Correio de Carajás

Um parto para me despedir de meu doce filho Enrico

Exatamente um ano atrás, eu não imaginava que naquela data minha vida mudaria para sempre. Eu estava grávida de 37 semanas, e fui ao médico fazer o último ultrassom, antes do parto.

Assim que o médico colocou o aparelho, disse que tinha um grande problema… O meu bebê havia parado, tinha falecido. Confesso que, passados 12 meses, ainda não consigo descrever com exatidão o que senti. Pois era uma dor que desconhecia. Tão grande e tão forte que me consumiu física e emocionalmente. Não conseguia falar, apenas chorar. Não queria acreditar no que estava acontecendo.

Como seria possível, o meu filho tão amado ter partido? Eu orei por oito longos anos pelo Enrico. Meu filho era fruto de oração e jejum.

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Eu já o sentia e o amava muito antes dele ser concebido. Sempre soube que o Enrico chegaria. De repente, a minha alegria havia se convertido em lágrimas.

No dia seguinte ao resultado do ultrassom, dei entrada no hospital pela manhã para realizar o parto do meu bebê. Sim, o pesadelo não havia terminado, estava só começando. Por indicação médica, faria um parto normal induzido, quando é preciso usar medicação.

Quanta ironia, eu que já havia marcado a data para a cesárea, pois, sempre repetia que não conseguiria passar pela dor de um parto normal.

Durante a madrugada, os remédios começaram a fazer efeito e iniciaram as contrações. Quando vi a minha barriga mexer, pensei ser meu filho, pedi à médica para ver se ele estava vivo, mas não, eram apenas as contrações.

A dor física era insuportável, passei a madrugada gritando. Quando ela já me consumia, um grupo de enfermeiras entrou no quarto para me apoiar. Nunca me esquecerei dessa cena, pareciam anjinhos indo ao meu socorro. Elas me levantaram da maca, me levaram para o banheiro e me deram banho, cuidaram de mim, trocaram a minha roupa.

Sempre serei grata a cada uma delas, ainda que, infelizmente não lembre seus nomes.

Conforme as horas avançavam, as contrações aumentavam. Lembro-me de ouvir a médica dizer que era possível sentir a cabeça dele. Nesse momento, me desesperei, um misto de sentimentos me invadiu. Ao mesmo tempo em que eu queria que as dores do parto acabassem, eu também não queria ter que me despedir do meu filho.

Às 07h08, no dia 22 de março de 2023, o meu filho nascia sem vida. Prometi a mim mesma que enquanto ele estivesse comigo, eu o honraria, não iria chorar ou lamentar. E assim o fiz.

O amor de uma mãe é realmente uma grande loucura. Eu me sentia feliz com o meu filho em meus braços. Acho que até pensaram que eu não estava bem emocionalmente. A verdade é que eu sabia que teria poucas horas com ele em meus braços; então, aproveitei cada segundo.

Pedi à enfermeira para colocar nele a roupa que havia separado para o dia de sua chegada. Ele estava lindo, meu filho nasceu lindo.

Estava com um body branco e um macacão azul claro, com uma manta que encomendei nas mesmas cores, com as iniciais dele.

Eu o abracei, ninei, beijei, até que chegou o momento de ter que me despedir. Eu saí do hospital à revelia dos médicos, já que para mim não haveria possibilidade de não estar presente no enterro do meu filho.

Nenhuma mãe merece passar por uma experiência assim, ter que enterrar um filho. Vê-lo nascer pela manhã e enterrá-lo à tarde. Depois que cumpri o que havia prometido ao Enrico, comecei a chorar, e confesso que as dores não cessaram.

Ter que voltar para a minha casa, e ver seu quarto montado, mas com o berço vazio, é uma dor indescritível. Ainda assim, eu tenho um testemunho para compartilhar…

Talvez você esteja se perguntando, mas cadê o testemunho? Onde está o milagre, se o seu filho morreu?

O milagre está em reconhecer que Deus é Deus mesmo dizendo o sim e o não. Não me sinto abandonada, ou preterida por Deus, pois tenho a certeza que a morte me separou momentaneamente do meu filho, mas chegará o dia em que nada, nem a morte, será capaz de nos separar novamente. Sim, eu creio nas promessas de Deus, que há vida eterna.

E meu objetivo hoje é ganhar a salvação, e usar a minha existência para levar o amor de Deus a todos os cantos. E, se de alguma forma o que passei serviu para levar esperança em seu coração, então, valeu a pena.

Ainda choro, mas é de saudade, muita saudade, muito amor guardado dentro de mim. Mas minha gratidão a Deus é muito maior do que a minha dor. Ter sido mãe fez a minha vida ter sentido, como é bom amar, como é bom querer ser melhor. Vivi os melhores meses da minha vida. Fui muito feliz com cada roupinha que comprava, tudo feito com muito amor e cuidado para ele, com o nome dele. Fiz tudo o que podia e me senti a mulher mais feliz e abençoada deste mundo.

Compartilho aqui o versículo que tenho repetido muitas vezes para

mim mesma: “Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor”, Jó 1-21.

Theíza Cristhine é jornalista do Portal Correio de Carajás em Parauapebas, onde reside com o marido, Fernando José da Silva