Correio de Carajás

Ler e reler ou somente ler, eis a questão

Trago hoje uma polêmica do mundo dos leitores: a releitura. E já anuncio, eu sou do clube que relê. Todos os anos eu releio alguma obra que gosto muito. Eu sou a leitora que não apenas relê, mas também compra edições diferentes da mesma obra. Se um livro que eu gosto ganha um novo projeto gráfico ou é lançada uma edição de luxo ou comemorativa, não resisto.

Digo mais, tem livros que, quando termino, já penso: vou reler! A minha sensação quando releio uma obra é que ela cresce! Isso é incrível.  Foi assim com a releitura de A bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, já li e reli seis vezes e, em todas as vezes, me divirto com as aventuras de Raquel e Afonso! Gosto de voltar a uma história que me faz sorrir! Em minha primeira leitura fiquei encantada com a presença do maravilhoso: objetos e animais falando e pensando. Após, nas muitas releituras, passei a me concentrar na beleza e simplicidade das metáforas presentes na obra.

Há quem considere a releitura uma perda de tempo. Há também aqueles que, tendo uma fome insaciável por histórias novas, não querem se deter naquilo que já experimentaram. Alguém pode pensar: com tantos livros novos, tantos livros que ainda não li, vou perder tempo relendo!? É um argumento que ouço com frequência.

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A famosíssima frase do filósofo Heráclito: “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio…” é perfeitamente cabível ao ato de reler um livro. Uma obra lida na adolescência ganha novas cores e significados quando o revisitamos adultos. Aqui trago minha experiência: quando li Dom Casmurro, de Machado de Assis, pela primeira vez, ainda era uma adolescente e uma incipiente leitora, o que não me permitiu alcançar a ambiguidade de Capitu tampouco ver o quão manipulador era o narrador, Betinho.

Naquela primeira leitura eu não desconfiava de Betinho. Somente quando adulta, durante uma releitura, vi as nuances da graciosa e perspicaz Capitu e percebi que Betinho nunca foi um narrador confiável. Ele conta a história tentando nos convencer de que é um pobre marido traído e solitário, quando, na verdade é um homem inseguro, ciumento e controlador.

A nossa bagagem literária e vivências contribuem para um novo olhar e melhor compreensão da história. Reforço o ato de reler como fundamental para a compreensão do texto literário a partir da definição de Ítalo Calvino sobre a leitura dos clássicos: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.” Portanto, reler não é perda de tempo; um livro sempre tem o que nos dizer.

Foi relendo Madame Bovary que consegui compreender melhor as inquietações e o anseio por liberdade de EMMA. Quando conheci a personagem francesa, a considerei uma mulher fútil e muito egoísta, apenas. Mas quando, por mero prazer, me encontrei com a personagem de Flaubert novamente, passei a vê-la como uma mulher que, ainda que de modo atabalhoado, correu atrás de sua felicidade, tomou as rédeas de sua vida numa sociedade patriarcal do século XIX.

Na minha lista de releituras preferidas tenho 4 clássicos brasileiros: O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, ambos de Machado de Assis, e A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Foram livros que cresceram de forma significativa com a releitura, sobretudo os livros do Bruxo do Cosme Velho. Além disso, tenho uma listinha de livros (clássicos e contemporâneos) que quero reler em breve: O Primo Basílio; Torto Arado, Se Deus me Chamar Não Vou; Crime e Castigo, Cem Anos de Solidão, Caderno Proibido, Meu Pé de Laranja Lima e muitos outros. E você, caro leitor, qual livro quer reler?

Da mesma forma, há livros que jamais queremos reler. Por livre e espontânea vontade jamais penso em reler A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector; quando penso na morte daquela barata e na forma tão minuciosa com a qual a autora descreve o momento, me causa enjoo. Jamais voltaria a ler Jantar Secreto, de Rafael Montes; quando estava lendo, tive taquicardia e me assustava com qualquer barulho. Foi uma história pesada que me trouxe muitas sensações ruins, inclusive físicas. E você, leitor, qual livro não quer reler?

Por fim, me despeço ressaltando que a releitura também é uma excelente forma de sair da famigerada ressaca literária (em colunas vindouras, este tema será abordado). Ler e reler, somente ler; O importante é nunca deixar de ler! Até a próxima, dileto leitor!

* A autora é graduada em Letras pela UFPA; bacharela em Direito pela Unifesspa e leitora voraz, por amor e vocação.

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.