Correio de Carajás

Como órgãos de porcos são usados para salvar vidas humanas

Xenotransplante é a troca de órgãos entre espécies diferentes. Atualmente, diversos centros de pesquisa pelo mundo (e inclusive no Brasil) investigam e já testam, na prática, o uso de porcos geneticamente modificados como origem para os órgãos que serão transplantados.

Entre os desafios para o sucesso dos xenotransplantes estão:

  • rejeição do órgão transplantados,
  • crescimento indevido do órgão e
  • até mesmo a transmissão de doenças.

 

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No caso dos porcos, os principais órgãos em estudo para os xenotransplantes são rins e coração.

Nesta quinta-feira (21), o médico brasileiro Leonardo Riella comandou – em um hospital em Boston, nos EUA – o primeiro transplante de rim de um porco para um paciente humano vivo. Sabe-se que o quadro do paciente era gravíssimo, mas não foi divulgado um prognóstico para qual a expectativa de vida depois do transplante.

Em estudos anteriores, cientistas consideram que a técnica do xenotransplante pode ajudar pacientes com insuficiência renal que não têm doador compatível e cuja expectativa de vida é menor do que o tempo de espera por um órgão humano.

Em cirurgias anteriores, o rim suíno foi levado para o corpo de pacientes que tiveram morte cerebral. Em um dos casos mais emblemáticos, a equipe do Instituto de Transplante Langone da Universidade de Nova York (NYU) manteve o rim em funcionamento no corpo humano por dois meses até a remoção do órgão.

Já na Universidade de Medicina de Maryland, nos EUA, os médicos realizaram ao menos dois xenotransplantes de coração de porco.

Abaixo, veja alguns marcos na evolução dos xenotransplantes a partir dos desafios da inativação de vírus e doenças, do risco de crescimento e da rejeição.

Inativação do vírus e doenças

 

É sabido pela ciência que alguns vírus encontrados em animais podem causar doenças graves em humanos. Em agosto de 2017, um estudo publicado pela revista “Science” trouxe uma nova luz sobre o assunto. A nova técnica de edição genética “Crispr”, descoberta em 2012, permite que o código seja editado de forma precisa e muito mais barata.

Com base nesta nova técnica, cientistas conseguiram inativar um retrovírus suíno. Eles usaram a fertilização in vitro e manipulam o DNA do ovo fecundado antes que ele se transforme em embrião. Foi retirada a parte da cadeia genética responsável pela produção de enzimas e proteínas que causam rejeição em humanos.

Além da edição genética, os porcos usados em transplantes são criados em condições estéreis para evitar qualquer risco de contaminação.

Na foto, sem data, um rim de porco geneticamente modificado é limpo e preparado para transplante em um humano na NYU Langone Health em Nova York, nos Estados Unidos. — Foto: Joe Carrotta para NYU Langone Health/via Reuters
Na foto, sem data, um rim de porco geneticamente modificado é limpo e preparado para transplante em um humano na NYU Langone Health em Nova York, nos Estados Unidos. — Foto: Joe Carrotta para NYU Langone Health/via Reuters

Risco de crescimento exagerado do órgão

 

Os mais recentes procedimentos de transplante renal e cardíaco empregaram órgãos provenientes de porcos geneticamente modificados, conhecidos como “porcos de 10 genes“, especificamente desenvolvidos para essa finalidade.

Esses porcos foram geneticamente ajustados para evitar reações dos órgãos doados aos hormônios de crescimento humano, prevenindo assim um crescimento descontrolado.

No total, 10 alterações foram feitas:

  • Três genes – responsáveis por uma rápida rejeição de órgãos de porcos por humanos, mediada por anticorpos – foram “eliminados” no porco doador.
  • Seis genes humanos responsáveis pela aceitação imunológica do coração de porco foram inseridos no genoma.
  • Um gene do porco foi eliminado para evitar que o tecido cardíaco transplantado crescesse demais.

 

Risco de rejeição do órgão transplantado

 

Mesmo nos transplantes tradicionais, nosso sistema imunológico pode tratar o órgão transplantado como uma infecção e o atacar. Por isso são administrados imunossupressores, que são medicamentos que evitam a rejeição do órgão transplantado.

Em ao menos uma das técnicas usadas para evitar a rejeição do tecido suíno, cientistas experimentaram excluir na edição genética a presença da molécula de açúcar alfa-Gal. Ela se prende às células dos porcos e funciona como um marcador que alerta o sistema imunológico de que aquilo se trata de um material estranho.

Há ainda outros “marcadores” que podem ser editados, conforme a linha de pesquisa, e “marcadores humanos” podem ser acrescentados ao órgão suíno para enganar nosso sistema imunológico.

(Agência Brasil)