Correio de Carajás

23ª Brigada de Selva completa hoje 50 anos de instalação em Marabá

CORREIO entrevista o atual comandante da mais poderosa da Amazônia. No balanço das últimas cinco décadas da instituição, ele destaca a importância estratégica da corporação

General Ênio Fett: "Temos de permanecer com elevado nível de prontidão logístico e operacional para atuar em qualquer área do território nacional"
Por: Ana Mangas
✏️ Atualizado em 09/06/2026 15h34

Nesta terça-feira, dia 9 de junho, a 23ª Brigada de Infantaria de Selva comemora oficialmente 50 anos de existência. Nesse meio século de história na Amazônia, a unidade vive um momento de consolidação estratégica, expansão operacional e modernização técnica. Conhecida historicamente como a “Brigada da Transamazônica”, a instituição representa hoje o principal pilar de soberania e apoio humanitário em uma das regiões mais desafiadoras do país.

Atualmente, a unidade está sob o comando do general de Brigada Ênio Barbosa Fett de Magalhães, que assumiu o posto em 14 de agosto de 2025, vindo do gabinete do comandante do Exército, em Brasília. Esta é a segunda vez que o oficial reside em solo marabaense, tendo morado no município entre 2014 e 2015, mas com outra patente.

Em entrevista exclusiva ao CORREIO, general Ênio explicou que o Exército Brasileiro conta hoje com 25 Brigadas, mas apenas cinco pertencem ao seleto grupo de forças de “pronto emprego”, e a 23ª Brigada é uma delas.

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“Temos de permanecer com elevado nível de prontidão logístico e operacional para atuar em qualquer área do território nacional”, explica.

O comandante, que tem acompanhado as mudanças globais no combate moderno, afirma ainda que a tecnologia virou peça indispensável. Inclusive, o uso de drones já é uma realidade prática e fez parte de um treinamento militar de grande envergadura realizado recentemente.

“Acabamos de retornar do nosso exercício de adestramento avançado. Foram três semanas na região de Altamira, Senador José Porfírio e Vitória do Xingu, onde concentramos cerca de 1.200 militares, mais de 60 viaturas, três helicópteros e diversas embarcações. A Brigada pôde se adestrar em missões características do ambiente operacional amazônico, já empregando essas novas tecnologias”, revela o oficial.

Gerenciar um contingente de aproximadamente 4.000 militares distribuídos geograficamente em três estados é um desafio complexo. A área de responsabilidade da 23ª Brigada abrange cerca de 145 municípios nos estados do Pará, Maranhão e Tocantins, o que equivale a 12% do território nacional. Com 11 unidades subordinadas – embora parte expressiva fique concentrada no quartel-general de Marabá – o mapa de atuação ramifica-se para pontos distantes: o 50º BIS fica em Imperatriz (MA); o Esquadrão de Cavalaria atua em Tucuruí (PA); o 51º BIS localiza-se em Altamira (PA) e o 53º BIS atende em Itaituba (PA).

Para manter o controle, o comandante utiliza videoconferências periódicas, visitas operacionais e grandes exercícios conjuntos. O desafio, contudo, vai além da distância: a precariedade do solo e a hidrografia impõem dinâmicas severas de transporte. Além do eixo terrestre, é preciso que os militares se locomovam por vias fluviais importantes, como os rios Tocantins, Xingu, Tapajós e seus afluentes.

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“O combatente de selva precisa de resiliência física e psicológica para enfrentar o clima e as dificuldades da Amazônia”, afirma.

Além das funções de defesa, a 23ª Brigada atua fortemente em ações cívico-sociais, levando médicos, dentistas e serviços básicos a comunidades isoladas e terras indígenas, como ocorreu recentemente na Terra Indígena Mãe Maria, no município de Bom Jesus do Tocantins.

Para o comandante, essa proximidade com a sociedade acaba refletindo no interesse da juventude local pelas Forças Armadas. Ao contrário do que se especula sobre o distanciamento dos jovens modernos, o general Ênio revela que o interesse permanece em alta.

“No serviço militar obrigatório, trabalhamos praticamente com 100% de voluntários. Os jovens têm buscado ativamente a carreira militar”.

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23ª BRIGADA EM NÚMEROS

4.000 militares em três estados

145 municípios cobertos

12% de abrangência do território nacional

11 unidades subordinadas no PA, TO e MA

9 unidades sediadas apenas em Marabá

 

PRINCIPAIS UNIDADES SEDIADAS EM MARABÁ

Companhia de Comando da 23ª Brigada de Infantaria de Selva

52º Batalhão de Infantaria de Selva

23º Batalhão Logístico de Selva

1º Grupo de Artilharia de Campanha de Selva

23ª Companhia de Comunicações de Selva

6ª Companhia de Engenharia de Combate de Selva

33º Pelotão de Polícia do Exército

Hospital de Guarnição de Marabá

Seção Fluvial da 23ª Brigada de Infantaria de Selva.

 

Marabá terá serviço militar obrigatório para mulheres

 

Uma novidade histórica que se avizinha para a região é a inclusão de mulheres no alistamento obrigatório. Embora a Guarnição de Marabá ainda não tenha recebido o primeiro contingente feminino, o general de Brigada Ênio Barbosa Fett de Magalhães projeta isso para um horizonte muito próximo.

“No Comando Militar da Amazônia Oriental já tivemos a formação das primeiras combatentes de selva prestando o serviço militar obrigatório inicial”.

Ao fechar o balanço comemorativo de meio século, e destacar o legado e a importância estratégica da instituição, o atual comandante da 23ª Brigada expressa gratidão pelo acolhimento que a corporação tem recebido nas últimas décadas.

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“Fomos abraçados pela sociedade de Marabá. Esperamos que esses laços sejam cada vez mais fortalecidos. A sociedade pode ter certeza de que pode sempre contar com a 23ª Brigada de Infantaria de Selva em qualquer situação. Falando de legado, eu diria que o principal é justamente a materialização da presença do Estado aqui na região. Quando voltamos para o início da década de 1970, a história da Brigada está muito ligada à própria construção da BR-230, a Transamazônica. O legado é confirmar a presença do Estado, proporcionando segurança, proteção e estimulando o desenvolvimento social, o apoio à população e a defesa da soberania nacional”, afirma o comandante.

Chegada do Exército em Marabá está ligada à Guerrilha do Araguaia

 

A primeira sede da 23ª Brigada foi no município de Santarém, no oeste do Estado, em 1976. Mas, a transferência para Marabá ocorreu em novembro do mesmo ano. A medida foi uma resposta estratégica do Estado às necessidades de segurança da região do Bico do Papagaio – local que engloba o Pará, Maranhão e Tocantins – cenário da Guerrilha do Araguaia no final da década anterior.

De acordo com a história, o conflito armado envolveu cerca de 70 jovens, membros do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), na região da Serra das Andorinhas, em confronto com aproximadamente 10 mil militares do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Sabe-se que as Forças Armadas usaram de grande violência para obter informações e localizar os envolvidos na Guerrilha, que atingiu também comerciantes, barqueiros e religiosos de São Geraldo do Araguaia e das cidades circunvizinhas, como Marabá.

Aliás, a atual sede do DNIT, em Marabá, chamada na época de Casa Azul, servia de prisão para participantes da guerrilha. Há vários relatos que apontam para isso. Inclusive, nas décadas de 1990 e 2000 houve escavações no local, porque alguns testemunhos apontavam que lá foram enterrados alguns corpos de guerrilheiros.

A Guerrilha do Araguaia foi liderada por militantes do PC do B que no fim dos anos 1960 buscavam derrubar o regime militar e iniciar uma revolução socialista a partir do campo.

A seguir, uma cronologia militar na região detalha a evolução do conflito e a consequente consolidação da presença do Exército Brasileiro:

1971 (A Descoberta): A prisão de dois estudantes em Fortaleza forneceu ao Centro de Informações do Exército (CIE) os primeiros detalhes estruturais e localizações da guerrilha no sudeste do Pará.

1972 (Operação Papagaio): Primeira grande ofensiva militar. Com 3 mil soldados, a operação enfrentou dificuldades pelo desconhecimento da selva, resultando em embates isolados.

1973 (A Chegada do 52º BIS): O 52º Batalhão de Infantaria de Selva chega a Marabá, tornando-se o núcleo pioneiro na Transamazônica. Paralelamente, ocorre a Operação Marajoara, marcada por táticas agressivas de contrainsurgência.

1974–1975 (Operação Limpeza): Fase final de aniquilação total dos focos guerrilheiros, encerrando a resistência armada na região.

1976 (Consolidação da 23ª Brigada): Com o fim dos conflitos, o Exército estrutura definitivamente a 23ª Brigada de Infantaria de Selva, enquadrando batalhões estratégicos em Imperatriz (MA), Altamira (PA), Marabá (PA) e Itaituba (PA).

A barreira da censura imposta pela ditadura militar blindou o país das informações sobre a guerra travada na região do Bico do Papagaio. Após a neutralização da guerrilha, um verdadeiro pacto de silêncio institucionalizado pelos militares trancou os arquivos das operações sob sigilo estatal. Décadas depois, a falta de transparência sobre os documentos históricos continua deixando os parentes das vítimas sem respostas sobre os assassinatos e o paradeiro dos corpos.

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O início da redemocratização do Brasil, nos primeiros anos da década de 1980, marcou também o começo de uma batalha jurídica travada por familiares de guerrilheiros. A mobilização buscava forçar a abertura dos arquivos militares para localizar os restos mortais dos militantes mortos em combate.

A resistência do Estado Brasileiro levou o caso à esfera internacional. Em março de 2009, a Corte Interamericana de Direitos Humanos apresentou uma queixa formal contra o país. A denúncia apontava a responsabilidade do Brasil por prisões, torturas e execuções no Araguaia, além do bloqueio ao acesso aos documentos da ditadura.

Em resposta à pressão, no dia 29 de abril do mesmo ano, o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, instituiu uma portaria criando um grupo de trabalho para localizar e identificar as ossadas dos desaparecidos.

A Lei da Anistia, promulgada em 1979, impede que crimes de guerra cometidos no período da ditadura sejam julgados, mas uma interpretação jurídica entende que crimes de tortura constituem uma exceção. Isso, em parte, explica a relutância em tornar públicas as informações sobre o Araguaia.

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