Correio de Carajás

Cabanagem, a revolução ‘esquecida’ da história do Brasil, volta às ruas de Belém aos 410 anos

Movimento popular do século 19 matou o presidente da província. Um dos mais segue pouco conhecido fora do Norte, mas é central para entender a história de Belém e volta às ruas em aula pública no aniversário da cidade.

Complexo dos Mercedários, de onde partiu a aula ao ar livre sobre a Cabanagem — Foto: Divulgação/BNDES

Belém completa 410 anos nesta segunda-feira (12) marcada por uma das revoltas mais violentas e populares da história do Brasil — ainda pouco conhecida fora do Norte do país. Em 1835, durante a Cabanagem, indígenas, negros, mestiços, ribeirinhos, pobres livres e pessoas escravizadas cruzaram rios, matas e semanas de viagem pela Amazônia para tomar o poder na capital do Grão-Pará, em reação à exclusão política, à concentração de poder e aos desmandos do governo provincial. Durante a tomada da cidade, o presidente da província foi morto.

Quase dois séculos depois, essa história voltou a ocupar o espaço público. No domingo (11), véspera do aniversário da capital, mais de mil pessoas participaram de uma aula ao ar livre sobre a Cabanagem, caminhando pelo centro histórico de Belém e passando por prédios e ruas diretamente ligados ao conflito. A atividade transformou a cidade em sala de aula e colocou a memória histórica no centro do debate.

A escolha do tema não foi comemorativa. “É uma provocação”, resume o historiador Michel Pinho, responsável pela aula. “A gente vive um ano eleitoral e precisa entender que política e luta social também fazem parte da história.”

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Com um megafone, um banco improvisado e o patrimônio histórico no lugar do quadro-negro, Michel conduz aulas públicas há anos, reunindo centenas de pessoas em roteiros que unem cidade, memória e história da Amazônia. Para ele, a Cabanagem é uma chave para compreender o Brasil de hoje. “Essa revolução revela a construção de uma exclusão social no entorno de Belém, no Acará, no Moju. Quando essa insatisfação chega à capital, ela explode contra o poder público. Isso não é só passado. Isso é processo histórico”, afirma.

O historiador destaca o caráter excepcional do movimento. “A Cabanagem é um desses momentos ímpares da nossa história, quando a população mais pobre, negra e indígena, homens e mulheres, chegou ao poder controlando a maior província do Brasil. Foi um movimento exemplar na luta por direito, dignidade e reconhecimento dessa população historicamente marginalizada”, diz. Para ele, a dimensão do conflito ainda é subestimada. “A Cabanagem foi — e continua sendo — o maior movimento social da história desse país.”

O que foi a Cabanagem

 

A Cabanagem eclodiu em 7 de janeiro de 1835, durante o período regencial do Império, quando o país vivia forte instabilidade política após a abdicação de Dom Pedro I. Em Belém, grupos armados cercaram o Palácio do Governo, tomaram o poder e depuseram — e mataram — o então presidente da província do Grão-Pará, Bernardo Lobo de Sousa.

O movimento rapidamente se expandiu e passou a controlar a capital e áreas do interior da província. Entre suas principais lideranças estavam Félix Clemente Malcher, Eduardo Angelim, os irmãos Francisco Vinagre e Antônio Vinagre, além do jornalista e clérigo Batista Campos, uma das vozes políticas mais influentes do período.

Ao contrário da imagem simplificada que costuma aparecer nos livros didáticos, a Cabanagem não foi um movimento homogêneo. Reuniu indígenas, negros, mestiços, ribeirinhos, pobres livres, pessoas escravizadas e mulheres, mas também setores da elite local insatisfeitos com a centralização do poder no Rio de Janeiro. O conflito se espalhou por rios e vilas da Amazônia, alcançando áreas que hoje fazem parte do Amazonas e do Acre.

O saldo foi devastador. Estimativas indicam que mais de 30 mil pessoas morreram, número expressivo para a população da época. O impacto foi tão profundo que a região levou décadas para se recompor demograficamente.

Desejo de participação

 

Para a historiadora Magda Ricci, a Cabanagem precisa ser entendida como uma revolução social, e não apenas como uma rebelião regional. O centro do conflito, segundo ela, era o desejo de participação política de grupos historicamente excluídos do poder.

Os cabanos se autodenominavam “patriotas”, mas esse patriotismo não estava ligado à ideia abstrata de nação defendida pelo Império. Tinha relação direta com o território, com a vida cotidiana e com o direito de participar das decisões locais. Em suas pesquisas, Ricci aponta que indígenas reivindicavam cargos públicos, como o de vereador, e buscavam integrar a administração dos municípios. Quando essas demandas foram negadas, o conflito se radicalizou.

Trata-se, segundo a historiadora, de uma luta concreta por reconhecimento político — não por cidadania republicana nos moldes modernos, mas por participação efetiva no poder local. Esse processo ajudou a formar alianças entre grupos sociais diversos e deu à Cabanagem um caráter amplo, complexo e profundamente conflituoso.

Por que o Brasil ‘esqueceu’ a Cabanagem

 

Apesar da escala, da violência e da extensão territorial, a Cabanagem permanece quase invisível no imaginário histórico nacional. Para Michel Pinho, esse apagamento não é casual. “Os livros didáticos são sudestinos. Você encontra várias páginas sobre revoltas pequenas, enquanto a Cabanagem, que foi uma das maiores do país, aparece de forma marginal”, critica.

Essa ausência, segundo ele, ajuda a manter o Norte fora da narrativa oficial do Brasil. “Isso não é só uma questão regional. É uma questão nacional. Quem decide o que vira história do Brasil?”, questiona. A invisibilidade também se reflete na cultura. “Por que não há filmes, séries, minisséries sobre a Cabanagem? Quando a gente pergunta isso, está dizendo: prestem atenção na gente.”

Ao levar centenas de pessoas às ruas na véspera do aniversário de Belém, Michel diz que a aula ao ar livre é também um gesto político. “Meus alunos não estão sentados, eles estão andando. Eu não tenho um quadro, eu tenho um prédio.” Para ele, ensinar história é provocar. “É fazer com que as pessoas vejam a cidade — e o país — de um jeito diferente.”

“No dia em que Belém celebra 410 anos, a Cabanagem reaparece não como lembrança distante, mas como interrogação aberta sobre participação, poder e memória. Quem faz parte das decisões? Quem fica de fora? E quais revoluções o Brasil escolheu celebrar — e quais preferiu esquecer”, provoca Pinho.

(Fonte:G1)