Correio de Carajás

Crônica de previsão para ontem. E ponto!

Crônica Ouriço Cheio

Crônica Ouriço Cheio

Ulisses Pompeu

Hora e outra ando pensando no peso da idade. Longe de ser sofrência, mas inquietação. Estou rodeado de amigos ou gente do bem querer incomodada com o tempo que se foi (e vai) ligeiro. Povaréu que está no caminho dos 40, passou dele, beira os 50 ou foi mais um trisco além, como é o meu caso, aos 52.

Eu tinha planejado, para ontem, um jantar com amigos, mas o joelho direito inchou por conta do vôlei e desisti. É a velha condromalácia patelar que insiste em me avisar que não posso jogar tanto vôlei quanto na terça-feira à noite, quando exagerei com amigos, entre levantadas, ataques e defesas na areia. Depois de abandonar o futebol, em 2016, por causa do joelho, agora tento prolongar abandonar o vôlei, um dos dois esportes com bola que ainda pratico.

São as dores nas articulações que nos aparecem com o tempo, embora o fôlego ainda peça para jogar mais. E no trabalho também surgem as demonstrações de que o tempo está sendo cruel com aquele rapaz que entrou na Redação do Correio pela primeira vez aos 26.

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Se há pouco éramos os meninos e as meninas da Redação, hoje alguns nos chamam de “seu” e “dona”. É o novelo. O mesmo tratamento reverencioso que oferecíamos aos mais de idade que encontramos quando aportamos por aqui, hoje ele volta-se para mim, o vovozinho da equipe, literalmente.

Mas o jornal e a Redação não são a questão. Desembarcar nos 40, percorrer os 50 poderia ser mais sossegado. Ruminado com prazer e menos lições pra aprender com o tempo e ter de professar experiência de quase três décadas de fazer jornalístico.

O desconforto, talvez, não esteja no que passou, mas o que se reserva para a próxima segunda-feira. Digo das segundas porque tenho a besteira de crer que a vida vai mudar numa delas. Dia choramingado, do recomeço indolente e pedinte.

Recomeço é bom, mas prefiro quando o sábado pega a estrada.

Curioso é que a perturbação dessa geração, de ir avançando no tempo, chega num momento em que a possibilidade de viver mais foi espraiada.

Se no tempo de minha infância era difícil ir além dos 60, um foguete pode nos levar aos 100, caso nenhuma fatalidade entre na encruzilhada.

Mais tempo pra viver e também para iniciar cadernos e cadernos em branco. Tomo susto com notícias de que minha ex-turma de acadêmicos da UFPA (Letras e Artes) já se encaminha para a aposentadoria. Encontrei uma das colegas dias desses e me contou que faltam apenas três anos para entrar no Ipasemar com seu pedido de aposentadoria.

A ilusão é que foi bem ali o 1994, 1995, 1996, 1997…1998…

Pois muito bem, acho que não sei como terminar este texto. Não posso prever o que vão ser dos dias quando chegarem os 60 (daqui a oito anos).

Quase nem notei a passagem dos 30 para os 40, dos 40 para os 50. Não fosse o corpo que vai se substituindo (para uns avassalador), ainda subo em goiabeiras quando encontro umas porrudas e ainda pedalo 60, 70 km com meu parceiro André Figueiredo, num bate e volta em Morada Nova e Bom Jesus do Tocantins.

Não fossem também os comichões, as idiossincrasias, os triques-triques do compreensível humano e as agendas que me mandam para contar os dias “úteis”, não esquadrinharia convencional a passagem do tempo.

Penso na aparente angústia de um amigo que chegou aos 40 na semana passada, achei-o meio desencantado. Tem motivos para puxar novelos e novelos.

Encerro com a frase de uma amiga, que está na beirinha dos 40 e não menos enlinhados os pensamentos: “agora, um projeto por vez”. Diferente de quando tinha 20 e poucos anos e atirava em tudo sem serenidade. Talvez!

* O autor é jornalista há 26 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira

 

Observação: As opiniões contidas nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do CORREIO DE CARAJÁS.

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