Correio de Carajás

O nosso desejo de Mirantear

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

A gente vai se Miranteando. Esse desejo simbólico de melhorar de vida e deixar a casa mais ou menos, no bairro onde os ônibus só andam lotados, e ir morar no Mirante do Vale, no Ypiranga, Green Village, abandonar a Rua Luiz Gonzaga, no Bairro Bom Planalto, onde criei os filhos por mais de 17 anos.

Há problema nisso? Quem disse? Dizem que, quando deixamos o subúrbio, dificilmente queremos fazer o caminho de volta. Por que você vai voltar, seu Ulisses, para aquela rua que tem excesso de poeira no verão e muita lama e atoleiros no inverno?

Dizem que a gente não retorna mesmo. Quando muito, passamos a defendê-lo ou enxergá-lo como lugar do extraordinário, das experiências admiráveis, que podem virar um vídeo ou ensaio fotográfico. Mas voltar para visitar ex-vizinho, admirar a rua? Garantem os experientes que não terei essa sensação.

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Talvez porque ainda achemos coisa do outro mundo, e há um amargor de inveja, a filha da empregada doméstica ter passado para cursar Engenharia Civil na Unifesspa ou Medicina na UEPA.

A Mirantização faz do caminhar da gente um quadrado na cidade. Mundinho cu de pinto, entre a Universidade, no Cidade Jardim, ou a Agrópolis do Incra… ou em outro canto bem urbanizado.

Vivemos por aqui. Nos relacionamos por aqui. Pulamos o nosso Pré-Carnaval por estas bandas da Orla e andamos com nossas bicicletas pelas ciclofaixas oferecidas nesse particular trajeto que não se conecta à periferia.

Um colega de trabalho diz que, quando um parente vem de Belém ou Brasília visitá-lo, ele o leva na Orla, nas ruas desertas das Folhas 32 e 26 e, mais recentemente, passou a mostrar os condomínios fechados e bater no peito com orgulho, descrevendo como a cidade está crescendo, ficando bonita.

Perguntei se não faz o mesmo com o Bairro da Paz, as invasões Carajás I e II, o Bairro Magalhães, nos fundos do São Félix, onde se aninham milhares de famílias sem condições dignas para morar. Afinal, são esses os bairros mais recentes de Marabá e que também precisam ser mostrados.

Antigamente, me iludia com a conversa fiada que só os arrumadinhos da Medicina se escondiam na Folha 32 e nos condomínios fechados. Uma besteira. Se a maioria deles havia nascido nas casas fechadas da 32, por que trocariam um consultório de luxo em Belém pelo atendimento mequetrefe no Hospital Municipal de Marabá? Never!

Mas do mesmo naipe são os revolucionários do Jornalismo e da Arquitetura. Das engenharias, da Psicologia, da Odontologia, do Direito…

E olhe que no São Miguel da Conquista há mais ruas precisando ir e vir, mais cáries pra obturar e mais gente carecendo de um doutor “adevogado”…

A gente quer se mirantizar e pronto. Sim, é legítimo tomar Jack Daniel´s. Vestir-se de Prada. Pegar uma lancha numa náutica no domingo à tarde dar um rolê entre a ponta do Cabelo Seco e o porto das Mangueiras (no verão o nível do Rio Tocantins torna perigoso navegação fora desse quadrante)…

Quem é que não quer a mirantização – seja ele qual condomínio for? Melhor que a música alta dos meus vizinhos… Que uma parada de ônibus lotada às 7h45…… Que uma chacina… Que uma paz às avessas permitida pelo tráfico…

A gente vai se mirantizando porque nessas áreas, neguim não é parado pelo Tático nem é executado antes dos 18… É onde se vende o bagulho, onde se puxa o Corolla e se espreita um iPhone 13…

E o resto da Cidade? Ah, um dia ela vai cercar o Mirante, o Ypiranga…é só questão de tempo.

 

 

 

 

* O autor é jornalista há 26 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

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