O delegado da Polícia Federal Valdecy Urquiza, de 43 anos, foi confirmado no começo desta terça-feira (5) como o novo secretário-geral da Interpol. É o primeiro brasileiro a chegar ao cargo mais alto da maior organização policial do mundo.
O nome de Urquiza foi chancelado pelos países-membros da organização na 92ª Assembleia Geral da Interpol, que está sendo realizada em Glasgow, no Reino Unido. Ele havia sido indicado em junho pelo comitê executivo da entidade.
📅 Urquiza assume o comando no final desta semana, quando termina a Assembleia Geral. O mandato é de cinco anos, podendo ser renovado por mais cinco. Ele irá se mudar com a família para Lyon, na França, onde fica a sede da instituição.
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Em agosto, em entrevista ao g1, o delegado contou quais serão suas prioridades a frente da organização. Ele disse que terá como foco combater, em escala global, o abuso infantil on-line e levar, aos países em desenvolvimento, novas tecnologias de combate ao crime. “Um dos temas que mais tem se destacado é justamente a exploração sexual de crianças através da internet. E isso exige uma resposta global”, afirmou.
Além disso, ele acredita que a experiência da PF o levará a melhorar a eficiência da gestão da organização.
“A Polícia Federal consegue alcançar muito com poucos recursos. É um nível de eficiência acima da média, e o comprometimento dos profissionais também é bem acima da média.”
Nascido em São Luís, no Maranhão, e filho de um bacharel em direito, Urquiza graduou-se no mesmo curso em Fortaleza e ingressou na PF em 2004 por concurso. Em 2007, de volta a São Luís, iniciou as atividades na corporação à frente da delegacia de crimes ambientais.
O interesse pela carreira dedicada à cooperação internacional surgiu quando Urquiza se deparou com crimes que envolviam a atuação de criminosos em vários países, como fraudes cibernéticas e lavagem de dinheiro.
Em 2015, o delegado assumiu o escritório nacional da Interpol no Brasil, em Brasília. Três anos depois, transferiu-se para a sede da organização na França, onde atuou como diretor-adjunto para comunidades vulneráveis e diretor de combate ao crime organizado na Secretaria-geral. Ao retornar ao Brasil, em 2021, voltou a trabalhar com cooperação internacional na PF e foi eleito vice-presidente das Américas do Comitê Executivo da Interpol.
“E essa candidatura que ocorreu em seguida [para secretário-geral] foi uma decorrência natural desse processo”, afirmou Urquiza, em entrevista por videochamada ao g1 em agosto.
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Interpol foi criada para evitar fuga de criminosos por carro, trem e avião
Em abril de 1914, advogados e policiais de 24 países se reuniram em Mônaco, na Europa, a convite do príncipe Alberto I. O grupo estava preocupado com criminosos que se aproveitavam do progresso dos carros e da aviação para fugir do país e escapar da Justiça. Surgiu, ali, uma ideia que acabou sendo adiada por causa da 1ª Guerra Mundial e se concretizou nove anos mais tarde: a criação da Organização Internacional de Polícia Criminal, a Interpol.
▶️ O desenvolvimento dos transportes naquele início de século 20 intensificou não só transporte de pessoas, mas também de mercadorias – o que, naturalmente, ampliou as oportunidades para a ocorrência de delitos.
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📍Em setembro de 1923, desta vez em Viena, na Áustria, a instituição de fato foi criada, com o nome de Comissão Internacional de Polícia Criminal (CPIC).
✅ Em 1956, a entidade aprovou um novo estatuto e foi rebatizada como Organização Internacional de Polícia Criminal (OIPC-Interpol), nome que leva até hoje.
📈 Desde a criação da Interpol, o número de membros cresceu significativamente. Dos 20 fundadores em 1923, a organização passou a ter 50 países membros em 1955, 100 em 1967, 150 em 1989 e, em 2023, alcançou 196 países-membros.
Com Urquiza, o Brasil chegará pela primeira vez ao cargo mais alto da instituição, mas a relação com a organização de cooperação mundial tem mais de 70 anos: o país é membro desde 1953, quando o ingresso foi aprovado na Assembleia Geral de Oslo, na Noruega.
⛔ No entanto, durante a Ditadura Militar, por volta de 1980, o Brasil se retirou da organização, retornando em 1986, no contexto da redemocratização.
Muito além do ‘alerta vermelho’
🔴Quando se ouve falar da maior organização policial do mundo, uma das primeiras associações que vêm à mente são as notificações internacionais emitidas para localizar e prender pessoas procuradas ao redor do planeta – o alerta vermelho.
📋 Além da “difusão vermelha” (o termo técnico e oficial), a Interpol conta, por exemplo, com a difusão amarela, para pessoas desaparecidas, e a negra, para informações sobre cadáveres não identificados.
Conheça todas as difusões e suas finalidades:
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Íntegra do discurso
Excelências,
Senhor Presidente, Senhor Secretário-Geral, distintos membros do Comitê Executivo, Honoráveis Ministros, Chefes de Polícia, Chefes dos NCBs, meus estimados colegas,
Antes de começarmos, quero agradecer aos nossos anfitriões, o Reino Unido, por nos receberem com tanta cordialidade e generosidade. Este belo local e a hospitalidade estendida a cada um de nós refletem não apenas sua gentileza, mas também seu firme compromisso com a missão e os valores da INTERPOL.
Também quero aproveitar este momento para reconhecer e expressar minha gratidão ao Secretário-Geral Jürgen Stock. Sob sua liderança, a INTERPOL enfrentou e superou alguns dos desafios mais complexos da história recente. A dedicação, visão e integridade do Secretário-Geral Stock fortaleceram a organização, deixando um legado duradouro que nos guiará adiante.
Senhoras e Senhores,
Estou profundamente honrado em estar diante de vocês hoje. Ao olhar para esta reunião, sou lembrado do papel vital que a INTERPOL desempenha em nosso mundo.
Nosso trabalho compartilhado, nossa unidade de propósito—isso importa. As ameaças que enfrentamos não estão contidas dentro de fronteiras; elas se estendem por continentes e evoluem constantemente. O crime transnacional tornou-se mais sofisticado, mais complexo, mais evasivo. E, em resposta, a INTERPOL também precisa se adaptar, tornando-se mais ágil, mais inovadora, mais inclusiva.
Ao refletir sobre meus anos de serviço na Polícia Federal Brasileira e meu compromisso de uma década com a INTERPOL, estou cheio de um profundo senso de propósito e uma visão clara para o futuro desta organização vital. Servir ao lado de alguns dos profissionais de aplicação da lei mais dedicados do mundo no Secretariado Geral e no Comitê Executivo tem sido uma experiência humilde e reforçou meu compromisso com os valores que a INTERPOL representa.
Com esse senso de dever e propósito, estou diante de vocês com uma visão para a INTERPOL—uma que seja diversa, transparente, neutra e pronta para o futuro. Se tiver a honra de servir como próximo Secretário-Geral da INTERPOL, estou comprometido com uma visão que aumente nossa eficácia, impulsione a inovação e construa capacidade em nossos Países Membros.
Primeiro, no mundo de hoje, a tecnologia não é um luxo—é uma necessidade. Para acompanhar as ameaças que enfrentamos, a INTERPOL deve ser proativa, integrando novas tecnologias que avancem nossa missão. Inteligência artificial, big data, análises preditivas—essas ferramentas não são apenas palavras da moda; são essenciais para tornar nosso trabalho mais eficaz. Precisamos fornecer às forças policiais em todo o mundo os recursos, as estruturas e o suporte para gerenciar e analisar dados, compartilhar informações rapidamente e se manter à frente das tendências criminosas.
Segundo, para ser eficaz, a aplicação da lei precisa ser inclusiva. A INTERPOL tem a obrigação de representar todas as vozes, de todos os cantos do mundo. Devemos promover a diversidade, empoderar vozes sub-representadas e trazer todos os Países Membros para a mesa.
Uma INTERPOL forte é aquela que inclui todos. Quando respeitamos e elevamos perspectivas diversas, obtemos uma abordagem mais clara e abrangente para a segurança global. E juntos, estaremos melhor preparados para enfrentar os desafios de hoje de frente.
Terceiro, para que a INTERPOL prospere, ela deve se manter nos mais altos padrões de integridade e responsabilidade. A transparência constrói confiança, e a confiança constrói força. Precisamos de sistemas robustos para garantir que os canais da INTERPOL nunca sejam mal utilizados, que nossas ações reflitam nossos valores e que protegemos nossos dados com vigilância. Ao reforçar nosso compromisso com a transparência e a segurança dos dados, salvaguardamos a integridade e a credibilidade da INTERPOL. Somos responsáveis perante nossos Países Membros e nossas comunidades, e devemos agir de maneiras que reflitam essa responsabilidade.
Senhoras e Senhores, Caros colegas,
O caminho à frente é desafiador, mas também está cheio de um tremendo potencial. Enquanto olhamos para o futuro e a tarefa de nomear nosso próximo Secretário-Geral, estou diante de vocês pronto para servir, pronto para liderar e pronto para construir uma INTERPOL mais forte.
Se eu tiver a honra de contar com sua confiança para liderar esta organização, serei um Secretário-Geral para todos—africanos, americanos, árabes, asiáticos e europeus. Para cada um de nossos países membros. Porque, no final das contas, estamos nisso juntos, unidos como um só, e é através de nossa unidade que encontramos nossa força.
Meu compromisso é moldar uma INTERPOL que não apenas atenda às demandas de hoje, mas que antecipe e se prepare para os desafios de amanhã.
Obrigado, merci, gracias, shukram.
(Fonte:G1)

