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Hemorroida: o que é, sintomas, tratamentos e diagnóstico

Entenda o que realmente causa o problema, quando tratar sem cirurgia e em quais casos o procedimento cirúrgico é a melhor solução

Hemorroidas nem sempre precisam de tratamento cirúrgico /Foto: Freepik
✏️ Atualizado em 11/01/2026 10h01

As hemorroidas fazem parte da anatomia normal do corpo. Todos nós temos pequenas almofadas de tecido e vasos sanguíneos no canal anal, responsáveis por ajudar no controle da saída de fezes e gases. Elas se tornam um problema quando inflamam, sangram, coçam, doem ou prolapsam, ou seja, quando passam a “sair para fora”.

As hemorroidas internas ficam em uma região menos sensível e, por isso, costumam sangrar mais. As externas, localizadas na pele ao redor do ânus, são muito mais sensíveis e podem causar dor intensa quando ocorre trombose, a formação de um coágulo local. Para orientar o tratamento, utiliza-se a classificação de Goligher, que vai do grau I ao IV, de acordo com o grau de prolapso.

A condição é bastante comum, especialmente entre os 40 e 60 anos. Os principais fatores de risco estão ligados aos hábitos intestinais: esforço excessivo para evacuar, fezes endurecidas, permanecer muito tempo sentado no vaso e rotina intestinal irregular, principalmente a constipação. A baixa ingestão de fibras agrava o quadro, assim como gravidez e pós-parto em muitas mulheres. Em termos práticos, a consistência das fezes e o comportamento no banheiro têm impacto direto na evolução da doença.

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Sintomas de hemorroidas

O sintoma mais frequente é o sangramento vermelho vivo durante a evacuação, visível no papel higiênico ou no vaso sanitário. Também podem ocorrer coceira, desconforto, secreção e a sensação de um “caroço” que sai e retorna. Dor intensa não é comum nas hemorroidas internas e costuma indicar trombose hemorroidária externa ou outra complicação. Vale sempre lembrar que outras doenças do intestino também podem causar sangramento, o que torna a avaliação médica indispensável.

Diagnóstico e tratamento inicial da hemorroida

O diagnóstico é feito no consultório, com conversa detalhada sobre os sintomas, exame da região anal e toque retal. A colonoscopia é indicada quando há sinais de alerta, como anemia, perda de peso ou mudança recente do hábito intestinal, quando chega a idade de rastreamento do câncer colorretal ou quando o sangramento persiste sem causa identificada no exame local.

Na maioria dos casos, o tratamento começa de forma conservadora. O chamado “pacote básico” inclui ingestão diária adequada de fibras, boa hidratação, não adiar a evacuação, evitar esforço e permanecer poucos minutos no vaso. Quando necessário, podem ser utilizados laxativos osmóticos ou amaciantes de fezes. Essas medidas reduzem sangramento, coceira e prolapsos leves e servem de base para qualquer outra etapa do tratamento.

Quando a cirurgia para hemorroida é necessária

A cirurgia é indicada principalmente nos casos de doença volumosa e prolapsada, especialmente nos graus III volumosos e IV, na presença de excesso de pele externa ou quando tratamentos realizados em consultório falham repetidamente. Nessas situações, a hemorroidectomia excisional é a opção mais duradoura.

Nesse procedimento, o tecido doente é removido e o prolapso corrigido. A ferida pode ficar aberta, pela técnica de Milligan–Morgan, ou ser fechada com pontos, na técnica de Ferguson. A principal diferença entre elas está na dor dos primeiros dias, não no resultado final. Em comparação à cirurgia grampeada, que apenas reposiciona a mucosa, a técnica excisional apresenta menor taxa de recidiva a longo prazo, embora costume causar mais desconforto no pós-operatório imediato.

Quanto às ferramentas de corte, todas funcionam bem quando utilizadas por cirurgiões experientes. A escolha influencia mais o conforto no início da recuperação e o tempo de cirurgia do que o resultado duradouro. Lâmina fria, bisturi elétrico, seladores vasculares, ultrassônico e laser apresentam eficácia semelhante, com pequenas diferenças na dor inicial, sangramento e velocidade de retorno às atividades. No caso da hemorroidoplastia a laser, em que não se remove a almofada hemorroidária, a recuperação tende a ser mais rápida, embora a taxa de recidiva dependa do protocolo adotado.

Recuperação, recidiva e expectativas

Quando ocorre trombose hemorroidária externa, a dor costuma ser súbita e intensa. Se o atendimento acontecer nas primeiras 48 a 72 horas, a retirada do coágulo com anestesia local traz alívio mais rápido e pode prolongar o intervalo até uma nova crise. Após esse período, muitos casos evoluem bem apenas com tratamento conservador.

No pós-operatório, protocolos de Recuperação Otimizada tornam o processo mais confortável, com uso programado de analgésicos, laxativos desde o primeiro dia, ingestão adequada de fibras e líquidos, banhos de assento e estímulo à mobilização precoce. Essas medidas reduzem dor, náusea e tempo de internação.

Procedimentos realizados em consultório têm maior chance de recidiva e podem exigir novas sessões. Já a hemorroidectomia excisional, quando bem indicada, costuma oferecer controle mais duradouro.

No fim das contas, nada substitui o básico: fezes macias, evitar esforço e não passar longos períodos no vaso sanitário. Para muitos pacientes, isso já é suficiente. Para os demais, existe um caminho seguro e progressivo — do consultório ao centro cirúrgico — capaz de devolver conforto e qualidade de vida, com expectativas realistas.

Conteúdo educativo; não substitui consulta. Sangramento persistente, anemia, dor intensa, febre, perda de peso ou mudança recente do hábito intestinal exigem avaliação médica.

*Texto escrito pelo cirurgião do aparelho digestivo Antonio Couceiro Lopes (CRM/SP 100.656 | RQE 26013), membro da Brazil Health

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(Fonte: CNN Brasil)