Correio de Carajás

Da roça do Ceará ao curso de medicina em Marabá: o sonho de Charleswander

“Eu vim com a mochila e o sonho”: conheça a jornada do jovem que deixou tudo no Ceará, chegou há Marabá há uma semana e precisa de ajuda

Charleswander deixou a família no interior do Ceará em busca do maior objetivo: cursar medicina/ Fotos: Evangelista Rocha
Por: Milla Andrade
✏️ Atualizado em 30/08/2025 18h21

Até onde você iria por um sonho? Charleswander da Silva, de 22 anos, percorreu cerca de 1.498 quilômetros, de Penaforte, no interior do Ceará, até Marabá, no sudeste do Pará, em busca do seu. A viagem de ônibus levou 24 horas. Na estrada, ele carregou apenas uma mochila recheada de um objetivo: cursar medicina. Para trás, deixou uma vida de trabalho na roça e o estigma de que “filho de pobre não consegue”.

Estudante dedicado, de postura responsável e olhar firme, Charles conta que foram três anos de preparação até alcançar o objetivo. O sonho, enfim, começou a se concretizar, mas trouxe também inúmeras dificuldades. Filho de agricultores, chegou à cidade há apenas oito dias, depois de ser aprovado no Programa Universidade para Todos (Prouni), com bolsa integral na Afya: Faculdade de Ciências Médicas, antiga Facimpa.

O valor da mensalidade é de R$ 10.500,00, fora os custos de estadia, alimentação e transporte. Desde que chegou, Charleswander tem consciência da responsabilidade de ser o único da família a conquistar o ensino superior. Mais que isso, sabe do desafio de sobreviver em uma cidade estranha, sem conhecidos. Os recursos são poucos, mas ele acredita que tudo valerá a pena.

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Em entrevista ao Correio, ele conta que a notícia da aprovação veio de forma inesperada. Depois de várias tentativas, quase não acreditou quando abriu o celular e viu seu nome entre os aprovados.

A conquista, segundo ele, é fruto de anos de tentativas e persistência. “Sempre tive o apoio da minha mãe, ela trabalhava para eu realizar esse sonho”.

O SONHO DE INFÂNCIA

Charles relembra, como quem revive algo único, o momento em que surgiu a vontade de ser médico. Segundo ele, o desejo nasceu aos 5 anos de idade. “A princípio tinha o sonho de ser médico veterinário, porque ajudava a cuidar dos animais feridos. Mas quando comecei a estudar a anatomia do corpo humano, minha mentalidade mudou. Eu queria ser médico”, explica.

Com a voz calma, ele revela que a família esteve presente em toda a trajetória. “Tenho três irmãos, pais agricultores, mas os dois são separados. Foi um momento difícil, porque eu tive que mudar de ambiente e passei a morar só com minha mãe”, desabafa.

Em plena pandemia, em 2020, concluiu o ensino médio. Sem computador, estudava pelo celular. “Usava um celular para estudar. Faltando 5 meses para a prova ele quebrou, então fiquei impossibilitado de estudar para o Enem”. Sem nota suficiente para ingressar em medicina naquele ano, voltou ao campo. “Em 2021, eu fui para a roça, trabalhar para comprar um celular. Parcelado, boleto, tudo. No final de 2021, faltando dois meses para o Enem, eu decidi retornar os estudos. Mas ainda não deu para passar”, lembra.

Para Charles, a virada veio em 2022. “Eu iniciei a luta. Consegui uma bolsa de estudo em um cursinho em Juazeiro do Norte, com apoio de um conhecido. Foi crucial naquele início. Minha nota subiu, mas ainda não dava para entrar em medicina. Mesmo assim, eu vi que se continuasse ia conseguir”, afirma.

PERSEVERANÇA E APOIO DA MÃE

Em 2023, Charles intensificou os estudos em casa. Sem condições de pagar transporte diário para o cursinho, iniciou sozinho uma jornada pessoal rumo ao futuro. Ele conta que, nesse período, a mãe decidiu trabalhar em Petrolina, em Pernambuco para ajudá-lo. “Ela tem problema de coluna, fibromialgia, hérnia de disco e outros problemas. Só consegue trabalhar quando está sob medicação. Mas o pouco que ela ganhava era para meu estudo. Ela nunca desistiu de mim”.

E para custear os materiais, ele também precisou trabalhar. “Tive que quebrar pedras de calçamento para conseguir comprar material. Chegava em casa com a mão calejada, cansado, mas ia estudar”, relembra, com os olhos marejados.

Mesmo em meio a tantas dificuldades, persistiu. A persistência, no entanto, foi testada quando familiares começaram a duvidar. “Muitas pessoas me desmotivaram, algumas da minha família, dizendo que eu não ia conseguir, que medicina era fora da minha realidade. Até meu próprio pai falava que filho de pobre não consegue, que eu tinha que me acomodar e trabalhar na roça. Mas eu não dei ouvido”.

A LUZ EM MEIO À ESCURIDÃO

Em 2024, sem forças para continuar, quase desistiu. Alugou uma casa para trabalhar e abandonar o sonho. Esqueceu por um momento os dias de estudo e tudo o que havia feito. “Eu pensei: Não, eu não vou passar mesmo. E quando eu abri o sistema, eu tinha passado. Eu liguei para minha mãe e falei: Mãe, eu passei em medicina com bolsa 100%. Ela chorou de alegria. Até hoje a ficha não caiu”.

Sem recursos para viajar até Marabá, o jovem contou com a mobilização da cidade natal. “Famílias, professores da escola, irmãos da igreja, todo mundo ajudou. Meu psiquiatra doou um carneiro para eu rifar e conseguir dinheiro. A rifa, junto com as doações, permitiu que eu chegasse aqui”, relata.

O jovem cearense vive hoje o que muitos diziam ser impossível no passado

VIVENDO UM SONHO

Charles desembarcou em Marabá, – literalmente com “uma mochila e um sonho”, como ele mesmo diz. E aqui foi acolhido pela faculdade e pelos colegas. “Mandei mensagem no grupo perguntando se alguém podia dividir o apartamento, quitinete, qualquer coisa. Uma pessoa me respondeu e eu moro com ela hoje”, conta. Atualmente, ele divide uma quitinete com outro colega na Folha 27, na Nova Marabá.

E na nova cidade, encontrou uma família. “A faculdade e meus colegas de turma me acolheram. Hoje estou aqui e feliz. Sinto que não estou só nessa jornada, me sinto em casa”.

E foram os colegas que organizaram uma vaquinha para arrecadar recursos e ajudar na permanência dele na cidade. O jovem precisa de apoio financeiro, pois a família é humilde e, em Marabá, ainda não conseguiu emprego por estudar em tempo integral. Doações podem ser feitas pelo link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-charles-a-realizar-seu-sonho?utm_campaign=share-sharemodal&utm_content=5701493&utm_medium=share-bottom-link&utm_source=socialshares-app-share.

Para ele, a própria trajetória é a prova de que “vale tudo por um sonho”, e mesmo diante das dificuldades, é preciso manter a convicção de que vale a pena lutar. “Eu sou a prova viva disso”.

Com brilho nos olhos, o estudante finaliza dizendo que fará a diferença e será o primeiro médico da família, com a certeza que a medicina será não apenas a realização de um sonho, mas também a resposta de uma vida inteira de luta.