Correio de Carajás

Um olhar minucioso por trás do Festival Safra da Castanha

Festival Safra da Castanha Nova é período festivo na aldeia/ Foto: Leon Ramirez

Há nove anos, a Aldeia Gavião Kyikatejê, localizada na Terra Indígena Mãe Maria, no município de Bom Jesus do Tocantins, realiza o Festival Safra da Castanha Nova, reunindo povos da região e de outros estados, visando fortalecer a identidade cultural e mostra-la aos não indígenas, a fim de desmistificá-la e fazer com que seja valorizada.

Este ano o evento teve início no dia 20 e segue até o domingo, dia 26 de junho. O Festival conta com uma vasta programação, como: atividades culturais, esportes tradicionais, futebol, pintura corporal e interação com os visitantes.

A reportagem do CORREIO conversou com duas lideranças locais para conhecer, nos mínimos detalhes, um dos maiores eventos da cultura indígena do Norte do país. O festival é um convite à integração da comunidade com os povos da região.

Sobre o nascimento do festival, o cacique Zeca Gavião, do povo Kyikatejê, conta que primeiramente os encontros aconteciam apenas entre as etnias do estado do Pará e Maranhão, mas com o tempo, agregaram a colheita da castanha, por se tratar de um fruto que é o símbolo de sobrevivência e trabalho dos povos da terra indígena Mãe Maria.

Apesar de jogos, como o futebol, terem feito parte das reuniões desde o início, Zeca, como propulsor do evento, enxergou a necessidade de incluir os esportes tradicionais a fim de realizar uma espécie de intercâmbio cultural entre as etnias participantes, e assim, fortalecer as raízes de todos: “Foi um meio que nós encontramos através do Festival para confraternizarmos, celebrar os nossos momentos”, acrescenta.

Mulheres têm suas modalidades esportivas como o futebol/Foto: Evangelista Rocha

Para o líder, se os indígenas não souberem como conduzir e receber a evolução dos povos ao adentrar à sociedade “branca”, há uma grande chance de, futuramente, perderem a língua materna e consequentemente suas histórias com os antepassados, que é uma tradição passada de geração para geração.

“Quando se fala na demarcação, é perceptível que se fala nela baseado na quantidade da nossa população, então pode-se dizer que o Festival também serve para os não-indígenas verem que em cada estado, somos um, e somos os suficientes para termos o direito de possuir nossas terras”, conta Zeca Gavião, explicando que foi um mecanismo que ele como cacique encontrou para aproximar e fortalecer as etnias.

Muita coisa mudou para os povos aborígenes, não somente em aspectos positivos, mas negativos também, como o sedentarismo. É levantado pelos líderes, problemas de colesterol, diabetes e triglicérides altos. Eles elucidam que as comidas típicas originárias não possuíam sal ou açúcar, e hoje, com as mudanças e intervenções culturais, já se torna uma questão a ser reavaliada.

ATIVIDADES

As apresentações esportivas e culturais são constituídas por corridas de 100m, cabo de força, corrida com as toras, canoagem, natação, tiro ao alvo, arco e flechas e futebol, entretanto, não se trata de meros jogos. Atividades como a corrida com as toras, representam algo mais profundo e significativo do que se vê.

Ao se preparem para o esporte que é o símbolo do festival, os indígenas também passam pelo que se chama de “Pemp”, um ritual que diz respeito à iniciação dos jovens guerreiros, grande entusiasmo e movimentação mobiliza todo o grupo, sobretudo quando apresenta momentos de inversão de papéis, dando ênfase ao desempenho das mulheres nas corridas de tora e nos jogos de flechas.

Os jovens permanecem reclusos por 3/4 meses, numa pequena casa fechada com palhas de babaçu, construída na parte posterior do círculo da aldeia, atrás da casa de um dos guias cerimoniais. Naquele local, recebem ensinamentos especiais, baseados na bravura e na honradez, princípios norteadores da perpetuação de um ethos guerreiro, particular aos grupos Jê atuais.

Dali saem apenas para a realização de atividades coletivas, como expedições de caça e coleta ou ainda colheita de roças. Sempre juntos, os jovens banham-se num ponto exclusivo do igarapé Mãe Maria. Para os mais velhos é preciso banhar muito para crescer logo. Este solene período de reclusão, onde estão interditadas as relações sexuais e a ingestão de determinados alimentos, como carnes de caça e castanha, marca a passagem para o que se poderia chamar de maturidade.

“No Igarapé o jovem entre 6h da tarde e sai 11h30 da noite, aí retorna novamente à 3h da madrugada e fica até 5h30, aí vai para o barraco. Depois de lá ele volta para fazer outra atividade de preparação, como flecha, esteira, cofo, e aprender a como respeitar os mais velhos”, detalha Zeca. Para ele, o pemp é a forma existente instruir os jovens.

CASTANHAS

As castanhas colhidas são calculadas através de sacos utilizados para guardá-las. Este ano 5 mil sacos de castanha foram contabilizados. No entanto, na década de 60 o povo Gavião chegou a coletar uma faixa de 7 mil hectolitros de castanha por ano, mas com o impacto do desmatamento, houve uma diminuição considerável na colheita.

Muitos castanhais estão nascendo de novo sob os cuidados dos povos originários daquela terra indígena, com o reflorestamento, pois trata-se não somente de uma fonte de renda, como também de alimento e um símbolo que representa a cultura da história de subsistência da comunidade.

INTERAÇÃO

Para Zeca, a história dos povos originários sempre foi contada através dos não-indígenas por uma perspectiva distante, devido as barreiras com a comunidade. Diante disso, foi pensada uma forma de interação saudável, como o festival, para todos, a fim de transmitir esse conhecimento através do convívio: “Acontece uma descriminação muito grande pois falta entendimento acerca da vivência indígena, e na minha opinião esse é o momento ideal para abrir espaço para conhecerem um pouco da nossa cultura, de perto”, pontua.

O cacique aponta também que, através dos jogos presentes no festival é possível contar a própria história por meio da construção da flecha, do arco, da preparação de uma comida. Ele caracteriza o próprio indígena como um professor nato, já que tal conhecimento tradicional atravessa gerações.

Visitantes da cidade recebem pintura corporal / Fotos: Evangelista Rocha

MULHERES NO ESPORTE

A participação de mulheres nas atividades do evento difere de povo para povo. Para os gaviões, a corrida com a tora, canoagem e cabo de força são jogos em que as indígenas participam: “Competem com a mesma garra, porém com a força feminina”, pontua Concita Sompré, liderança feminina da aldeia.

Nas comunidades existentes da TI Mãe Maria, quando tem corridas dentro da parte cultural da comunidade, as mulheres defendem o grupo e a família, pois para o povo, tudo parte da nominação: “Se eu coloco o nome em uma criança feminina, eu consequentemente sou responsável por ela. Logo, se ele está correndo, eu tenho que torcer e cuidar dela, se ele tá pegando a tora e de repente não pode mais carregar, eu posso carregar por ele. A participação da mulher é tão importante quanto a do homem”

Sem a participação da mulher, não há fundamento nas práticas, pois se faz necessário as mulheres para, por exemplo, puxar o canto maracá. O Gavião é um povo ímpar onde existe a troca de papéis em dias de festa. As mulheres assumem o papel dos homens, logo, lançam flecha, correm com a tora, enquanto os homens vão em busca de alimento para elas.

(Thays Araújo)

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