📅 Publicado em 14/01/2026 10h43
A Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) iniciou nesta terça-feira (13) e continua nesta quarta (14), o Seminário de Socialização da Ação Saberes Indígenas na Escola. O evento é organizado pelo Núcleo Saberes Indígenas na Escola, pelo Laboratório de Línguas, Literaturas e Culturas Indígenas Aryon Rodrigues (LALLIAR) e pelo LAMAZON, com apoio do Programa de Pós-Graduação Acadêmico em Letras (POSLET), da Reitoria da Unifesspa e de prefeituras parceiras.
O seminário tem como objetivo fortalecer a educação escolar indígena, além de socializar materiais didáticos voltados à alfabetização e ao ensino de línguas indígenas como primeira (L1) e segunda língua (L2). O encontro discute, principalmente, as ações de formação de professores indígenas desenvolvidas entre 2024 e 2025, buscando qualificar o trabalho docente e reafirmar o compromisso com a valorização dos saberes tradicionais e do multilinguismo nos territórios indígenas.
De acordo com o coordenador do LALLIAR, Prof. Dr. Lucivaldo Silva da Costa, a relevância do projeto está na formação continuada dos professores indígenas e no fortalecimento das línguas e culturas, especialmente por meio da produção de materiais didáticos. “Esse trabalho também é direcionado ao ensino das línguas indígenas em duas perspectivas: a produção de material para o ensino da língua como primeira língua, para os povos que ainda falam sua língua materna, e como segunda língua, para aqueles povos que, infelizmente, perderam sua língua materna e hoje falam o português como primeira língua”.
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As atividades envolvem professores indígenas de diversos povos do sul e sudeste do Pará, entre eles Xikrin do Cateté, de Parauapebas; Caiapó, de Cumaru do Norte, Ourilândia do Norte e São Félix do Xingu; Parakanã de Itupiranga e Novo Repartimento, além dos Gavião Akrãtikatêjê, Kykatejê e Parkatêjê de Bom Jesus do Tocantins e dos Suruí Aikewara de São Geraldo do Araguaia. “Nós realizamos idas às aldeias, onde fazemos a formação dos professores, coletamos textos e desenvolvemos atividades voltadas à elaboração do material didático-pedagógico”, explica Lucivaldo.
O seminário reúne representantes da Reitoria da Unifesspa, das Secretarias Municipais de Educação (SEMEDs) e da coordenação do Projeto Saberes Indígenas na Escola (ASIE). Na manhã de terça-feira, foi realizada a palestra “Educação Escolar Indígena, Formação de Professores e Multilinguismo”, ministrada pela professora doutora Marília Fernanda Pereira Leite, da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), seguida de debate.
Em entrevista ao CORREIO, ela destacou que a valorização da educação básica é fundamental para o sucesso no ensino superior e na formação de professores indígenas que atuam nas próprias comunidades. “A palestra é sobre o trabalho que a gente tem desenvolvido ao longo das últimas duas décadas, que tem mostrado a importância de a gente entender que sem a valorização da educação básica, não tem como a gente ter sucesso no ensino superior e na formação de professores indígenas, professores que vão atuar nessas escolas”, explana Marília.

O professor Bekroiti Xikrin, da Terra Indígena Xikrin do Cateté, em Parauapebas, pontua a importância do projeto para o fortalecimento do letramento indígena a partir da própria comunidade. Representando a Secretaria de Educação do município, ele relata que a iniciativa representa uma política de formação específica que garante o direito de alfabetizar crianças e jovens na língua materna. Bekroiti explicou ainda que parte do material didático em construção ainda não foi finalizada, devido a entraves administrativos e à necessidade de diálogo com autoridades, mas a perspectiva é dar continuidade ao trabalho em parceria com os pesquisadores da universidade.

O professor Lucivaldo também chamou atenção para o contexto histórico das línguas indígenas no Brasil. De acordo com ele, em 1500 existiam cerca de 1.200 línguas no território brasileiro, número que hoje se reduziu para aproximadamente 180, resultado de mais de cinco séculos de colonização e perda cultural. Para o coordenador, a ação Saberes Indígenas na Escola é fundamental para o fortalecimento e o “avivamento” das línguas e culturas indígenas, ao mesmo tempo em que contribui para o ensino do português, necessário para a interação com a sociedade não indígena.
A programação desta quarta-feira (14) inclui uma mesa-redonda para discutir o ensino de línguas como L1 e L2, a partir das experiências desenvolvidas junto aos povos atendidos pelo projeto, abordando metodologias específicas e o contexto sociocultural de cada comunidade. O evento será encerrado com um balanço da ação Saberes Indígenas na Escola, avaliando avanços, desafios e perspectivas para a educação escolar indígena. Todas as atividades acontecem no Auditório Central do Campus II da Unifesspa, no loteamento Cidade Jardim.
