Correio de Carajás

Do rio ao tambor de aço: como Marabá reinventou o ato de lavar roupa

Histórias de empreendedores locais mostram como um serviço doméstico se transformou em oportunidade econômica com lavanderias de autoatendimento ou self-service

Entre as lavadeiras do rio e o giro das máquinas, Marabá reinventa formas de empreender
Por: Luciana Araújo

Bater a roupa suja no girau, enxaguar o sabão na água do rio, deixar quarar sob o sol. A rotina das lavadeiras marabaenses movimentou a economia local e serviu de fonte de renda para dezenas de família.

Com o tempo, o leito do rio foi substituído pelo tanque de pedra nos quintais, e a modernidade chegou trazendo o tanquinho elétrico, a máquina de lavar com centrífuga e a secadora. A revolução dos eletrodomésticos apagou o esforço das lavadeiras do cenário físico da cidade, mas, na memória, elas continuam vivas, batendo e enxaguando roupas dia após dia.

Por muitas décadas, Maria Marrite lavou roupa às margens do Rio Tocantins/ Fotos: Evangelista Rocha

No ritmo da Marabá moderna, que desponta entre as cidades mais importantes do Estado e da Amazônia, em meio ao trânsito caótico e ao tempo encolhido pelas tarefas diárias, as lavanderias de autoatendimento brilham como o tecido alvo, quarado pelas lavadeiras.

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Quem passa pelas ruas e avenidas da cidade das castanheiras já deve ter percebido as máquinas rodando por trás de paredes de vidro. São lugares que prometem roupas limpas e cheirosas por um preço acessível e em tempo recorde. Para a dona de casa atarefada, a oferta é um respiro; para o trabalhador que vive sozinho, é um alívio; para o turista, uma bênção. Para quem tem faro de empreendedor, as lavanderias de autoatendimento se apresentam como oportunidade.

Dados da Secretaria de Gestão Fazendária (Segfaz) de Marabá mostram que existem 19 lavanderias automatizadas na cidade, distribuídas entre os núcleos Cidade Nova, Nova Marabá e São Félix. Entre o som antigo da roupa batida na beira do rio e o giro silencioso dos tambores de aço, a cidade reinventa maneiras de empreender e ganhar dinheiro.

Primeira empreendedora da família

Normanda Reis, 28 anos, está entre os marabaenses que enxergaram o potencial de um segmento ainda inovador na cidade. Formada em Agronomia, ela é a primeira da família a enveredar pelo caminho do empreendedorismo. Há dois anos, fundou a Limpíssima Lavanderia. Com o tempo, o empreendimento não apenas se consolidou, como passou a integrar o dia a dia de quem busca praticidade, conforto e autonomia.

Normanda Reis: “A expectativa agora é continuar lidando com a concorrência de forma saudável”

Localizada em frente à rodoviária da Folha 32, a lavanderia atende um público diverso. “Eu pesquisei o público-alvo e vi que são viajantes, estudantes, donas de casa e pessoas que trabalham em horário fixo”, diz a marabaense. A proximidade com hotéis e o fluxo intenso de pessoas reforçaram a escolha do ponto.

Foi o modelo de autoatendimento o que mais a atraiu nessa nova era de lavanderias. “O cliente pode chegar, colocar a própria roupa para lavar, efetuar o pagamento e se sentir à vontade”, explica. Para ela, a proposta dialoga com uma realidade comum a muitos: a falta de tempo e, muitas vezes, de espaço dentro de casa.

“Muitas pessoas não conseguem lavar roupa durante a semana ou não têm onde estender. A lavanderia acaba sendo um auxílio no dia a dia”.

Mesmo acreditando no potencial do novo negócio, o medo de falhar não ficou de fora. Para reduzir riscos, Normanda investiu em uma assessoria especializada e aprendeu desde a escolha de fornecedores até o funcionamento das máquinas. O receio, que ela define como saudável, vinha da dúvida sobre a aceitação do serviço pela população. O tempo foi o responsável por mostrar que a adesão dos clientes cresceria de maneira exponencial. “A minha expectativa era que hoje fosse algo adotado pelas pessoas, e eu vejo que elas utilizam bastante”, reflete.

Com o crescimento do setor e a abertura de novas lavanderias na cidade, os desafios mudaram. Ao longo dos anos, o segmento deixou de ser novidade e agora a preocupação é manter um padrão de serviço e de atendimento que garanta a fidelização dos clientes. Parte dessa estratégia está no cuidado com o espaço físico, pensado para ser acolhedor. Estante com livros, espaço para descanso e até tomadas exclusivas para carregar o celular são recursos que Normanda implantou para proporcionar uma experiência confortável.

“Eu venho todos os dias ver se o ar-condicionado está gelando direito, se as cadeiras estão boas, se o clima está agradável”, acrescenta.

A comunicação também é uma aliada e Normanda assume pessoalmente essa função. O marketing é o coração do negócio e ela aposta no Instagram como principal ferramenta para explicar o funcionamento da lavanderia e atrair novos clientes. E o acúmulo de ofícios não para por aí.

A rotina de manutenção também fica por sua conta, mas aqui ela conta com a ajuda do noivo. Esse cuidado é essencial para a qualidade do serviço oferecido. “Todos os dias a gente limpa os filtros da lavadora e da secadora, às vezes mais de uma vez, porque chegam roupas com muita sujeira ou pelos de animais”, explica Normanda. Além disso, há reposição constante de insumos, como sabão, amaciante, álcool e itens de higiene.

Na Limpíssima Lavanderia, Normanda acumula as funções de dona e marketeira

Ao olhar para trás, Normanda avalia o crescimento do negócio com mais segurança. No começo, ela era pioneira. Agora, está cercada de outros empreendimentos que também deram certo. Para ela, o desafio atual é outro. “A expectativa agora é continuar lidando com a concorrência de forma saudável e manter os nossos clientes”, finaliza.

 

Alexandre aposta em container high-tech e vê lavanderia disparar

 

Aos 47 anos, o paraense Alexandre Verderosa decidiu transformar uma experiência cotidiana em negócio. Natural de Belém e morando em Marabá desde 2009, ele inaugurou, em novembro de 2025, a Laundromat, uma lavanderia automatizada instalada em um container dentro do Atacarejo Mateus, no núcleo Nova Marabá.

A ideia começou a amadurecer em 2022, quando Alexandre passou a buscar um segmento que lhe proporcionasse autonomia e, sobretudo, tempo de qualidade com a família. O contato com o serviço de autoatendimento já existia, mas como cliente. Durante viagens, hospedado em hotéis, apartamentos ou imóveis por temporada, ele recorria às lavanderias compartilhadas e via ali uma solução prática e econômica.

Com o projeto amadurecido, a empresa começou a tomar forma em junho. A obra foi concluída em novembro e, segundo Alexandre, o investimento foi alto. “Passa de R$ 100 mil para montar um container como esse, porque optei por uma franquia, que tem padrões rígidos. Não dá para economizar”. Em contrapartida, os custos operacionais são enxutos. Uma única pessoa, diz ele, conseguiria administrar o negócio.

Alexandre Verderosa: “Quem quiser entrar tem que correr, os pontos promissores estão acabando”

No seu caso, a rotina é dividida de forma estratégica. Um funcionário é responsável pela limpeza, a esposa cuida do marketing e das redes sociais, enquanto Alexandre se dedica à prospecção, ao atendimento e à fidelização dos clientes. A manutenção segue um cronograma rigoroso, com ações diárias, semanais, mensais e semestrais, que vão das mais simples às mais técnicas.

Mesmo com pouco mais de dois meses de funcionamento, os resultados iniciais surpreenderam. Segundo Alexandre, a expectativa para o primeiro mês é de seis ciclos por dia, mas a unidade já ultrapassou a média de 11. No mercado, o padrão é que uma lavanderia alcance cerca de 12 ciclos apenas no terceiro mês de operação. No caso da Laundromat, esse patamar quase foi atingido ainda nas primeiras semanas.

Ao analisar os resultados, Alexandre atribui o desempenho à escolha do ponto. A lavanderia funciona dentro de um atacarejo, local de grande fluxo. “É estratégico. Tem gente que vem fazer compras e aproveita para lavar roupa, e acontece o contrário também”. Ele cita ainda hospitais, rodoviárias e postos de gasolina como áreas promissoras. O maior movimento ocorre entre segunda e terça-feira e também às sextas e sábados, especialmente entre 9h e 10h da manhã e das 14h às 20h.

A Laundromat, lavanderia de Alexandre, funciona em um container e acumula números recordes de clientes

Para ele, o crescimento do segmento é evidente e acelerado, e o alerta para quem pensa em investir é direto. “Quando eu quis colocar em outro local, já tinham passado na minha frente. Quem quiser entrar tem que correr, os pontos promissores estão acabando, porque o negócio está crescendo muito”, reconhece.

Lavanderias self-service crescem 44% no Brasil

 

O segmento de lavanderias de autoatendimento vem se consolidando no Brasil como um reflexo direto das transformações no modo de viver nas cidades. Ainda discreto em comparação a outros serviços urbanos, o modelo cresce de forma contínua, impulsionado por mudanças no perfil das moradias, pela rotina cada vez mais acelerada da população e pela busca por soluções práticas para tarefas domésticas.

Nos últimos anos, o número de lavanderias de autoatendimento aumentou de maneira significativa, especialmente em capitais e cidades de médio porte. Estimativas do setor apontam que o Brasil já soma dezenas de milhares de lavanderias, sendo mais de 3 mil operando nesse formato. Mesmo assim, o crescimento permanece consistente e acompanha uma tendência global de valorização de serviços automatizados e de baixo custo operacional.

De 2019 a 2024, o setor de lavanderias cresceu 44% no Brasil, segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, o Sebrae. O segmento de Limpeza e Conservação, no qual essas franquias se inserem, avançou 11,6% apenas em 2024. A tendência acompanha o comportamento de consumo de um público mais jovem, urbano e atento à praticidade.

A tendência internacional tem crescido e abocanhado espaço no setor de serviços no Brasil

A expansão do modelo também está diretamente ligada ao encolhimento dos espaços residenciais. Apartamentos menores, ausência de áreas de serviço e restrições ao uso de máquinas de lavar em condomínios criaram um cenário favorável ao surgimento das lavanderias compartilhadas. Soma-se a isso a mudança no comportamento do consumidor, que passa a valorizar mais o tempo livre e a conveniência do que a realização de tarefas domésticas dentro de casa.

Outro fator determinante é o próprio desenho do negócio. As lavanderias de autoatendimento operam, em geral, sem funcionários fixos, com máquinas industriais, sistemas digitais de pagamento e funcionamento estendido, muitas vezes 24 horas por dia. Isso reduz custos, aumenta a previsibilidade financeira e permite que o serviço seja oferecido em bairros residenciais, próximos ao cotidiano do cliente. Para o usuário, o atrativo está na rapidez do processo e na possibilidade de lavar grandes volumes de roupa em menos tempo do que em equipamentos domésticos.

Apesar do avanço, o hábito de utilizar lavanderias ainda não é amplamente difundido no país. Pesquisas de mercado indicam que apenas uma pequena parcela da população recorre ao serviço de forma recorrente, o que, paradoxalmente, revela o principal potencial do segmento: há um público consumidor muito maior a ser conquistado. Esse espaço de crescimento explica o interesse crescente de investidores e redes franqueadoras, que veem nas lavanderias de autoatendimento um negócio escalável e relativamente resiliente às oscilações econômicas.

O setor também enfrenta desafios. A manutenção constante das máquinas, o controle rigoroso de higiene e a boa localização das unidades são fatores decisivos para a fidelização do cliente. Além disso, ainda existe uma barreira cultural a ser superada, ligada à ideia de que lavar roupas fora de casa seria um luxo ou um serviço supérfluo, percepção que vem mudando gradualmente com a popularização do modelo.

No horizonte, a tendência é de diversificação. Algumas operações já apostam em programas de fidelidade, integração com aplicativos, parcerias com condomínios e expansão para regiões fora dos grandes centros. Mais do que um serviço pontual, as lavanderias de autoatendimento começam a se inserir no cotidiano urbano brasileiro como uma alternativa prática, tecnológica e alinhada às novas dinâmicas de consumo.