Correio de Carajás

Desfaça-se a luz na Praia do Tucunaré

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No segundo verso do livro de Gênesis está uma das frases mais conhecidas da Bíblia: “Haja luz”. No passado, as areias da Praia do Tucunaré eram um importante ninho para as mamães tracajás. Mas a cada ano que passa o badalado balneário vai se transformando em uma cidade no verão – com luzes e som cada vez mais alto. E esses ingredientes são os responsáveis por afugentar os tracajás fêmeas dos mais de 2 quilômetros de areia na praia. Para eles, quanto mais escuro e tranquilo, melhor.

Quem alerta sobre esse dilema é o agrônomo Juscelino Bezerra de Souza, que desenvolve pesquisa para o NEAM (Núcleo de Educação Ambiental) da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará) sobre os quelônios dos rios Tocantins e Itacaiunas há mais de sete anos. Ele está engajado no Projeto “Quelônios de Marabá”, que está sendo resgatado pela universidade em parceria com diversas entidades, como o Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam), Ministério Público Estadual, Guarda Municipal, IEDAR (Instituto de Estudos e Desenvolvimento Agrário), IBAMA, ICMBio, Exército Brasileiro, Semma (Secretaria Municipal de Meio Ambiente) e Fundação Casa da Cultura de Marabá.

Juscelino lamenta que a grande quantidade de luz que chega à praia seja um empecilho para as tartarugas realizarem a postura ali. Com isso, acabam indo para longe, como a Praia do Meio, por exemplo, a 15 km de Marabá, em direção a Itupiranga. Este ano, na Tucunaré, foram encontrados apenas cinco ninhos, enquanto na Praia do Meio foram identificados mais de 100. “Temos muitos acampamentos, a outra margem do rio foi ocupada e transformou-se em uma nova cidade, com festas, afugentando os tracajás. Eles sobem para a praia, mas se alguma coisa assusta, voltam para a água em disparada”, revela.

Leia mais:

A equipe que está atuando no projeto “Quelônios de Marabá” tenta evitar que as pessoas atravessem para o outro lado da praia, onde as tartarugas aparecem para a postura, mas Juscelino reconhece que esse trabalho é bastante difícil.

Uma equipe de voluntários vai diariamente à Praia do Meio e percorre as areias em busca de ninhos com ovos para coletar e transportar até a base que foi instalada na Praia do Tucunaré.

Ele explica que a retirada dos ovos é feita com muito cuidado e o transporte obedece à posição em que se encontram na areia. “Não podemos virar o ovo no eixo vertical. A movimentação é cautelosa, evitamos o máximo de impacto, até mesmo na hora de depositar no ninho artificial na areia da Praia do Tucunaré”, explica.

Até agora, o projeto já coletou cerca de 1.500 ovos e a perspectiva é de que cerca de 80% nasçam e os filhotes sejam levados para o Rio Tocantins. Cada ninho tem até 20 centímetros de profundidade na areia e a quantidade de ovos que estiver nele é a que vai ser respeitada na hora de colocar na incubadora artificial.

Trabalho em conjunto

O custo de manutenção do projeto Quelônios de Marabá é alto. E o presidente do Comam, Jorge Bichara, explica que a Prefeitura está dando total apoio ao projeto, através do prefeito Tião Miranda, um entusiasta da preservação desta espécie.

Bichara recorda que há uma tradição cultural na Amazônia de comer ovos de tracajá e, com o tempo, começou a acontecer coleta predatória, o que está ocasionando diminuição de tracajás e tartarugas nos rios Tocantins e Itacaiunas de forma acelerada. “Reiniciamos (o projeto) com aval do Conselho Municipal de Meio Ambiente e do Fundo Municipal de Meio Ambiente”, conta.

Ao mesmo tempo, ele pede que a população não compre ovos de tracajás e tartarugas e denuncie aos órgãos ambientais se identificar alguém comercializando o produto. Segundo Jorge, o trabalho será realizado permanentemente na região para conseguir aumentar a população desses animais.

Parte da ilha da Praia do Tucunaré, ressalta, será transformada em Área de Relevante Interesse Ecológico, limitando o espaço de lazer no balneário. A coleta de ovos iniciou no dia 6 deste mês de agosto e a previsão é de que os primeiros quelônios eclodam (nasçam) em cerca de 60 dias. Em outubro será realizado um evento de soltura lá mesmo na Praia do Tucunaré.

Risco de processo

A promotora do meio ambiente Josélia Leontina de Barros Lopes explica que o projeto é essencial para preservação desta espécie. Ela lembra que houve um projeto inicial patrocinado pela mineradora Vale, mas que foi encerrado. Este está retomando as atividades, mas iniciando do zero, tornando-se permanente. “Ele envolve diversas instituições e não está centrado em apenas uma pessoa ou entidade”, comemora.

Josélia Barros revela que foi procurada pelo professor José Pedro de Azevedo Martins, da Unifesspa, e pelo ambientalista Jorge Bichara, que apresentaram o projeto, recebendo total apoio do Ministério Público. “Quelônios de Marabá é extremamente importante para a região e volta num momento importante, quando se discute a preservação dos rios. Ele pode ser copiado em outras regiões do Estado, que também sofrem com a escassez dos quelônios”.

A promotora garante que, no futuro, quando a população de quelônios estiver equilibrada, pessoas interessadas poderão construir criatórios particulares para comercialização de tracajás e até de ovos sem que seja cometido nenhum tipo de crime. Eles serão fiscalizados e certificados por órgãos ambientais.

Por outro lado, a promotora adverte que as pessoas que forem flagradas coletando ou vendendo ovos de tracajás e tartarugas nos rios e praias, neste momento, podem sofrer sanções e responder a processo. “Se há risco de extinção e proibição, essa pesca predatória e retirada de ovos dos ninhos está impedindo que haja o ciclo natural de renovação da espécie. À medida que essas pessoas serão processadas, responderão a uma ação e serão condenadas”, alerta.

Sobrevivência

Alguns relatos indicam que as taxas de sobrevivência até a idade adulta de muitas espécies de quelônios ficam entre 1 e 2%. Ou seja, a cada mil que forem levados para o rio, entre 10 a 20 devem chegar à fase adulta. Por isso a importância de manutenção de forma permanente. (Ulisses Pompeu)

No segundo verso do livro de Gênesis está uma das frases mais conhecidas da Bíblia: “Haja luz”. No passado, as areias da Praia do Tucunaré eram um importante ninho para as mamães tracajás. Mas a cada ano que passa o badalado balneário vai se transformando em uma cidade no verão – com luzes e som cada vez mais alto. E esses ingredientes são os responsáveis por afugentar os tracajás fêmeas dos mais de 2 quilômetros de areia na praia. Para eles, quanto mais escuro e tranquilo, melhor.

Quem alerta sobre esse dilema é o agrônomo Juscelino Bezerra de Souza, que desenvolve pesquisa para o NEAM (Núcleo de Educação Ambiental) da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará) sobre os quelônios dos rios Tocantins e Itacaiunas há mais de sete anos. Ele está engajado no Projeto “Quelônios de Marabá”, que está sendo resgatado pela universidade em parceria com diversas entidades, como o Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam), Ministério Público Estadual, Guarda Municipal, IEDAR (Instituto de Estudos e Desenvolvimento Agrário), IBAMA, ICMBio, Exército Brasileiro, Semma (Secretaria Municipal de Meio Ambiente) e Fundação Casa da Cultura de Marabá.

Juscelino lamenta que a grande quantidade de luz que chega à praia seja um empecilho para as tartarugas realizarem a postura ali. Com isso, acabam indo para longe, como a Praia do Meio, por exemplo, a 15 km de Marabá, em direção a Itupiranga. Este ano, na Tucunaré, foram encontrados apenas cinco ninhos, enquanto na Praia do Meio foram identificados mais de 100. “Temos muitos acampamentos, a outra margem do rio foi ocupada e transformou-se em uma nova cidade, com festas, afugentando os tracajás. Eles sobem para a praia, mas se alguma coisa assusta, voltam para a água em disparada”, revela.

A equipe que está atuando no projeto “Quelônios de Marabá” tenta evitar que as pessoas atravessem para o outro lado da praia, onde as tartarugas aparecem para a postura, mas Juscelino reconhece que esse trabalho é bastante difícil.

Uma equipe de voluntários vai diariamente à Praia do Meio e percorre as areias em busca de ninhos com ovos para coletar e transportar até a base que foi instalada na Praia do Tucunaré.

Ele explica que a retirada dos ovos é feita com muito cuidado e o transporte obedece à posição em que se encontram na areia. “Não podemos virar o ovo no eixo vertical. A movimentação é cautelosa, evitamos o máximo de impacto, até mesmo na hora de depositar no ninho artificial na areia da Praia do Tucunaré”, explica.

Até agora, o projeto já coletou cerca de 1.500 ovos e a perspectiva é de que cerca de 80% nasçam e os filhotes sejam levados para o Rio Tocantins. Cada ninho tem até 20 centímetros de profundidade na areia e a quantidade de ovos que estiver nele é a que vai ser respeitada na hora de colocar na incubadora artificial.

Trabalho em conjunto

O custo de manutenção do projeto Quelônios de Marabá é alto. E o presidente do Comam, Jorge Bichara, explica que a Prefeitura está dando total apoio ao projeto, através do prefeito Tião Miranda, um entusiasta da preservação desta espécie.

Bichara recorda que há uma tradição cultural na Amazônia de comer ovos de tracajá e, com o tempo, começou a acontecer coleta predatória, o que está ocasionando diminuição de tracajás e tartarugas nos rios Tocantins e Itacaiunas de forma acelerada. “Reiniciamos (o projeto) com aval do Conselho Municipal de Meio Ambiente e do Fundo Municipal de Meio Ambiente”, conta.

Ao mesmo tempo, ele pede que a população não compre ovos de tracajás e tartarugas e denuncie aos órgãos ambientais se identificar alguém comercializando o produto. Segundo Jorge, o trabalho será realizado permanentemente na região para conseguir aumentar a população desses animais.

Parte da ilha da Praia do Tucunaré, ressalta, será transformada em Área de Relevante Interesse Ecológico, limitando o espaço de lazer no balneário. A coleta de ovos iniciou no dia 6 deste mês de agosto e a previsão é de que os primeiros quelônios eclodam (nasçam) em cerca de 60 dias. Em outubro será realizado um evento de soltura lá mesmo na Praia do Tucunaré.

Risco de processo

A promotora do meio ambiente Josélia Leontina de Barros Lopes explica que o projeto é essencial para preservação desta espécie. Ela lembra que houve um projeto inicial patrocinado pela mineradora Vale, mas que foi encerrado. Este está retomando as atividades, mas iniciando do zero, tornando-se permanente. “Ele envolve diversas instituições e não está centrado em apenas uma pessoa ou entidade”, comemora.

Josélia Barros revela que foi procurada pelo professor José Pedro de Azevedo Martins, da Unifesspa, e pelo ambientalista Jorge Bichara, que apresentaram o projeto, recebendo total apoio do Ministério Público. “Quelônios de Marabá é extremamente importante para a região e volta num momento importante, quando se discute a preservação dos rios. Ele pode ser copiado em outras regiões do Estado, que também sofrem com a escassez dos quelônios”.

A promotora garante que, no futuro, quando a população de quelônios estiver equilibrada, pessoas interessadas poderão construir criatórios particulares para comercialização de tracajás e até de ovos sem que seja cometido nenhum tipo de crime. Eles serão fiscalizados e certificados por órgãos ambientais.

Por outro lado, a promotora adverte que as pessoas que forem flagradas coletando ou vendendo ovos de tracajás e tartarugas nos rios e praias, neste momento, podem sofrer sanções e responder a processo. “Se há risco de extinção e proibição, essa pesca predatória e retirada de ovos dos ninhos está impedindo que haja o ciclo natural de renovação da espécie. À medida que essas pessoas serão processadas, responderão a uma ação e serão condenadas”, alerta.

Sobrevivência

Alguns relatos indicam que as taxas de sobrevivência até a idade adulta de muitas espécies de quelônios ficam entre 1 e 2%. Ou seja, a cada mil que forem levados para o rio, entre 10 a 20 devem chegar à fase adulta. Por isso a importância de manutenção de forma permanente. (Ulisses Pompeu)

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