Correio de Carajás

Marabá registra quase 4 mil acidentes de trânsito em um ano

Na manhã desta sexta-feira, 22, Marabá vivenciou um passo importante na luta por um trânsito mais seguro. O Ministério Público do Pará (MPPA) organizou e realizou uma audiência pública para tratar do assunto. Para isso, foram convidados para o diálogo órgãos de fiscalização que atuam no trânsito marabaense, bem como entidades da sociedade civil.

As demandas da população, sobre o tema, também foram ouvidas.

“Esse é um ato democrático, de participação social, onde nós vamos ouvir a sociedade sobre quais são as dificuldades que ela vem enfrentando em relação ao trânsito e como ela entende que isso tudo pode ser melhor”, diz Lorena Moura Barbosa de Miranda, titular da 2ª Promotoria de Justiça de Marabá.

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Realizada no plenário da Câmara Municipal, a audiência tem sua relevância explicada quando se olha para os assustadores números de sinistros no município e região.

Para o Correio de Carajás, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) revelou que 3.940 acidentes foram registrados em Marabá. Já a Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que 40 mortes foram registradas em rodovias que cortam o município e região.

Os números assustam e carregam a indispensável tarefa de alertar não só a população, mas também órgãos públicos e instituições, principalmente aqueles que lidam diretamente com o trânsito do município. Por isso, o diálogo desta sexta-feira deve contribuir no direcionamento do trabalho do MPPA, na melhoria da violência do trânsito em Marabá e sua circunvizinhança.

A quantidade espantosa de acidentes foi confirmada por Edinaldo Pereira Araújo, coordenador médico da central regional do Carajás e de Marabá, do Samu.

Edinaldo contou que as fraturas mais recorrentes acontecem em braços e pernas das vítimas

“No último ano nós tivemos 3.940 acidentes em Marabá, hoje a nossa média é de 270 acidentes por mês”. Os sinistros incluem colisões entre veículos e atropelamentos. O profissional avalia também que nos últimos anos essas ocorrências tiveram uma redução mínima e por isso a importância da audiência.

Niuara Nunes Cortez Nogueira (N. Cortez), agente da Polícia Rodoviária Federal, explica que em 2023 o maior índice de acidentes foi com colisões frontais. “Ela acontece mais por conta de ultrapassagem em locais proibidos, principalmente por motocicletas, e também por perda de controle do automóvel”. Ela destaca, ainda, que há um grande número de acidentes relacionados a condutores que não possuem habilitação para dirigir.

Conforme os dados divulgados pela agente, em 2023 foram registrados 17 acidentes graves nas rodovias da região, 13 colisões traseiras e 11 transversais. Além disso, sete pedestres foram atropelados e 40 acidentes resultaram em mortes.

Importante destacar que os números dizem respeito aos boletins de ocorrência abertos pela PRF, após serem chamados para atender as ocorrências.

PRF Niuara enumerou infrações que colaboram para os acidentes nas rodovias

SEGURANÇA NO TRÂNSITO

A promotora Lorena Moura Barbosa explica que o “start” do projeto “Trânsito seguro: educar para não infringir” aconteceu quando a 2ª Promotoria de Justiça de Marabá recebeu toda a atribuição dos crimes de trânsito do município. Diante disso, a entidade entendeu que o trabalho que era realizado até ali não era suficiente.

“Nós precisávamos fazer um trabalho extra-judicial, mais ampliado e que atingisse realmente a sociedade num sentido de conscientização e educação”, detalha. Para isso, era preciso entender junto às instituições quais suas fragilidades, para que o Ministério Público do Estado pudesse auxiliá-las e que também tivesse mais força de fiscalização.

Atualmente o MPPA realiza um trabalho educativo com condutores responsabilizados judicialmente por acidentes de trânsito. A ação está inserida no projeto do MPPA e essas pessoas assistem a palestras de conscientização.

Promotora Lorena Barbosa esteve à frente da audiência pública

E a educação por um trânsito mais seguro também é pauta tratada pelo Departamento Municipal de Trânsito e Transporte Urbano (DMTU).

Emanuel Sousa da Cruz, coordenador de educação para o trânsito deste órgão, explica que em 2023 o DMTU fez 360 atendimentos de ocorrências de trânsito no perímetro urbano de Marabá. Como forma de prevenir esses sinistros, o órgão tem intensificado suas ações educativas através de palestras em empresas e escolas, num esforço de aproximar cada vez mais a sociedade da conscientização sobre o trânsito.

“Como imprudências mais recorrentes, a gente vê o uso de celular, a falta do cinto de segurança e também do capacete”, enumera. Além disso, a grande maioria das ocorrências registradas são com veículos de duas rodas.

A disseminação de conhecimento para a população também é citada por Jair Barata Guimarães, secretário de Segurança Institucional de Marabá. E ele vai além disso.

Questionado pela reportagem do CORREIO sobre qual o gargalo atual do trânsito marabaense, Jair cita que é preciso melhorar a engenharia de trânsito da cidade. “Precisa de mais viadutos, duplicação, precisa melhorar a via”, destaca. Fiscalização mais presente e educar a população sobre o trânsito, são outras condições relacionadas pelo secretário.

NA TRIBUNA

O momento da audiência destinado a participação da sociedade foi pautado, principalmente, na proposição de ações educativas mais contundentes. As pessoas que subiram na tribuna foram veementes ao afirmarem que essa pauta deve ser levada para as escolas, para que a prevenção comece desde cedo. A disseminação de conhecimento, mais do que a punição, é de vital importância para os condutores – e pedestres – da cidade.

“A punição a gente sabe que é o crime, que já aconteceu e é muito mais doloroso. Eu penso que a educação é uma coisa fundamental, crucial. Mas quem vai educar? Nós temos que construir uma rede com diversas autoridades”, aponta Catarina Cátia Gomes.

Mas, em um determinado momento da manhã, a audiência, que tinha foco na segurança do trânsito, passou a debater a mobilidade e o transporte urbano da cidade. Membros da sociedade que tomaram a palavra no púlpito entendem que ambos os tópicos estão interligados, uma vez que a mobilidade urbana afeta diretamente o tráfego urbano. Um exemplo é a rotatória do KM 6, local que intersecciona duas importantes rodovias: a BR-155 e BR-230.

O grande fluxo de veículos naquela via e os constantes engarrafamentos registrados ali são, há muito tempo, motivo de reclamação dos marabaenses que diariamente trafegam pelo trecho.

Por sua vez, Késio de Oliveira cobrou melhorias na trafegabilidade do bairro Nossa Senhora Aparecida, localizado no núcleo Nova Marabá. De acordo com ele, é preciso obras nas vias, para que haja um trânsito mais seguro.

“O município rever essa questão de, ao invés de asfaltar as duas vias, asfaltar só uma, porque isso força os condutores a passarem por um lado só”, desabafa Marcone Guimarães. Ele também pede para que os acessos às rodovias sejam estudados, principalmente nas avenidas Magalhães Barata e Floriano Peixoto, no núcleo São Félix.

Menores conduzindo veículos foi uma outra controvérsia apontada pelos presentes. Eles censuram a atitude de pais que ensinam filhos adolescentes a dirigir e que permitem que eles conduzam os veículos pelas ruas do município.

Sobre isso, Francisco Junior Miranda França contou o relato que ouviu de um marabaense há cerca de seis anos. O homem lhe contou que instruiu o filho, que era muito novo, a dirigir. Tragicamente, o jovem sofreu um acidente de trânsito e foi condenado a viver em estado vegetativo, para a eterna dor de seus familiares e, principalmente, seu pai.

(Luciana Araújo)