Correio de Carajás

9 sinais de que seu amigo é tóxico e como se distanciar sem confrontá-lo

Estudos mostram que a maioria dos rompimentos entre amigos não ocorre devido a grandes conflitos, como em um romance, mas como uma dissolução gradual

Duas jovens se abraçando com fundo de grafite colorido.
Como reconhecer que uma amizade pode ser tóxica? — Foto: Freepik
✏️ Atualizado em 20/02/2026 16h02

Morar em lugares diferentes nunca tinha sido um problema antes. Nem namorar o mesmo cara, esquecer os aniversários uma da outra ou divergir em questões políticas e religiosas. Então, quando estavam na mesma cidade, Carmen descobriu pelas redes sociais que Julieta tinha organizado um jantar de Ano Novo, E, consciente ou inconscientemente, não a tinha convidado.

Carmen foi tomada por um profundo desconforto, um golpe baixo entre perplexidade e decepção. A mesma pessoa com quem conversava quase diariamente há anos, com quem compartilhava gostos, risos, crises, explosões, todo tipo de pensamento a qualquer momento, planos de curto, médio e longo prazo, sonhos, entre tantas outras coisas compartilhadas em uma amizade, parecia não ter o menor interesse em vê-la. Não foi a falta de explicação que mais doeu, mas o fato de não haver mais nada a explicar: a amizade havia acabado.

O fim de uma amizade nem sempre tem o drama de um romance. Na verdade, muitas vezes não envolve lágrimas, discussões ou brigas. Em vez disso, se desenrola por meio de um distanciamento gradual e silencioso que, eventualmente, deixa de ser temporário e se torna a norma, eliminando qualquer possibilidade de reconciliação. Em resumo: falta um desfecho. A dor que ocorre implícita ou explicitamente com o fim de uma amizade — porque é inevitável — pode ser ainda mais intensa, marcante e difícil de superar do que a de qualquer relacionamento amoroso.

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— É uma dor particularmente profunda porque as amizades são construídas sobre uma intimidade escolhida, espontânea e não regulamentada Isso as torna autênticas, mas também propensas à confusão e ao vazio quando terminam — diz a psicóloga clínica e especialista em transtornos de personalidade e do desenvolvimento Macarena Gavric Berrios.

Em uma amizade significativa, explica a especialista, compartilhamos detalhes do cotidiano, transições de vida, atividades de lazer e partes da nossa identidade que nem sempre emergem em outros relacionamentos.

— A amizade é, em muitos casos, um refúgio emocional que acompanha nossa história pessoal por longos períodos. Portanto, perdê-la não significa apenas deixar de ver alguém, mas também perder um aliado privilegiado em nossa própria narrativa — afirma.

Além disso, culturalmente, as amizades são associadas a uma certa estabilidade incondicional: “Amigos são os irmãos que a vida me deu” ou “amigos verdadeiros estão sempre presentes, aconteça o que acontecer” são apenas algumas das frases que refletem a crença — e a expectativa — de que a amizade é um vínculo que deve ser mantido sem dúvidas ou altos e baixos, indefinidamente ao longo do tempo.

— Muitas pessoas vivenciam as amizades com uma expectativa de permanência maior do que em um relacionamento amoroso. Enquanto os relacionamentos amorosos são reconhecidos como potencialmente instáveis ​​e suscetíveis a términos, a amizade é idealizada como um afeto seguro e duradouro. Portanto, quando o relacionamento entra em crise ou desaparece, o impacto emocional pode ser inesperado e muito desorientador, porque o que era considerado sólido e estável de repente se torna frágil e finito — diz a psicóloga.

Um duelo sem legitimidade

 

Historicamente, o amor romântico tem sido priorizado em relação ao amor de um amigo. O cinema é testemunha disso: para cada mil filmes que abordam o tema do desgosto amoroso, deve haver um que explore em profundidade o que acontece após o rompimento de uma amizade.

Cynthia Zaiatz, neuropsicóloga e chefe do departamento de saúde mental do Sanatório Modelo de Caseros, sugere que isso se deve em grande parte ao fato de um relacionamento amoroso trazer consigo a possibilidade de construir uma família (embora muitos casais já não busquem esse objetivo), enquanto a amizade não se caracteriza por um projeto de vida compartilhado.

— Muitas pessoas priorizam o relacionamento amoroso, deixando as amizades em segundo plano, por medo da solidão — observa Zaiatz.

Enquanto o término de um relacionamento amoroso segue um roteiro social — terapia de casal, infidelidade, separação, divórcio, luto, “ex”, entre outros rótulos que nomeiam o processo de fim de uma relação —, nas amizades não existem cláusulas, regras ou manuais para organizar a experiência emocional do fim de um vínculo. E, portanto, também não está claro o que é apropriado e o que não é.

Em um artigo publicado no PubMed, Grace Vieth, pesquisadora da Universidade de Minnesota, comenta sobre isso: “Muitas pessoas estão dispostas a resolver conflitos em um relacionamento amoroso, mas não em uma amizade”.

— A cultura prioriza o amor romântico como o vínculo central, concebendo a amizade como um extra opcional. Ao contrário do amor romântico, quando uma amizade termina não há conversas formais, nem frases feitas, nem luto reconhecido. Não há ritual nem linguagem. As pessoas não sabem como falar sobre isso, nem como processar emocionalmente a situação. Portanto, a perda de amizades permanece invisível, sem narrativa ou legitimidade social — argumenta María Gimena Nasimbera, psicóloga clínica especializada em medicina do estresse.

5 instâncias

 

Do ponto de vista psicológico, o processo de luto pela perda de uma amizade é muito semelhante ao luto pela perda de um relacionamento amoroso. Consiste em cinco estágios, nem sempre é linear e “pode ser reativado por memórias ou mudanças na vida”, explica Gavric Berrios.

  1. Choque e perplexidade. Ao perceber que a amizade terminou.
  2. Negação ou idealização do passado. Frases como “foi um mal-entendido” são típicas, afirma Nasimbera.
  3. Uma profunda tristeza. “Nostalgia e um vazio por aquela pessoa que já não está mais aqui”, diz Nasimbera. “Às vezes, também, um apego ansioso”, acrescenta Gavric Berrios.
  4. Raiva. Conclusões com conotações negativas sobre o comportamento da outra pessoa. “Ele não agiu como um amigo”, por exemplo são características dessa fase”, alerta Nasimbera.
  5. Reorganização e aceitação. “Há uma revisão da própria identidade após a perda de um apoio relacional, e novos significados emergem. A experiência é integrada como parte da história pessoal”, conclui Gavric Berrios.

 

Os motivos mais comuns

 

Ao analisar o fim de uma amizade, estudos em psicologia dos relacionamentos mostram que a maioria dos rompimentos não ocorre devido a grandes conflitos, sendo mais comum uma dissolução gradual. Nesse sentido, especialistas concordam que os motivos mais frequentes estão relacionados à passagem do tempo, mudanças e desequilíbrios no esforço investido na manutenção da relação, detalhando alguns deles a seguir:

  • Mudanças em valores, interesses ou estilos de vida. “Transições como relacionamentos, parentalidade, empregos ou mudanças de residência modificam ritmos, prioridades e a forma como a energia emocional é distribuída. Elas não implicam necessariamente negligência, mas sim reconfigurações de identidade que tornam certas formas anteriores de conexão incompatíveis; às vezes, a amizade não consegue se adaptar à nova estrutura”, afirma Gavric Berrios.
  • Dinâmicas prejudiciais. “Relacionamentos marcados por dependência, manipulação ou falta de reciprocidade não são sustentáveis”, afirma Zaiatz, enfatizando o último ponto: “Quando uma pessoa dá mais do que recebe — em termos de escuta, disponibilidade, cuidado ou esforço — o vínculo se desgasta.”
  • Competitividade, ciúme ou comparação constante. “Quando o relacionamento se torna um espaço de rivalidade em vez de apoio, o bem-estar emocional sofre”, afirma Gavric Berrios, explicando que fica difícil acompanhar a outra pessoa em suas mudanças. “Às vezes, a evolução e o crescimento não são tolerados, gerando ressentimento ou afastamento.”
  • Conflitos específicos. “Traições, enganos, brigas irreconciliáveis ​​ou falta de apoio em momentos cruciais podem acabar abruptamente com uma amizade, sem volta”, explica Zaiatz.
  • Confiança abalada. “Mentiras, deslealdade, triangulações… a confiança é a base da amizade e, uma vez abalada, é difícil de recuperar”, argumenta Gavric Berrios.
  • Comunicação evasiva. “O acúmulo de tensões não resolvidas cria distanciamento emocional e, com o tempo, indiferença ou hostilidade”, observa Gavric Berrios. “Se uma das partes confronta e a outra evita, ou se uma se expressa intensamente e a outra se fecha, a resolução torna-se impossível.”
  • Microagressões. Formas sutis e repetidas de invalidação, desconsideração ou manipulação que geram um desgaste cumulativo até atingir um ponto de saturação. “Comentários ofensivos, piadas passivo-agressivas, minimizar problemas, críticas disfarçadas de conselhos”, exemplifica Nasimbera. “Elas são especialmente prejudiciais porque, como não são reconhecidas como agressão, a pessoa leva muito tempo para estabelecer limites”, alerta Gavric Berrios.
  • Expectativas incompatíveis. Quando uma das partes espera mais proximidade, resposta ou atenção do que a outra, isso gera frustração e distanciamento, explica Gavric Berrios, além de saturação, sensação de invasão e até ressentimento.
  • O fim dos ciclos. “É o mais difícil de aceitar”, diz Nasimbera. “Muitas amizades não aceitam que o ciclo da amizade terminou. É difícil entender que seguir caminhos diferentes não significa que estejam brigando ou se dando mal, simplesmente se distanciam.”

 

Como curar

 

Embora seja difícil de aceitar, o fim de uma amizade muitas vezes não acontece de forma compartilhada e, consequentemente, o processo de luto é completamente unilateral. Referindo-se a estudos que mostram que a repressão emocional pode levar ao isolamento, angústia e fadiga, Zaiatz enfatiza que “é importante reconhecer nossa perda e validar nossos sentimentos”.

— O encerramento pode ser interno, pessoal e intrínseco, sem contato com a outra pessoa, um processo de desapego e libertação. Isso implica uma grande dose de aceitação, em relação ao fato de que não seremos capazes de saber ou compreender tudo — afirma Gavric Berrios.

Dependendo do tipo de relacionamento, do nível de conflito e da disponibilidade emocional de ambas as partes, uma conversa final pode ser apropriada.

— Conversar é útil quando há possibilidade de escuta mútua, quando o término foi confuso e quando ambas as partes buscam clareza sobre o que aconteceu para alcançar paz de espírito e cura emocional. Não é aconselhável quando a dinâmica é desigual, manipuladora ou violenta. Também não é recomendado quando a outra pessoa se recusa a admitir sua parcela de responsabilidade na situação. Nesses casos, a conversa só seria dolorosa, sem possibilidade de resolução — diz a psicóloga.

Zaiatz e Nasimbera listam uma série de 10 recursos emocionais para superar o vazio que surge com o fim de uma amizade:

  1. Nomeie e reconheça a dor sem minimizá-la.
  2. Escrever cartas (não necessariamente enviá-las) é uma forma de processar emoções.
  3. Reavalie seus próprios limites e padrões de relacionamento.
  4. Redefina suas redes de apoio. Cerque-se de outras pessoas que realmente oferecem o suporte necessário.
  5. Evite idealizar e tenha uma visão equilibrada do relacionamento.
  6. Reorganize as rotinas para reconstruir o significado e o sentimento de pertencimento.
  7. Pratique o autocuidado concreto: descanso, movimento, espaços para desfrutar do momento.
  8. Concentre-se em atividades que reconstruam a identidade.
  9. Antes de desistir, pense se esse relacionamento ainda pode ser salvo ou se é melhor seguir em frente.
  10. Aceitar que a nostalgia não implica querer voltar ao passado.

 

Existe alguma forma de voltar atrás?

 

Ao discutirem possíveis reencontros, as psicólogas consultadas têm suas reservas.

— É possível, mas várias condições precisam ser atendidas — afirma Gavric Berrios.

A primeira coisa que deve existir, explica ela, é o reconhecimento explícito dos danos ou erros cometidos por ambas as partes, acompanhado de uma disponibilidade emocional genuína que vá além de um desejo nostálgico de retornar ao passado (ou ao relacionamento anterior).

— É essencial ter conversas honestas sobre limites, necessidades e expectativas, bem como mudanças comportamentais consistentes e sustentadas que demonstrem comprometimento e responsabilidade emocional de ambas as partes — diz a psicóloga.

Por outro lado, Gavric Berrios fala sobre a necessidade de respeitar o ritmo de cada pessoa, entendendo que a reconstrução não pode ser apressada ou forçada.

— Isso também implica aceitar uma possível renegociação do tipo de vínculo, já que a amizade raramente recupera exatamente a mesma forma e, muitas vezes, é reconstruída a partir de um lugar diferente, mais consciente e equilibrado — diz.

— A reconciliação não se trata de voltar a como as coisas eram; trata-se de criar algo novo sobre bases diferentes. Requer autocrítica, responsabilidade emocional, limites claros, mudanças reais, diálogo honesto sem recriminações defensivas e, finalmente, um plano de relacionamento mais equilibrado — afirma Nasimbera.

A psicanalista, que vê a amizade como um dos aspectos mais sutis e misteriosos da vida humana, compartilha uma reflexão final:

— A amizade é uma arena privilegiada onde revelamos nossas formas de conexão — nossos padrões de apego, como pedimos apoio, nossa capacidade de intimidade e como estabelecemos limites — e moldamos nossa identidade. As amizades revelam claramente tanto nossas forças quanto nossas fraquezas — diz.

E acrescenta que a amizade autêntica é um espaço onde a outra pessoa não vem para nos completar, mas para nos acompanhar em nossa própria jornada.

— É o vínculo que mais se aproxima do amor incondicional: escolhemos nutri-lo todos os dias, sem obrigações externas que o ditem. Em uma amizade saudável, ambas as pessoas podem se mostrar sem máscaras, com a vulnerabilidade de quem sabe que é aceito e a liberdade de quem não precisa representar um papel — diz.

Em última análise, a psicóloga acredita que se trata de uma prática de presença consciente. Uma ponte entre dois mundos interiores que, quando se encontram honestamente, enriquecem e amplificam um ao outro. É um lembrete silencioso de que a vida se torna mais humana quando a compartilhamos e mais profunda quando nos encorajamos mutuamente a nos conectar de forma autêntica.

(Fonte : O Globo/Por Sol Valls)