Correio de Carajás

Em Parauapebas, a união faz a força a favor da diversidade

Há três anos atuando em Parauapebas, coletivo briga por Coordenadoria Municipal/ Foto: Divulgação
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Coletivo junta 11 entidades e a maior bandeira é a criação de uma coordenadoria na Prefeitura Municipal

Após mais de uma década de organização, o palco da Parada do Orgulho em Parauapebas foi expandido e abraçou outros espaços públicos, políticos e sociais que aqueles nos quais marcava presença uma vez ao ano, durante a Semana da Diversidade.

Há três anos, três entidades de defesa dos interesses LGBTQIA+, sigla que abriga lésbicas, gays, bissexuais, transexuais ou travestis, pessoas queer, intersexo e assexuais, além de outras orientações sexuais e identidades de gênero, como a não-binariedade e a pansexualidade, decidiram unir forças e assim nasceu o Coletivo da Diversidade de Parauapebas.

Em pouco tempo outros representantes do terceiro setor se aproximaram e o comitê conta atualmente com 11 entidades sociais voltadas a atender essa população específica, nos mais variados âmbitos e contextos. Desde então, foi possível espichar os tentáculos e alcançar o nível de debate político-social existente em Parauapebas neste momento, quando os representantes cobram da Prefeitura Municipal a criação de uma coordenadoria específica da diversidade, que possa englobar, também, outras minorias.

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“É isso que estamos esperando do atual prefeito (Darci Lermen) porque ele nos prometeu em campanha. Essa é a nossa maior bandeira hoje e ele assinou um compromisso”, diz Sueny Cardoso, que conversou com o Correio de Carajás acompanhada de Cristina Carmona, uma das idealizadoras da Parada LGBTQIA+ de Parauapebas. As duas integram o comitê coletivo.

A coordenadoria, explicam, centralizaria a inserção dessa população nas políticas públicas já existentes, como educação, saúde e habitação. “Precisamos que as pessoas saibam onde nos buscar. Ficou desempregado? A gente pode encaminhar para um programa de emprego, por exemplo. Poderíamos fazer um trabalho com as meninas que trabalham na prostituição à noite, entre outros”, diz Sueny.

Conforme as duas, a implantação do comitê foi importante para que houvesse o acesso dessa população às políticas institucionais. Entre os integrantes foram distribuídas funções dentro de diferentes secretarias municipais. “Nós vamos em todos os setores do governo para apresentar o comitê e ver o que precisamos. A gente também é chamada pra debater. É chamada na delegacia, por exemplo, quando ocorre um crime contra uma pessoa LGBTQIA+. É o terceiro setor trabalhando em prol da comunidade”, destaca Cristina.

Apesar disso, afirmam as duas, não haver uma coordenadoria devidamente institucionalizada dificulta algumas ações. Há dias que as entidades não possuem um carro para fazer atendimento. Em outras ocasiões, têm dificuldades para a organização de ações sociais por não terem estrutura para sequer contabilizar a população LGBTQIA+ no município.

“A gente não sabe quantas pessoas a gente atende porque não temos uma estrutura institucional. Primeiro que o censo brasileiro esconde os gêneros de diversidade e se não tem dados, não tem política pública. A gente não tem dados quantitativos e qualitativos dessa população por não termos um órgão, departamento, gerência, como quiser chamar, para cuidar da pauta da diversidade. Isso é assim até em nível Federal”, destaca Sueny.

O que elas sabem, por alto, é que anualmente conseguem fazer de 200 a 300 atendimentos, o que engloba várias atividades, como entrega de cestas básicas ou arrecadação de leite. Além disso, sabe-se que a Parada do Orgulho chega a atrair um público entre 30 e 40 mil pessoas.

“É por isso que hoje a gente está esperando ansiosa para conversar com o prefeito sobre a nossa coordenadoria. Porque assim vamos poder ter um lugarzinho pra gente poder trabalhar a coisa do jeito que tem que ser feita. O comitê surgiu da necessidade da gente construir a institucionalidade e que esta se mantenha como uma política de município, porque não somos fixos na terra. A gente espera um dia não precisar mais fazer nem parada e nem semana da diversidade porque o nível de conscientização vai estar tão alto que as pessoas vão nos respeitar”, diz Cristina.

Sueny e Cristina falam dos avanços pós união entre entidades / Foto: Luciana Marschall
Sueny e Cristina falam dos avanços pós união entre entidades / Foto: Luciana Marschall

SEMANA DA DIVERSIDADE E OUTRAS AÇÕES

O empoderamento da comunidade LGBTQIA+ de Parauapebas nasceu em meio à festa realizada anualmente e que, embora fortalecesse o orgulho, não apagava a dor de tantas pessoas sendo expulsas de casa, vítimas de violência ou socialmente invisibilizadas.

Da Parada, surgiu a Semana da Diversidade, durante a qual eram emitidas carteiras sociais e outros documentos, aplicados testes rápidos de HIV, cortados cabelos e apresentadas palestras. “Pensamos que não daria para continuar sendo só a parada, estava na hora da comunidade começar a se politizar e entender o que é direito, o que são deveres e seguir em frente. A galera já olhava pra comunidade e dizia ‘ah, é só parada, é só festa’ e não é assim. Nesses três anos nós conseguimos alcançar muitas coisas, mas ainda falta muito mais”, lembra Sueny.

O empoderamento que surgiu da parada, onde muitos integrantes do coletivo se conheceram, teve papel fundamental para a construção das bases do orgulho e do pertencimento, destaca Cristina. “O comitê vem hoje com essa pegada, não vamos deixar de celebrar o orgulho, mas também vamos passar pra prática, pois precisamos ter os nossos também no poder”, defende.

Dessa luta, se passou a emitir em Parauapebas as carteiras sociais e também a ser pago o Tratamento Fora de Domicílio para pessoas trans que necessitam viajar à capital, Belém, para atendimento no laboratório transexualizador. “A gente conquistou a obrigatoriedade do uso do nome social no serviço público municipal, incluindo nas escolas”, acrescenta.

Na Semana da Diversidade, por exemplo, são realizadas capacitações neste sentido para os servidores públicos, principalmente da segurança. “Nós vamos no quartel, nós vamos na Guarda Municipal, vamos na delegacia… pra poder dizer a essa galera como lidar com essas pessoas, porque não é de qualquer jeito. Eu costumo dizer que a comunidade LGBT não quer ser tolerada, ela quer só ser respeitada”, diz Sueny.

Paralelamente a esse trabalho, afirma, cada entidade que compõe o coletivo realiza ações sociais, como feijoadas ou arrecadação de leite para o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA).

REEDUCAÇÃO E PRECONCEITO

As duas destacam um importante ponto do processo que está em andamento: o de reeducação da própria população LGBTQIA+. “A gente consolidou tantas conquistas importantes que a comunidade esquece que não é só aquilo e acaba parando a luta. A gente precisa continuar esse trabalho. A gente já consegue hoje construir um ambiente escolar onde a comunidade é convidada a fazer palestras. A gente conseguiu construir respeito junto à comunidade religiosa. Ainda há uma turma que nos ataca, mas as lideranças evangélicas têm respeito, ao ponto de votarem contra ações nossas na Câmara de Vereadores, mas nos respeitarem e não tentarem mobilizar as bases para derrubarem as coisas que temos construído”, exemplifica Cristina.

“A gente está falando de um espaço de política pública transversal, não vamos criar educação LGBT, habitação LGBT, assistência social LGBT. O que se faz numa coordenadoria como a que a gente está planejando é política pública transversalizada. A função é estudar como integrar essa população aos direitos existentes”, conclui.

Embora a intenção seja apenas o atendimento a estas pessoas como às demais cidadãs, a ideia esbarra fortemente no preconceito social. “Quando se fala num espaço de cidadania LGBT a população já acha que ‘queremos secretaria’, quando, na verdade, nós estamos falando de um órgão que se preocupe em ir lá dentro da institucionalidade dizer que é preciso botar LGBT nos programas”, observa, Sueny.

Conforme ela, é importante acompanhar pessoas vítimas de violações pela orientação sexual ou identidade de gênero estão tendo acesso a essas políticas públicas. “Precisamos garantir que essa pessoa entre no ensino médio. O rolê é construir essa transversalidade sem ferir princípios bíblicos ou opiniões de ninguém. A gente não quer saber se concorda com a situação LGBT, a gente quer saber se educação, saúde, saneamento básico e habitação estão chegando pra essa população também, porque ela também paga imposto”, finaliza. (Luciana Marschall)

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