Correio de Carajás

42 castanheiras guardam vestígios da história da PA-70

Árvores encontradas entre Marabá e Dom Eliseu reforçam relatos sobre o transporte de castanha-do-pará pela antiga PA-70, a partir da década de 1970; quase todas estão no lado direito da rodovia

Árvore frondosa solitária na beira de uma estrada asfaltada sob céu azul
Castanheiras do lado direito da rodovia seriam prova de que castanhas caíram dos caminhões e germinaram à beira da pista
✏️ Atualizado em 26/10/2026 15h14

Elas estão ali, solitárias, espalhadas ao longo de uma das rodovias mais importantes do sudeste do Pará. Algumas passam quase despercebidas por quem dirige em alta velocidade, enquanto outras se destacam na paisagem empobrecida pela retirada da vegetação nativa e substituída pelo plantio de soja.

São 42 castanheiras, contadas uma a uma entre Marabá e Dom Eliseu, numa extensão de aproximadamente 220 quilômetros da BR-222. Mais do que árvores sobreviventes, elas podem ser testemunhas vivas de uma época em que a castanha-do-pará movimentava a economia regional e começava a percorrer por terra um caminho que, durante muito tempo, foi feito pelas águas do Rio Tocantins.

A contagem foi realizada no início de outubro pelo jornalista Ulisses Pompeu, do CORREIO DE CARAJÁS, autor do livro Castanheiras do Asfalto, uma das obras de referência dos últimos anos sobre a história, a importância econômica e a presença dessas árvores na paisagem urbana e rodoviária de Marabá.

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O levantamento percorreu o trecho que sai de Marabá, atravessa a região da Terra Indígena Mãe Maria, passa pelas proximidades de Bom Jesus do Tocantins, Abel Figueiredo e Rondon do Pará, até chegar a Dom Eliseu, na divisa com o Maranhão.

O resultado chama a atenção por um detalhe: das 42 castanheiras identificadas a uma distância máxima de sete metros da pista de rolamento, 39 estão no lado direito da rodovia. A distribuição desigual das árvores reforça uma explicação transmitida há décadas por moradores da região e que encontra respaldo na memória de quem acompanhou as transformações do transporte da castanha-do-pará entre Marabá e Belém.

A estrada que semeou castanheiras

A promotora de Justiça Josélia Leontina de Barros Lopes relatou ao CORREIO DE CARAJÁS que existe um consenso entre moradores das cidades cortadas pela rodovia de que a presença dessas castanheiras está relacionada ao transporte de castanha-do-pará pela antiga PA-70, a partir da década de 1970. Naquele período, a logística de escoamento da amêndoa deixou de depender exclusivamente do Rio Tocantins e passou a utilizar cada vez mais a ligação terrestre entre Marabá e a região da Belém-Brasília, passando por Rondon do Pará.

A antiga PA-70 viria a integrar a malha federal, recebendo a denominação de BR-222. Na época em que o transporte rodoviário ganhou importância, porém, o percurso estava longe de oferecer as condições encontradas hoje em trechos pavimentados. Durante mais de 25 anos, segundo o relato reunido pela reportagem, a estrada permaneceu sem asfalto em boa parte do percurso, e os buracos faziam parte da rotina de motoristas e transportadores.

Nas carrocerias dos caminhões, as castanhas viajavam em meio a solavancos, sacudidas e trepidações. Em estradas esburacadas, parte das amêndoas acabava caindo pelo caminho. Algumas encontravam condições para germinar e crescer, transformando um acidente do transporte em uma possibilidade de renovação da espécie.

A predominância de árvores no lado direito da pista encontra uma explicação nessa memória rodoviária. Era desse lado que, segundo os relatos, os veículos circulavam com maior frequência, favorecendo a queda das amêndoas naquela faixa da estrada. A concentração de 39 das 42 árvores nesse lado não comprova, isoladamente, a origem de cada exemplar, mas constitui um indício que dialoga com a história oral preservada pelos moradores.

A paisagem, nesse caso, pode funcionar como um arquivo. Sem placas comemorativas, cercas de proteção ou qualquer sinalização que conte sua história, as castanheiras permanecem à margem do asfalto como vestígios de uma cadeia econômica que ajudou a construir a identidade de Marabá e de outras cidades do sudeste paraense.

Paisagem transformada

Para Ulisses Pompeu, as árvores encontradas ao longo da BR-222 são relativamente jovens quando comparadas à longevidade que a espécie pode alcançar. Todas as 42 foram consideradas, no máximo, adolescentes, com menos de 50 anos de idade. A castanheira-do-pará pode viver por muitos séculos, chegando, em condições excepcionais, a aproximadamente 1.100 anos.

A estimativa de idade dos exemplares identificados durante o percurso não corresponde a uma datação científica individual, mas ajuda a situá-los no contexto histórico da expansão do transporte rodoviário e das mudanças ocorridas na região a partir da segunda metade do século passado.

A Terra Indígena Mãe Maria não entrou nessa contagem. Embora seja possível observar castanheiras ao longo do trecho que atravessa a área indígena, as árvores visíveis estão a mais de 40 metros da rodovia, fora do limite de sete metros estabelecido para o levantamento. Muitas delas aparentam ter mais de um século, compondo um cenário diferente daquele encontrado nas margens abertas da estrada.

A distinção é importante porque revela duas realidades. De um lado, há castanheiras integradas a uma área de floresta que preserva árvores de maior porte e vegetação ao redor. De outro, exemplares que cresceram em uma faixa diretamente afetada pela abertura e ampliação da rodovia, pela expansão das atividades econômicas e pela retirada da cobertura vegetal.

Ao longo das décadas, o avanço da fronteira agrícola modificou profundamente a paisagem entre Marabá e Dom Eliseu. Áreas de floresta deram lugar a pastagens, propriedades rurais e outras formas de ocupação. Muitas árvores desapareceram nesse processo, enquanto as 42 identificadas pela reportagem permaneceram de pé, isoladas em meio a uma paisagem cada vez mais aberta.

“Todas essas 42 castanheiras estão num deserto particular, sem outras árvores de tamanho expressivo por perto. Elas ficam mais vulneráveis ao vento, aos raios e enxurradas”, ressalta Pompeu.

A observação aponta para um problema que vai além da permanência física das árvores. Sem a proteção oferecida por uma vegetação mais densa, elas ficam expostas às intempéries e aos efeitos das mudanças no entorno. A vulnerabilidade se torna ainda mais evidente durante o verão amazônico, quando queimadas e incêndios se tornam ameaças recorrentes em áreas de vegetação seca.

Apesar disso, as castanheiras resistiram. Sobreviveram à abertura de áreas, às queimadas e à transformação de uma região que, em poucas décadas, perdeu parte representativa de sua cobertura florestal. Sua permanência não significa, entretanto, que estejam protegidas. Pelo contrário, a condição de árvores isoladas pode aumentar os riscos que enfrentam.

Só história oral

A identificação das 42 castanheiras ajuda a materializar uma narrativa transmitida entre gerações. O que antes aparecia nos relatos de moradores e de pessoas ligadas à economia da castanha ganha agora uma dimensão concreta: árvores localizadas, contadas e observadas ao longo de um percurso rodoviário de aproximadamente 220 quilômetros.

A hipótese de que essas castanheiras tenham surgido de amêndoas perdidas durante o transporte é coerente com os relatos reunidos pela reportagem, mas a confirmação da origem de cada árvore exigiria estudos específicos. Ainda assim, a distribuição dos exemplares, especialmente a concentração no lado direito da pista, acrescenta um elemento relevante à investigação da história econômica e ambiental da região.

Essa relação entre memória, território e sobrevivência das árvores está no centro de Castanheiras do Asfalto, livro de Ulisses Pompeu que resgata a presença da castanheira-do-pará na formação de Marabá e sua importância para a história de famílias, trabalhadores e comunidades. A obra também chama a atenção para a permanência da espécie em ambientes profundamente modificados pela urbanização e pela expansão das atividades econômicas.

No caso da BR-222, as castanheiras contam uma história que não está registrada em documentos de transporte ou em placas instaladas ao longo da estrada. Sua localização e distribuição ajudam a reconstruir parte do caminho percorrido pela castanha-do-pará quando a antiga rota fluvial perdeu espaço para o transporte rodoviário.

Há algo de simbólico nessa paisagem. As amêndoas que um dia movimentaram caminhões, sustentaram famílias e ajudaram a consolidar a economia regional podem ter deixado descendentes ao longo do mesmo caminho por onde eram transportadas. Décadas depois, as árvores permanecem como sinais discretos de uma atividade que marcou profundamente a história de Marabá.

São apenas 42 exemplares identificados em um percurso de 220 quilômetros. Mas cada um deles representa uma oportunidade de compreender melhor como a economia, os deslocamentos humanos e a natureza se entrelaçam na formação do sudeste do Pará. Em meio ao asfalto, às pastagens e às marcas da ocupação humana, essas castanheiras continuam de pé, guardando uma memória que ainda precisa ser reconhecida e preservada.