarta-feira (28), foi realizada uma busca domiciliar e uma exploração detalhada nos locais ligados ao crime. No local onde o corpo foi encontrado, os investigadores identificaram pontos que indicam que Elane teria sido lançada no córrego já desacordada.

A causa da morte, segundo informações preliminares, foi asfixia mecânica por insuficiência respiratória, com presença de água nos pulmões. O delegado revela que há indícios de que a vítima sofreu um trauma na cabeça antes de ser jogada no local, hipótese que ainda depende da conclusão dos laudos periciais.

“Já fizemos 10 requisições periciais, e estão pendentes 15 laudos a partir delas. São todas requisições destinadas à Polícia Científica, que também tem empreendido todos os esforços necessários”, conta Walter.

O delegado explica ainda que a Polícia Científica tem deslocado equipes de Marabá para auxiliar nos trabalhos em São Domingos do Araguaia. O delegado ressaltou que parte das informações permanece sob sigilo para não comprometer as investigações e reforçou o pedido de colaboração da população. Segundo ele, o trabalho está sendo conduzido com zelo, cuidado e transparência, para que a responsabilização ocorra sem injustiças.

FAMÍLIA

Com o sofrimento visível, a família de Elane cobra justiça e respostas. O pai da vítima, Enézio Freire, relatou à Reportagem do CORREIO que a filha não tinha o hábito de sair de casa tarde da noite e que o comportamento dela no dia do desaparecimento chamou a atenção. Segundo ele, Elane saiu de casa por volta de meia-noite, algo incomum para sua rotina.

Enézio Freire, pai de Elane: “Ela era uma menina tranquila, caseira”

“Ela era uma menina tranquila, caseira. Nunca saía desarrumada, e naquele dia saiu de um jeito diferente, o que é muito estranho para nós”, conta.

Enézio também relatou que, antes de sair, a filha estava emocionalmente abalada por causa da divulgação de uma foto dela nas redes sociais, situação que a deixou constrangida e nervosa. Ele afirmou que Elane era reservada, conversava pouco e costumava compartilhar mais coisas com a mãe do que com ele.

 

“O que fizeram com a minha filha foi uma barbárie. Ela não merecia isso. Nenhuma mulher merece”.

 

Seu depoimento à reportagem da TV Correio destaca a dor da família e o medo de que o crime se torne mais um caso sem solução no município.

Quem reforça a impressão de Enézio é a mãe de Elane, Maria Dalva Araújo Carvalho. Ela também relata os sinais de inquietação da filha na noite em que a jovem saiu de casa. A mãe reitera que Elane estava muito agitada, mexendo constantemente no celular, apagando as luzes da casa e demonstrando medo.

“Eu perguntava o que estava acontecendo, mas ela dizia que não era nada. Eu percebi que tinha algo errado”, afirma. Maria Dalva conta ainda que a filha era caseira, raramente saía sozinha e sempre estava acompanhada quando precisava ir à rua.

Maria Dalva, mãe de Elane: “Só teremos paz quando a justiça for feita”

Elane tinha uma filha pequena e completaria 22 anos no dia seguinte ao crime. Para a família, a dor da perda é agravada pela incerteza e pela espera por respostas. “Só teremos paz quando a justiça for feita”, diz a mãe.

A família conta com o acompanhamento jurídico da advogada Elane Borges Estevam, que atua em parceria com o advogado Diego Souza, de Marabá. Ela explica que, neste momento, não é possível divulgar detalhes sobre o andamento do processo justamente por se tratar de uma investigação que corre em segredo de justiça. Ainda assim, afirmou confiar no trabalho das autoridades e aguardar um pronunciamento oficial. Para a advogada, o caso expõe um problema estrutural relacionado à violência contra mulheres.

“O feminicídio exige uma resposta firme do Estado e da sociedade. Esse tipo de crime não pode ficar impune, em respeito à família e a outras mulheres”, declarou Elane Borges.

Elane Borges Estevam, advogada da família: “O feminicídio exige uma resposta firme do Estado e da sociedade”

Enquanto as investigações seguem em andamento, a Polícia Civil reforça que trabalha para esclarecer o crime de forma técnica e responsável. A família, por sua vez, aguarda que o caso seja solucionado e que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados, para que a morte de Elane não se some a outras ocorrências que permanecem sem desfecho na região.

O CRIME

Elane Carvalho Freire foi encontrada morta na manhã de 22 de janeiro, um dia após seu desaparecimento. O corpo da jovem estava boiando em um igarapé em uma área de mata fechada, em circunstâncias que chocaram a comunidade local.

De acordo com as informações apuradas na ocasião, a vítima estava sem roupas, o que levantou a suspeita de violência sexual, hipótese que segue sendo investigada pela Polícia Civil. Após ser vista pela última vez na noite de quarta-feira (21), familiares iniciaram uma campanha nas redes sociais em busca de informações sobre seu paradeiro.

O corpo foi removido pelo Instituto Médico Legal (IML) para a realização de exames que devem determinar a causa exata da morte. Seis dias após o crime, o caso segue causando grande comoção e indignação entre os moradores do município, que cobram uma rápida resposta das autoridades. A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar a autoria e a motivação do homicídio e reforça que informações podem ser repassadas anonimamente pelos canais 190 (PM) e 181 (Disque-Denúncia).